• Natasha Krahn

A fotografia da criança e do abutre: pensando sobre o papel do cientista social




Como cientistas sociais muitas vezes capturamos e apresentamos uma realidade que poucos conhecem, e que muitos nem desejam conhecer ou entender. Somos responsáveis por mudar a realidade das pessoas? É sobre esse assunto que pretendo tratar na minha coluna.


Lembro que ao assistir ao filme Repórteres de Guerra (2011) sobre o fotógrafo da famosa foto, vencedora do Pulitzer em 1994, onde uma criança faminta e desnutrida estava sendo observada por um abutre, de Kevin Carter, me fez pensar sobre o papel do cientista social. Mas, como o fotógrafo, pouco fazemos para mudar essa realidade.


Muitas são as vezes que falo sobre minhas pesquisas e me perguntam: e qual a solução? (ainda mais que boa parte das pesquisas demonstra que está tudo errado, pedindo permissão para exagero). Quem nunca? Nosso papel é muito pouco propositivo. Podemos, em nossas considerações finais, até apontar certos caminhos, mas em geral a academia não nos coloca nesse lugar. Aprendemos a imprimir um olhar para os problemas sociais, analisa-los de forma crítica, adotar lupas de compreensão que permitem ler as entrelinhas, mas pouco nos é ensinado e incentivado a pensar em alternativas. O mesmo que já – desde suas origens – contestado, lugar de neutralidade e objetividade do cientista, ainda nos afasta do campo pesquisado, e nos afasta do campo político que seria o espaço para executar ações propositivas.


Ao voltar a campo, agora, me deparei com a culpa de ser pesquisadora – e descobri, há pouco, não estar sozinha nesse lugar. Anteriormente atuava na pesquisa e em políticas públicas no espaço prisional ao mesmo tempo, então estava num duplo papel que me permitia minimamente imprimir meu olhar no trabalho desempenhado e criticá-lo ao mesmo tempo num ciclo reflexivo-ativo (ou ao menos tentava). Hoje volto para a pesquisa, dessa vez sobre as vidas de sujeitos que estão em situação de privação de liberdade e não mais trabalhando em atividades dentro/para desse/esse espaço.


Nesse processo me percebo, muitas vezes, pensando: para quê? Com que direito? Mudará a vida de alguém? Sei que dará voz à alguns e algumas que são invisíveis, indesejados e indesejadas pela sociedade. Sim, nossas pesquisas, artigos, fotografias, filmes dão visibilidade, mas para quê? Geram uma indignação imóvel pelo sentimento de impotência que sentimos, ou pelo comodismo, ou ainda pior, podem dar combustível para as vozes intolerantes e conservadoras da massa crescente dos “cidadãos de bem” que deturpam nossas interpretações, efeito a la Tropa de Elite.


Nesses processos de pesquisa – e de culpa – uma série de dramas se instalam: se envolver?, não se envolver?, como se envolver?, como lidar com tudo que se ouve e com tudo que se sente?, quem sou eu nesse espaço?, o que farei com minha pesquisa?, que responsabilidade tenho eu?...


No nosso percurso acadêmico refletimos muito pouco sobre isso, e esse envolvimento/ativismo é até desencorajado pela ciência social, afinal, como ser objetivo se envolvendo? Precisamos do tal distanciamento... E, distantes ficamos...


Não nego essa necessidade de distanciamento para a produção acadêmica, mas para quem escrevemos? Para quê escrevemos? Nesse processo de distanciamento a maioria de nós acaba ficando à parte, divulgando seus achados entre os seus, como produção que aumenta o ego, mas não muda a realidade.


Acredito que aos poucos temos encontrado mais espaços políticos para atuar, e, no atual contexto, mais ouvidos para nos escutar – talvez, sendo otimista. Algumas mudanças nas grades de disciplinas dos cursos e algumas iniciativas tem buscado a aproximação entre a academia e a sociedade. Mas as ciências sociais (sociologia, ciência política e a antropologia) ainda precisam, como unidade, buscar seu espaço na política para deixar de ser observadores e apresentadores de realidades impactantes, mas pouco mobilizadoras.

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