Pensar, re-olhando o humano

 

Antes de começar a escrever qualquer artigo sobre comportamento, gostaria de trazer um pouco do meu olhar, da minha perspectiva. Quando se fala em Psicologia, minha área de formação, um dos lugares de onde falo, geralmente se pergunta o que ela estuda, e, a resposta mais comum é ou a psique, enquanto alma ou subjetividade, ou o comportamento, como algo concreto e observável. Embora eu não seja propriamente um comportamentalista, mas um humanista, busco me ater ao que há de mais imediato, às questões concretas, à vida concreta, no mundo presente, a partir de um viés pragmático. Este é, de certo modo, a minha perspectiva.

 

 Sem querer invalidar  diversas teorias e suas explicações, sempre muito interessantes e quase sempre possíveis, mais do que teorizar, me interessa descrever, transmitir, através do meu olhar, o que vejo, o que sinto e o que penso, e deixar em aberto o caminho do diálogo, para que essa realidade possa ser preenchida por outras perspectivas.  Antes de tudo me interessa o humano, em sua totalidade sempre multifacetada, nos diversos lugares em que transita, nas diversas dimensões de sua existência no mundo, de modo que, ao observar este humano, nas diversas pessoas, eu não me atenha apenas ao que lhe é individual, próprio e único, mas também ao social, cultural, político, histórico, artístico e espiritual.

 

Não é possível compreender o comportamento humano ou o próprio humano enquanto subjetividade, desprendido de sua existência concreta no mundo. Cada pessoa é uma existência concreta no mundo, situada no espaço e no tempo, agindo numa realidade que se faz nas interações sociais, nas relações simbólicas que permeiam uma cultura, nas relações econômicas e de poder que se dão no social, construindo e desconstruindo criativamente seus modos de recordar o passado, viver o presente e projetar o futuro.

 

Os seres humanos - homem, mulher, criança, idoso, branco, negro, indígena, heterossexual, homossexual, bissexual, travesti, transexual, cristão, católico, evangélico, umbandista, candomblecista, espirita, budista, muçulmano, ateu, conservador, liberal, anarquista, capitalista, socialista, comunista, desenhista, pintor, escultor, ator, cantor, dançarino, performer, arquiteto, engenheiro, advogado, médico, CLTista, estatutário, autônomo, estagiário, desempregado, louco, mendigo... todos e muito mais -, compõem, cada qual com sua história, exemplos concretos de modos circunstanciais de ser humano no mundo real e concreto, geograficamente localizado, em Salvador, na Bahia, no Brasil, na América Latina, no continente americano, no planeta Terra, no sistema solar, na Via Láctea, no Universo.

 

O olhar contemporâneo e “cosmopolitano” visa esse homem situado no local, no presente imediato do hoje, e ao mesmo tempo, no cosmos, no universo, no tempo para além do agora, que inclui o passado, o presente e o futuro, sem, no entanto, pretender a sua completa apreensão. O humano real e concreto não é uma mera abstração, mas é mistério plural que vai se manifestando e se desdobrando nos espaços e tempos, se deslocando do individual para o interpessoal, o grupal, o social e o coletivo, que o transcendem.

 

Pensar o comportamento humano, assim como sua existência subjetiva, sua alma, seus desejos, seus sentires, não é possível apenas isolando esse homem, dissecando-o em busca de uma essência abstrata, mas descrevendo e compreendendo cada manifestação de seus gestos de existir como um exemplo da potencialidade de um todo concreto, situado no mundo, na vida, no tempo, no local. Para além de qualquer teoria escrita no passado, faz-se necessário “reolhar” a cada dia, o humano concreto que nos avizinha, que nos afeta e nos compõe o enredo de nossa própria história. Reolhar, sem julgamento prévio, o humano manifestado na existência do outro, para quem sabe redescobrir o humano que existe em nós mesmos.

 

Pensando desse modo, proponho, nos textos que seguirão em breve, um olhar não apenas psicológico, mas antropológico, sociológico, político, econômico, cultural, artístico, religioso, e, principalmente, existencial. Não pretendo teorizar sobre o humano, mas refletir esse humano a cada momento, desdobrando-o e desvelando-o não em seus segredos ocultos, mas no óbvio que se faz presente e acessível a cada um de nós em nossas vivências cotidianas.

 

Meu material de expressão será não apenas a escrita, mas o olhar, buscando iluminar, quem sabe, o humano próximo e cotidiano que, na maior parte de tempo deixamos de perceber e reconhecer como human­­­­­­­­­o como nós, por desatenção, preguiça, indiferença ou pretenso sentimento de superioridade. 

 

Espero que todos apreciem as próximas leituras e, de algum modo, se deixem afetar por elas, tal como, diariamente, me deixo afetar por aquilo que olho nas minhas vivências cotidianas.

 

 

 

 

 

 

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