Parábola

 

- E lhes disse: “Dentro de nós está o poder de nosso consentimento para a saúde e a doença, a riqueza e a pobreza, a liberdade e a escravidão. Somos nós que controlamos isso, e não os outros. ”

- Um moleiro disse: “Essas palavras são fáceis em tua boca, Mestre, pois és guiado como não somos nós, e não precisas trabalhar como trabalhamos. O homem tem de trabalhar para ganhar a vida neste mundo. ”

 

- O mestre respondeu: “Uma vez havia uma aldeia de criaturas no fundo do leito de um grande rio cristalino. A corrente do rio passava silenciosamente por cima de todos eles, jovens e velhos, ricos e pobres, bons e maus, a corrente seguindo o seu caminho, só conhecendo o seu próprio ser cristalino.

 

“Cada criatura, a seu modo, se agarrava fortemente às plantas e as pedras do leito do rio, pois agarrar-se era o seu modo de vida, e resistir a correnteza era o que cada um tinha aprendido desde que nascera.

 

“Mas uma das criaturas disse, por fim: ‘Estou farto de me agarrar. Embora não possa ver com meus próprios olhos, espero que a corrente saiba para onde está indo. Vou soltar-me e deixar que ela me leve para onde quiser. Se me agarrar, morrerei de tédio. ’

 

As outras criaturas riram-se e disseram: ‘Louco! Se você se soltar, essa corrente que você adora o lançará despedaçado sobre as pedras e sua morte será mais rápida do que a causada pelo tédio’.

Mas aquele não lhes deu ouvidos e, respirando fundo, soltou-se, e imediatamente foi lançado e despedaçado pela corrente sobre as pedras.

 

“Mas com o tempo, como ele se recusasse a tornar a se agarrar, a corrente o levantou, livrando-o do fundo, e ele não se machucou nem se magoou mais.

 

“ E as criaturas mais abaixo do rio, para quem ele era um estranho, exclamaram: ‘Vejam, um milagre! Uma criatura como nós, e, no entanto, voa! Vejam, é o Messias que chegou par nos salvar’!

 

“E aquele que foi carregado pela corrente disse: ‘Não sou mais Messias do que vocês. O rio tem prazer em nos erguer à liberdade, se ousarmos nos soltar. O nosso verdadeiro trabalho é essa viagem, essa aventura’.

 

“No entanto, cada vez exclamavam mais ‘Salvador’, enquanto se agarravam às pedras; quando tornaram a olhar, ele se fora, e eles ficaram sozinhos, inventando lendas sobre um salvador”.  

Richard Bach, Ilusões – As aventuras de um Messias indeciso.

 

A parábola acima retrata aspectos interiores e exteriores de uma psique individual e coletiva em desenvolvimento, a caminho da individuação, do torna-se S(s)i-mesmo. Essa é a nossa meta! Para tanto, é preciso diferenciar-se do(s) Outro(s) simbióticos que nos impedem de sermos quem somos.

O descompasso entre as energias do indivíduo e os desvarios provocados pelo desmantelamento do coletivo provoca a anomia, o desencantamento do mundo. O “Messias”, o “Salvador”, não é aquele que está fora de nós, mas dentro. O sentido da vida individual e sua importância podem ser negados por aquele que está abaixo do nível normal de ajustamento. Dentro da sociedade, e será negada sempre por aquele cuja ambição é ser criador de rebanhos.

 

Estamos atravessando uma confluência de uma Época de Mudança e Mudança de Época. O Homem não é mais visto como um ponto de chegada, mas como um Ser de passagem, multifacetado e transitório. Esse movimento se dá no instante, “eu vou existindo para mim na medida em que vou me revelando”. A parábola nos retrata uma tentativa de dar forma ao trajeto de um Ser de passagem e não de um Ser finalizado.

 

Nossa psique é formada por aspectos biopsicossociais e espirituais. Novos paradigmas dentro do campo científico têm comprovado a multiplicidade causal e de interferência em torno do psiquismo humano. Novos olhares são necessários para compreender o agir humano nesse novo tempo de Idade Mídia, atravessado por uma crise de autenticidade e vivência ficcional.

 

O mundo é um sistema de coisas que se apresenta ao homem enquanto enigma. Para sermos salvadores de nós mesmos, é necessário desvelar o mundo, desestranhá-lo. Proponho-me, nesse espaço de olhares e reflexões contemporâneas, refletir sobre a multiplicidade do agir humano, a partir da integração de diversos campos alicerçados na Psicologia, Filosofia, Espiritualidade, Literatura, Artes e vivências do cotidiano.

 

Não existe nenhuma possibilidade de dar certo sozinho. Avante!!!

 

 

 

 

 

 

 

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