Loucura nossa de cada dia ou O direito ao surto

July 23, 2017

 Melancolia, Edward Munch (1891)

 
 

“Vida louca vida

Vida breve

Já que eu não posso te levar

Quero que você me leve”

Cazuza.

 

Hoje irei tratar de um tema incomodo: a loucura. Incomodo por ninguém querer um dia vivenciar este estado, por a maioria das pessoas não saberem lidar com ele e, principalmente, por se negarem a compreender suas causas e consequências. Vivemos, no entanto, em uma época em que cada vez mais pessoas tem sido acometidas pelo sofrimento psíquico e emocional, pelos diferentes transtornos mentais e comportamentais, chegando ao ponto extremo do suicídio.

 

Primeiramente, creio que seja importante esclarecer que os transtornos mentais podem acometer qualquer pessoa. Isso mesmo, qualquer pessoa! E não apenas os chamados “loucos”. A perda “completa” da razão, que popularmente chamados de loucura ou psicose, acomete, na verdade, uma camada muito pequena da população e nem sempre se dá do modo como comumente imaginamos, e, mesmo ela, tem fatores desencadeantes ou agravadores decorrentes de situações vivenciadas no meio social.

 

A loucura não necessariamente se dá apenas por predisposições genéticas ou hereditariedade, não necessariamente acomete apenas pessoas de baixa renda, os chamados “loucos de rua”, estando presente em diferentes segmentos da sociedade. Não irei me ater hoje especificamente a esses casos clássicos de esquizofrenia ou outras psicoses, mas à nossa loucura cotidiana, fruto de nosso modo de vida ordinário, que nos leva ao surto, às vezes necessário.

 

Atualmente os principais transtornos mentais e comportamentais estão relacionados ao estresse e manifestam-se na forma depressiva, ansiosa ou num misto depressivo-ansioso. Os quadros diagnosticados como síndrome do pânico, transtornos de estresse pós-traumático, transtornos mistos ansioso-depressivos, transtornos de humor depressivo ou bipolar, transtornos obsessivos-compulsivos, transtornos de adaptação e as neuroses profissionais, sem contar os múltiplos sintomas físicos sem causa orgânica aparente, chamados de transtornos de somatização, têm sido os mais comuns que tenho observado na minha prática profissional como psicólogo ocupacional e na clínica, em consultório particular.

 

Os fatores que levam a estes quadros de adoecimento mental são os mais diversos. Como preconizou longamente a psicanálise, alguns desses quadros clínicos podem ter fatores constitutivos de personalidade, influenciados por experiências precoces da infância, como base para uma predisposição ao adoecimento, porém tenho experienciado que a maioria desses transtornos tem se desenvolvido principalmente na fase adulta da vida, em pessoas “comuns”, que estudam, trabalham, se relacionam afetivamente e constituem família. De todo o modo, as causas do sofrimento emocional quase sempre estão relacionados a eventos ocorridos no âmbito dessas relações e nos diversos contextos da vida cotidiana.     

 

O estresse, por exemplo, pode estar relacionado tanto às rotinas domésticas, de estudo e trabalho, quando ao modo intenso vivido nas grandes cidades. Suas causas geralmente estão associadas às múltiplas demandas externas, a exigência por respostas imediatas que extrapolam a capacidade de realização do sujeito.

 

Antigamente, quando havia uma divisão mais definida das tarefas por sexo, com trabalhos distintos realizados por homens e mulheres, sendo ao homem delegado prover o sustento da família e à mulher o cuidado dos filhos e do lar, esse excesso de demandas, creio eu, eram melhor administrados. Com a necessidade cada vez maior de tanto homens quanto mulheres assumirem e dividirem as despesas do lar e a economia doméstica, tem havido, por exemplo, uma sobrecarga maior das mulheres, que se dividem em múltiplas tarefas e múltiplas demandas de trabalho, o que não era uma realidade comum, por exemplo, na década de 50, a cerca de setenta anos atrás.

 

Além disso, as separações conjugais, decorrentes dos conflitos emergentes, em parte, desse novo estilo de vida, e os novos arranjos de família, contribuem para o surgimento de novos conflitos, ligados à criação e educação e à guarda partilhada dos filhos, cada vez mais difíceis de serem educados com limites e valores éticos, apesar da redução significativa das taxas de natalidade e fecundidade na população em geral.

 

A violência urbana, os engarrafamentos que consomem grande quantidade do “tempo útil” daqueles que vivem nos grandes centros urbanos, associadas a instabilidade econômica, social e política que vive o nosso país,  com seus reflexos no crescente índice de desemprego, inclusive entre trabalhadores mais qualificados profissionalmente, têm contribuído para o aumento dos transtornos de ansiedade e depressão, dado o esgotamento emocional das pessoas submetidos a essas rotinas, inseguranças e incertezas.

 

No âmbito das relações de trabalho, a competitividade, a exigência de cumprimento de metas muitas vezes surreais, e os conflitos nas relações interpessoais entre pares e nas hierarquias organizacionais, associados à precarização dos vínculos de trabalho, que cada vez mais submetem os trabalhadores a riscos ocupacionais, vínculos de exploração, assédio moral e continua insegurança quanto à manutenção da empregabilidade, da subsistência e sustento seu e da família, também têm contribuído enormemente para o desenvolvimento de quadros ansiosos e depressivos, dos transtornos de adaptação e das chamadas neuroses ocupacionais.

 

Somado a tudo isso, ainda temos o nosso modo de vida cada vez mais individualista e individualizado, a solidão que acomete as pessoas solteiras, os imigrantes, manifesta pelo distanciamento e fragmentação dos vínculos familiares e a superficialidade das relações amorosas, afetivas e de amizade. Mais e mais pessoas têm vivido experiências de solidão, carência de afeto e de vínculos necessários à manutenção do bem estar emocional. Tais vínculos são importantíssimos para o provimento de suporte social em momentos de crise e adoecimento.

 

Além de todo esse quadro amplo e complexo que envolve múltiplos fatores e contextos, tem-se ainda que se lidar com o estigma social daquele que se vê acometido por transtornos mentais e comportamentais, pelo fato de o sofrimento psíquico nem sempre ser algo visível externamente.  Na maioria das vezes, a pessoa adoecida tem seu sofrimento minimizado ou menosprezado pelas outras pessoas, que não conseguem compreender os motivos que levaram ao adoecimento e à manutenção do sofrimento. Além disso, mantem-se as exigências continuas de produtividade e de permanência da pessoa ativa no trabalho, o de a ele retornar o quanto antes, pois “o trabalho é honra e enobrece o homem!”, mesmo que quando ele é um dos fatores desencadeantes do adoecimento do trabalhador.

 

A falta de apoio social e econômico por parte do governo, seja pelo curto período de deferimento de benefícios de auxílio doença pelo INSS, seja pela a escassez de serviços de saúde especializados para o tratamento desses tipos de transtornos mentais “menos loucos”, pelo SUS, já insuficiente para atender com qualidade toda a demanda de transtornos mentais mais "clássicos", a carência de recursos para o fornecimento de medicações, geralmente de alto custo, e de terapêuticas complementares e alternativas à medicalização, contribuem para a cronificação dos quadros de adoecimento mental, por não se dar as condições necessárias ao pleno restabelecimento da saúde mental e emocional dos cidadãos emocionalmente adoecidos.

 

Os altos custos dos tratamentos médicos, terapêuticos e medicamentosos e a longa duração desses tratamentos, levam à baixa adesão, à descontinuidade e à cronificação dos quadros de sofrimento, refletindo e retroalimentando os conflitos nos diversos contextos sociais em que o sujeito em sofrimento se vê inserido, agravando as tendências ao isolamento social, fragilizando os vínculos familiares e afetivos que já são precários, tendendo a rupturas que agravam ainda mais estes quadros, podendo culminar no suicídio dos pacientes mais graves que não contaram com o suporte social e profissional necessários.

 

Já extrapolado o limite deste artigo, não irei me aprofundar mais nos fatores que levam ao adoecimento mental, e, nos casos mais graves, ao suicídio. Buscarei tratar desse tema em outra oportunidade. Fica aqui, porém, o convite à reflexão quanto à necessidade de quebrarmos certos paradigmas, preconceitos, tabus e estigmas relacionados aos transtornos mentais e comportamentais. Como disse no início, qualquer pessoa pode vir a sofrer algum tipo de sofrimento emocional - eu diria, inclusive, que tem o direito de surtar(!) de vez em quando. Esse sofrimento, quando não devidamente acolhido e cuidado e, por isso, cronificado, pode vir a se tornar um transtorno mental grave, de difícil reversão ou controle sintomatológico.

 

A percepção dos fatores que levam ao sofrimento e a busca por suporte social e profissional precocemente, é fundamental para que sejam encontrados modos de enfrentamento ou “saídas” saudáveis e funcionais dos contextos, situações e conflitos que levam ao sofrimento e adoecimento. O próprio adoecimento, às vezes, é uma tentativa de sair do sofrimento, porém nem sempre adaptativa.

 

Quanto antes se percebe a necessidade de buscar ajuda e se adere aos tratamentos e práticas voltadas à melhoria da qualidade de vida, maior a possibilidade de se manter íntegros os vínculos sociais e de trabalho, e menores as consequências negativas, a longo prazo, decorrentes da cronificação do sofrimento.   

 

Espero que esse artigo, embora panorâmico, tenha sido útil para todos, e os ajudem no lidar com o próprio sofrimento ou o sofrimento de pessoas próximas.

 

Semana que vem continuo, abordando o tema do suicídio.  

 

 

Melancolia, Edward Munch (1892)

 

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