Breve comentário da obra O Existencialismo é um Humanismo

July 27, 2017

 

 

 

 

 

Na obra “O Existencialismo é um Humanismo”, do filósofo francês existencialista, Sartre, há uma menção a literato russo Fiódor Dostoiévsky: “ Se Deus não existisse tudo seria permitido”. Qual a profundidade dessa frase citada por um personagem do livro “Os Irmãos Karamazov”, na visão de Sartre?

 

O existencialismo tem a seguinte premissa fundamental: a existência precede a essência. O que significa? Na perspectiva sartreana não há uma essência humana a priori à vida dos indivíduos. Em outras palavras, a consciência humana é nada. Não há substância atemporal que incide sobre a constituição ou engajamento de alguém. A consciexperiência vai se formando ao longo da experiência fenomênica, no mundo da vida. Ou seja, na existência, no real, a subjetividade vai se fazendo em uma relação de intersubjetividade.

 

O ser humano é um projeto em formação. Logo, não nasce pronto. O engajamento é um constante devir. Não há  sentido para a existência humana, pois cada qual cria um sentido próprio, adequado a sua experiência. A vida é um processo de gratuidade, e a contingência é algo concreto. Logo, toda tentativa de buscar uma explicação a priori que justifique, por exemplo, uma vida infeliz, é uma atitude do qual Sartre chama de “ma-fé”. A ma-fé é o contrário da livre-escolha, pois aquela estaciona o indivíduo em uma camisa de força ou o prende em falsas algemas.

 

Se não existe um valor essencial, individual ou social, antes mesmo da experiência humana, o que pode sustentar a coesão social? Se o homem é condenado a ser livre, e essa liberdade precede qualquer outro princípio moral, isso abre a possibilidade de que qualquer individuo pode usar da sua liberdade sem importar-se com o próximo. Sartre mergulha na mesma fonte de alguns pensadores que o precederam, tal como Kant[1], e entende que os valores religiosos sustentam a existência em sociedade. A consequência disso é que Deus é necessário. Ou um mal necessário.

 

Os princípios religiosos, tais como igualdade, respeito, compaixão, liberdade, honestidade, dentre outros, servem como parâmetros a priori, no sentido de ser um norte para a conduta das pessoas. As constituições ocidentais, hoje, laicas, legaram preceitos éticos das tradições espirituais. Nesse sentido, o existencialista negando a possibilidade da existência de Deus, não joga fora valores sagrados, pois entende a importância de tais bases para convivência em sociedade.

 

A crença no divino, e os valores criados historicamente para aproximar o homem da deidade constituiu códigos de conduta moral (reflexão deliberativa) e ético (códigos de conduta) que foram capilarizados socialmente e fundamentaram uma solidariedade coletiva. Não se pode jogar fora esse legado.

 

Porém, Sartre enxerga limites e problemas em tais éticas e crenças. Pois, pessoas são eximidas sobre a responsabilidade de suas vidas, impedindo muitas vezes de serem livres e escreverem sua própria história. Acorrentados nos grilhões essencialistas suas condutas são guiadas. Mas,

 

[...] O existencialista não pensará tampouco que o homem pode encontrar auxilio em algum sinal da terra que o oriente; pois considera que o homem é quem decifra, ele mesmo o sinal com o que melhor lhe parecer. Assim, pensa que o homem, sem nenhum tipo de apoio e nem auxilio, está condenado a inventar a cada instante o homem. ( SARTRE, 2010, p. 25)

 

Por fim, respondendo às críticas da opinião pública, Sartre defende a importância do projeto universalista, humanista, da convivência em detrimento de um puro individualismo que pode beirar o extremo egoísmo:

 

 

[...]  Nós estamos nos aprendendo a nós mesmos diante do outro, e o outro é algo tão certo para nós quanto o somos nós mesmos [...]  O outro é indispensável para minha existência, tanto quanto, ademais, o é para o meu auto-conhecimento [...]  ( SARTRE, 2010, p. 34)

 

 

 

Referência

 

SARTRE, Jean Paul. O Existencialismo é um humanismo. Petrópolis: Ed. Vozes de Bolso, 2010.

 

 

[1] O imperativo categórico de Kant é uma moral, que apesar de ser laica, tem um fundamento cristão.

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