Religião e Política não se misturam. Será?

August 11, 2017

 

Quem nunca ouviu que “politica e religião não se misturam”? Essa se tornou uma afirmação bem comum. Faz clara alusão ao grande número de parlamentares pertencentes à chamada “bancada evangélica” e demais bispos ou pastores presentes nas Assembleias Legislativas e Câmara de Vereadores Brasil afora. Pretendo abordar a questão pra ver se concordo ou não com essa máxima.

 

Desde a Proclamação da República o Estado é laico – ou seja, os princípios democráticos não estão fundamentados nas crenças religiosas. Estas teriam seu espaço reservado para professar seus cultos sem se entrelaçar com os destinos da Nação. Nesse período havia um alto número de católicos. A história do país, até então, não mostra interesses nem intervenções de qualquer vertente religiosa em assumir postos no executivo, nem legislativo. Os anseios para isso foram bastante moderados.

 

Deparando-me com uma pesquisa do IBGE que apontava um crescimento de 61% no número de adeptos das variadas denominações evangélicas no ano de 2012, penso que com um aumento desses não tem como boa parte desse segmento não penetrar no espectro político e alcançar algumas escalas de poder. Um estudo ainda revelou que até 2040 os evangélicos vão superar os católicos em número de adeptos. O interesse só crescia até que partidos foram fundados para a defesa de bandeiras aos cristãos, como o fortalecimento da união familiar. E assim, estendem seus discursos para além dos templos e reiteram a importância desse grupo nos rumos do país. E aí é preciso uma reflexão para articular a problemática colocada. Vamos lá.

 

Não vejo contratempo quando um líder religioso pleiteia uma vaga no parlamento ou qualquer outra cadeira legislativa. Seus projetos de lei podem seguir muitas direções que abrangem o universo de um crente: maior repasse de verbas a associações beneficentes; criação de convênios que possibilitem fomentar ajudas a instituições de caridade; firmar parcerias entre escolas e entidades cristãs; planejar apoios às instituições religiosas que trabalhem em comunidades carentes e outras ideias de âmbito social que contam com o auxilio de pessoas de fé. Nenhuma objeção a isso. Além do mais, líderes católicos estão envolvidos em iniciativas que envolvem debates políticos, como as comissões pastorais (da Terra, da Juventude, da Cultura, Educação, etc.). A Confederação Nacional dos Bispos do Brasil participa, como mediadora, de resoluções de conflitos sociais que envolvem agentes públicos – a exemplo da greve da Polícia Militar da Bahia, em 2013, quando o Arcebispo Primaz do Brasil Dom Murilo Krieger participou das negociações. Ou seja, há participação política de sujeitos com destacada liderança religiosa na seara política.

 

Agora a inquirição maior: a representação parlamentar oriunda das religiões evangélicas (em sua maioria) mostra-se mais preocupada em barrar projetos da base progressista ao invés da proposição de uma agenda voltada para o fortalecimento das entidades cristãs que contribuem para o bem-estar da sociedade – como citei anteriormente. A bancada evangélica luta pelo arquivamento de leis que atendem, sobretudo, o segmento LGBT (a saber, como o que estabelece homofobia como crime, além da União Civil entre pessoas do mesmo sexo e o Estatuto das Famílias e estudos com célula tronco. Isso sem falar que a regulamentação do aborto jamais será sequer discutida). Apesar do cuidado em utilizar argumentos com base na constituição e em pesquisas científicas, esses deputados não conseguem esconder suas convicções morais por trás de suas decisões. Portanto, se religião e política podem caminhar paralelamente caso seus líderes ampliem o escopo da benevolência religiosa para configurar apoio politico e governamental a causas reconhecidamente de cunho cristão, o mesmo não se pode dizer de dos parlamentares que são dirigentes de denominações evangélicas, que usam preceitos religiosos como escudo para barrar projetos constitucionais! Ou seja, onde se lê que religião e política não devem caminhar juntos, a interpretação, a meu ver, é a seguinte: o que não se mistura é religião e Estado!!

 

Pisando em campo minado ao tentar refletir sobre um assunto espinhoso como esse, não sei se sobrou perna para seguir com esse raciocínio. Encerro afirmando que todos podem dar sua contribuição no terreno fértil da política – organização vigente que abrange a todos.

 

 

FONTES:

 

https://ibdfam.jusbrasil.com.br/noticias/112107149/projeto-de-estatuto-das-familias-e-apresentado-no-senado

 

http://www.ocafezinho.com/2016/08/31/o-brasil-caminha-para-ser-uma-nacao-de-evangelicos-e-isso-preocupa-nossos-parceiros-nos-brics/

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