Virtualidade e intimidades: paradoxos contemporâneos.

August 13, 2017

 

a meus amigos virtuais.

 

 

Retomando alguns temas tratados em artigos anteriores, irei falar hoje de um assunto mais do que conhecido e vivenciado por todos nós que estamos conectados à web: os relacionamentos virtuais vividos nas redes sociais, sites e aplicativos de relacionamento.

 

Já faz alguns dias que eu estava pensando em tratar desse assunto, porém a ideia foi reafirmada a partir de duas situações que me chamaram a atenção: 1) uma fala de um amigo do facebook tecendo elogios sobre os aplicativos de relacionamento e sexo, que permitia “rastrear” pessoas a poucos metros de distancia, e 2) a notícia de que o tema da “intimidade em tempos de avanços tecnológicos” seria tratado em um evento cientifico, provavelmente na área de Psicologia.

 

Tentarei, então, neste breve espaço, fazer algumas considerações sobre esses dois temas, seguindo um pouco a partir das ideias que venho apresentando em meus artigos anteriores sobre comportamento, em especial os que falam sobre a solidão e a questão da educação sexual.

 

Primeiramente acho importante considerarmos como primeiro aspecto os avanços tecnológicos e a relação deles com o avança da (nossa) “humanidade”. Coloco o nossa entre parênteses e o humanidade para destacar os dois termos, e brincar um pouco com o duplo sentido de “humanidade”, seja como o que caracteriza a nós humanos, seja o nosso próprio processo de civilização.

 

É inegável que nos últimos cento e cinquenta anos tivemos avanços enormes, em especial nos meios de comunicação. Saímos das cartas manuscritas, passando pelo telegrafo e telegrama, telefone, radio, televisão, até chegarmos por fim (será o fim?) à internet e os celulares que são verdadeiros computadores. Essas mídias e meios de comunicação conseguiram tornar o mundo efetivamente globalizado e conectado em tempo real. Tanto os contatos diretos pessoa-pessoa, quanto o acesso a informação em qualquer lugar do mundo se tornou praticamente imediato, com exceção de alguns poucos lugares mais remotos ou fechados a esses avanços tecnológicos por motivos de ordem política ou econômica. 

 

Hoje temos, apesar dessas exceções, tecnologia capaz de conectar todo o planeta e até mesmo nos conectar a outras regiões do espaço. Tudo isso conquistado em um período extremamente curto de tempo, se considerarmos que a espécie humana homo sapiens tal qual a conhecemos e temos indícios arqueológicos, teria em torno de duzentos mil anos sobre a Terra, dos quais, a apenas a dez mil anos ainda estávamos na condição de animais caçadores-coletores restritos ao continente africano. Considerando essa perspectiva temporal, cento e cinquenta anos é apenas o tempo de um “espirro” (atchim!) no processo civilizatório.

 

E que espirro!!!

 

Pois bem. O mesmo se aplica a nossa subjetividade, a nossa consciência de nós mesmos, que talvez seja um pouco mais velha, podendo nós retomar os tempos das primeiras reflexões filosóficas socráticas do “Conhece-te a ti mesmo” délfico, ou, mais modernamente, o marco do pensamento cartesiano que propôs o “Cogito ergo sum” (Penso, logo existo), que nos distinguiu do mundo e dos outros seres , fundando a separação entre sujeito e objeto. Mas não me interessa me debruçar sobre essas questões filosóficas, por mais que considere imprescindível esse conhecer a si mesmo e essa compreensão de que não somos objetos, mas sujeitos pensantes.

 

De todo o modo, o que sabemos é que toda essa vida privada, essa interioridade, essa reflexão sobre si mesmo e sobre as relações com o outro e com o mundo não tem muito mais que dois mil e quinhentos anos, e as primeiras reflexões sobre as paixões humanas remontam aos tempo de Sócrates. Ainda assim, são bem mais antigas que o nosso avanço tecnológico – tendo em vista que nos tempos de Sócrates ainda se escrevia em papiros -, e a todo esse fenômeno atual de globalização e hiperconexão no mundo virtual.

 

Hoje não mais navegamos oceanos nunca dantes navegados em busca de seda e especiarias trazidas das Índias, ou em busca de terras além mar do Novo Mundo, como nos tempos da primeira globalização alcançada via expansão marítima. Navegamos na web, nas redes virtuais, nas nuvens tecnológicas que nos tornam verdadeiramente globais e globalizados. Agora, qual é o impacto disso para nós, humanos, e, principalmente, para nossas relações interpessoais e para nossa vida emocional e afetiva? Onde fica, em outras palavras, nossa intimidade num mundo de virtualidades globalizantes e globalizadas?

 

Sobre a intimidade, me vem duas compreensões: 1) aquilo que diz respeito a “minha intimidade”, o que é meu, o que é privado, o que faz parte de minha vida, o que é pessoal, e 2) a qualidade de relação que estabeleço comigo e com as outras pessoas, incluindo desde o contato com desconhecidos, com amigos, parentes, familiares, os vínculos de amizade e companheirismo e as relações de afeto amorosas e sexuais.

 

Essa noção de intimidade como inerente à vida privada também é bastante recente e nos remonta ao modo de vida da burguesia. Antes, num contexto muito menos globalizado, vivia-se muito mais no âmbito da vida pública e coletiva do que na esfera da vida privada. No período da Idade Média, por exemplo, tudo era de certo modo partilhado e vivia-se um modo de vida mais coletivista, bem ao modo de vida de cidadezinhas do interior. Todos tomavam conta de todos, todos tomavam partido da vida de todos. Com o advento do comercio e da produção de manufaturas, no fins da Idade Média, e com o advento da industrialização na Idade Moderna, a sociedade passou a ser mais fragmentada e especializada, inclusive no contexto das famílias, havendo uma progressiva redução do tamanho destas, que deixaram, gradualmente, de ser grandes clãs, grandes famílias extensas cheias de primos e agregados, passando a ser cada vez menores, compactas, ao ponto de caber em apartamentos de 2 ou 3 quartos e 50 ou 60 metros quadrados (isso quando não convertida a uma pessoa solteira com um cachorro ou um gato morando em um quitinete).

 

Hoje vivemos a radicalização do individualismo. Vivemos ilhados em nossos quartos e cubículos, num mundo tecnológico, na virtualidade da web. Esse fenômeno também é muito recente e talvez tenha não muito mais que trinta anos.

 

Lembro-me, por exemplo, que na casa de meus avós, onde nasci, me criei e morei até os vinte e cinco anos, tínhamos apenas um telefone vermelho (que na época era artigo de luxo!), e duas televisões, daquelas de caixa de madeira e de botão, sem controle remoto, uma preto e branco e outra a cores. Nunca tivemos tv a cabo. Tanto a televisão como o telefone ficavam na sala, mantidos num espaço comum partilhado por toda a família. Todos podiam ouvir as conversas no telefone – e por isso não havia segredos! -, e todos assistiam uma mesma programação coletivamente, livremente estabelecida pelos mais velhos, e flexibilizada apenas na guerra feita entre mim e minha irmã, nos horários fora da programação dos adultos. Só fomos ter vídeo cacete em 1994, o que abriu possibilidades infinitas, pois poderíamos assistir filmes estrangeiros sem ir ao cinema.

 

Progressivamente foram surgindo telefones nos quartos - a velha extensão, de onde se podia ouvir todos os “segredos” dos outros pelo outro lado da linha -, e as televisões nos quartos. Com o tempo, as pessoas passaram a ficar mais recolhidas em seus quartos, em sua “privacidade”, vivendo sua “intimidade” e se isolando mais e mais à medida em que se abriam mais para o mundo da virtualidade, com o advento da internet nos computadores domésticos.

 

(Apenas em 1998 tivemos nosso primeiro computador, que era disputado por mim e por minha irmã, com direito a alguns barracos fraternos.)

 

Recordo-me que a internet na década de 90 ainda era bem precária aqui no Brasil. Levávamos horas para nos conectar a ela via internet discada que vivia caindo. O contato nas salas de bate-papo do Uol, Mirc, MSN eram apenas uma prévia para um contato real, uma oportunidade para a paquera e, uma vez estabelecida a relação, deixava-se em segundo plano o acesso a internet – pelo menos para os adeptos da monogamia. Assim foi comigo e com minha irmã em nossos primeiros empreendimentos amorosos via esses sites de relacionamento e redes sociais - como Orkut e Facebook - , na virada do século XX para o século XXI.

 

A internet, nessa época, era um “meio” para se alcançar um “fim”, que era o estabelecimento de relações afetivas de amizade e namoro. Hoje percebo que isso tem se perdido e a virtualidade tem se convertido em um meio distinto, em um ambiente, um habitat, em que o homem contemporâneo tem habitado e se relacionamento mais intensamente que no meio real e concreto do espaço público.

 

As pessoas têm socializado mais, sim! Mas essa socialização tem se dado muito mais via redes sociais do que no contato direto pessoa-pessoa. Tenho inúmeros “amigos” virtuais de anos, alguns inclusive residentes em Salvador, mas que nunca nos conhecemos pessoalmente, embora nos curtamos, nos comentamos e interagimos alegremente nos sites facebooks, instagrams e whatsapps da vida. Daí meu questionamento sobre os benefícios e malefícios desses avanços tecnológicos sobre o desenvolvimento de relações de intimidade.

 

Se por um lado, cremos que a virtualidade nos garante uma certa segurança quanto à nossa intimidade, nossa vida privada, nos preservando nos limites de uma individualidade doméstica, nos protegendo ilusoriamente de um mundo real cada vez mais violento. Nos lançamos num mundo virtual igualmente agressivo, que nos faz defrontar com fenômenos como o cyberbullying e jogos perigosos como o “Baleia Azul”, que foi amplamente noticiado a alguns meses atrás como causador da morte de vários jovens. Esses são perigos reais e não apenas virtuais, que pode atingir principalmente crianças, adolescentes e jovens adultos.

 

Não podemos desconsiderar também o aumento de ocorrências de crimes virtuais e fraudes, dada a facilidade de acesso a informações privadas, informadas pelas próprias pessoas, que ingenuamente ou não, devassam toda a sua vida em fotos e “check-in” tirados em tempo real, ou por meio de sites clonados, nos e-mails “spams”, nas próprias redes sociais e sites de compras ou na “nuvem” – que até hoje não sei ao certo como funciona ou se é segura, o que duvido muito que seja, dados as constantes notícias de vazamento de informações sigilosas tanto de âmbito privado, como “nudes” de celebridades, como no âmbito público e de grandes organizações que são “hackeados”.

 

De todo o modo, temos que a preservação dessa intimidade no âmbito da vida privada, ao menos para quem não é um eremita desconectado da vida virtual, me parece algo pouco certo. Essa tentativa de preservação da intimidade, na verdade, ganha conotações que nos fazem pensar mais numa evitação de contato, de desenvolvimento de uma intimidade no âmbito das relações reais, nos contatos interpessoais reais que seriam potencialmente nutritivos no que tange ao desenvolvimento da afetividade. Esse aspecto, diz respeito ao meu segundo conceito de intimidade.

 

Essa intimidade refere-se à qualidade das relações afetivas que estabeleço comigo e com os outros, no âmbito das trocas interpessoais, nas relações afetivas que estabeleço comigo e com os outros, no âmbito das trocas interpessoais, nas relações de amizade, amorosas e sexuais, também tenho tido minhas dúvidas sobre os benefícios dessa tecnologização e virtualização na contemporaneidade.

 

Se por um lado podemos manter vivo o contato com várias pessoas em todo o mundo, mantendo o fluxo de informações e nos atualizando continuamente sobre muitas coisas que as pessoas falam, pensam ou vivem no seu dia-a-dia, por outro lado tem se tornado cada dia mais remota a chance de encontrarmos essas pessoas para um bate papo real, num café ou num barzinho. Todos estão muito ocupados vivendo boa parte do tempo alternando entre suas vidas domésticas e sua existência hiperconectada ao mundo virtual. Falta tempo para o exercício do encontro real entre pessoas reais em espaços reais do mundo real.

 

No âmbito das relações amorosas e sexuais, vejo um prognóstico ainda pior, sem querer ser fatalista. Como as pessoas tem sido criadas muito mais tendo em vista o sucesso e a realização profissional, tem-se dado muito menos atenção e investimento para o estabelecimento de relações que se proponham a ser duradouras.

 

Ninguém quer ficar só – estando o tempo inteiramente hiperconectados no mundo virtual -, mas ninguém tem tido paciência para acompanhar, aceitar, acolher e negociar conflitos inerentes às diferenças de personalidade, gostos e crenças de uma outra pessoa. Como diz aquela expressão popular, “cada cabeça é um mundo” e poucas pessoas estão verdadeiramente disponíveis para adentrar na cabeça e no mundo” e poucas pessoas estão verdadeiramente disponíveis para adentrar no mundo da outra pessoa, a estabelecer uma verdadeira relação de intimidade com ela. O outro permanece assim como um estranho, fantasma imaginário que habita o mundo virtual, com suas fotos, mensagens e curtidas, mas pouco acessível a um verdadeiro desvelamento na nudez de alma.

 

Quanto ao sexo... Ah! O que não falta é “nudes” rolando nos aplicativos e sites de encontro e pegação. Uma hipersexualização do corpo, porém pouco erotismo, pouco desejo de verdadeiro encontro. Muitos se satisfazem apenas no “voyeurismo” das webcams, gozando em se masturbar vendo a outra pessoa, do outro lado, também se masturbando e gozando. Um gozo sem toque real, sem encontro de corpos, sem afeto e sem intimidade. Outros se relacionam com as outras pessoas apenas tendo em vista um sexo “utilitário”, escolhendo as pessoas como quem escolhe um prato em um cardápio, mancando para encontros sexuais sem nenhum tipo de envolvimento afetivo, apenas tendo como fim uma transa rápida, às vezes anônimas, que se resume a um único encontro sem sequer um “até logo”.

 

Não quero, com isso, dizer que não há a possibilidade de encontros reais e relacionamentos reais virem a acontecer a partir do meio virtual, das redes sociais e dos aplicativos de celular, mas tenho percebido cada vez mais e queixar das pessoas quanto à solidão e o estado de “solteirice”, em parte por conta dessa vivência intensa no mundo virtual e um esvaziamento crescente das relações no mundo real. Não posso atribuir a “culpa” disso à tecnologia, mas a nossa falta de maturidade para saber usar ela não como fim que termina em si mesmo, mas como meio, como meio, veículo para o encontro e o contato real com o outro.

 

A intimidade só é possível na virtualidade se estivermos verdadeiramente interessados e dispostos a nos despir aceitando nossos defeitos e virtudes, assim como acolher a nudez, a beleza e os defeitos do outro em sua concretude e realidade física, emocional e afetiva. De nada adianta construirmos “perfis” perfeitos quando nós mesmos somos imperfeitos, nem esperar do outro uma perfeição impossível. Se assim for, não nos relacionamentos com pessoas reais, mas com imagens, com idealizações e construções ficcionais de nós mesmos e dos outros. Não creio ser saudável vivermos apenas e unicamente dedicando a esse mundo ilusório boa parte de nossas existências concretas, enquanto deixamos escorrer pelos dedos a vida real e as oportunidades reais de estabelecimento de vínculos humanos concretos de verdadeira intimidade.

 

Não sou da opinião de que a tecnologia irá levar ao fim da humanidade, mas sou de uma opinião que transita entre o realista e pessimista quanto ao tipo de humanidade que estamos criando a partir dessa cultura atual de virtualização da vida real. Sinto que, progressivamente, temos perdido, mergulhados na virtualidade, as antigas “virtudes”, os encantos e a beleza humana tão buscada pelos filósofos e artistas nos últimos dois mil e quinhentos anos, nos contentando em alimentar apenas o contorno superficial daquilo que poderia ser o empreendimento mais belo da humanidade: o próprio ser humano.

 

Bem, por hoje fico por aqui. Espero que esse texto tenha sido útil para refletirmos um pouco sobre esse tema que faz parte da vida de todos nós que estamos diante de um computador ou de um celular, conectados ao mundo virtual. A partir dessa breve provocação, convido-os a olhar um pouco a nossa volta, para nós mesmos e para o mundo. Talvez, aí e aqui “fora”, possamos encontrar o verdadeiro e autentico sentido de intimidade que habita “dentro” de nós, em um “nós” com o outro.  

 

 

 

Fontes de imagens:

 

https://fortissima.com.br/wp-content/uploads/2015/02/namoro-virtual1-tt-width-640-height-420-bgcolor-FFFFFF.jpg

 

http://sentimentocalmo.com/wp-content/uploads/2011/01/tumblr_lmlz7lkeB51qfe3kao1_500_large.png

 

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