Reflexão sobre as intolerâncias

September 3, 2017

 

Hoje irei tratar de um tema que, certamente, perpassa a nova vida cotidianamente e interfere diretamente nossas relações interpessoais: a intolerância. Esta pode se manifestar de diversas formas, indo desde as pequenas coisas que não toleramos em nós ou no outro, até fenômenos grupais, como a intolerância religiosa, os conflitos étnicos-raciais e culturais e, a nível global, a xenofobia. Não irei me aventurar a refletir sobre esse tema a partir de uma perspectiva sociológica ou antropológica, mas a uma perspectiva psicológica. 

 

Na psicologia há muitas vertentes de compreensão do humano, muitas abordagens psicológicas, que utilizam de diferentes recursos interpretativos para dar conta de fenômenos complexos. Não irei me ater a essas abordagens, por compreender que, quaisquer que sejam elas, tendem a enfocar um ou outro aspecto, deixando de lado alguma outra dimensão interpretativa, algum outro fator, que poderia ser incluído e considerado. Me valerei, no entanto, de um viés, a partir de uma escolha pessoal: o viés da diferença. Compreendo que os fenômenos de intolerância estão relacionados principalmente a não aceitação da diferença e, em função disso, à não abertura ao diálogo respeitoso.

 

Não sendo hipócrita, afirmo desde o princípio que também eu sou intolerante em relação a muitas coisas que compreendo serem “erradas”, “equivocadas” ou “absurdas”. Ao qualificar todas essas coisas, valho-me de um julgamento, de uma valoração em relação ao outro, seja esse outro pessoa, coisa ou situação. Como diria nosso ilustre cantor e compositor baiano, Caetano Veloso: “Narciso acha feio o que não é espelho”. E é justamente isso o que acontece muitas vezes ao julgarmos e valorarmos algo, avaliamos negativamente aquilo que é diferente de nós mesmos, de nossas crenças, de nossos costumes, de nossas verdades e daquilo que identificamos como “meu” ou “nosso”, minha imagem, meu ideal.

 

Se eu pudesse, passaria o dia inteiro enumerando todas as coisas que não tolero. Essa poderia até ser uma experiência divertida, bem de acordo com aquele filme “Dez coisas que odeio em você”. Porém certamente, ao fazer isso, causaria no leitor sentimentos diversos, de indignação, revolta, horror, ou ainda, concordância e riso. Todos nós temos coisas que odiamos, mesmo que guardemos elas dentro de nós, no intimo de nossas individualidades. Talvez seja essa, inclusive, a melhor e mais adequada estratégia a ser adotada: guardar para nós mesmos nossos ódios e intolerâncias, lá bem no fundo de nosso íntimo, pois ninguém é obrigado a ouvir nossos queixumes em relação a tudo e a todos. Não é agravável, nem polido, nem educado.

 

Por mais que esses sentimentos negativos em relação ao que nos é incomodo, seja pela diferença, seja pela oposição, ou simplesmente por ser algo “nosso” que negamos no outro – o que em Psicologia chamamos de “projeção” -, influencie nosso modo de ver o mundo e nossa relação com as outras pessoas, é importante termos consciência deles, e discernimento de quando esses conceitos, preconceitos, julgamentos e valorações emergem em nossas mentes e influenciam nossas ações de forma negativa, restringindo ou dificultando nossos contatos reais com as outras pessoas ou grupos. Acreditem! Ter consciência de nossas intolerâncias talvez nos ajude a ser mais tolerantes.

 

Tomarei como exemplo eu mesmo, e minha intolerância em relação a crenças religiosas. Embora nascido e criado no cristianismo católico, sendo educado até os 17 anos em escolas também católicas, tendo feito batismo, primeira eucaristia e crisma, desde os doze anos me assumi “ATEU”.

 

Pois! Brinco dizendo que eu me tornei um “ateu místico e ecumênico”, pois, em função de minha descrença em relação a um deus, me interessei em conhecer (quase) todas as religiões, ler sobre (quase) tudo! Li sobre budismo, taoísmo, zen, tantra, sufismo, candomblé e, na minha prática clínica, atendi mórmons, espiritas, evangélicos, daimístas, e tenho bons amigos que são evangélicos, umbandistas, candomblecistas, testemunhas de Jeová, tarólogos, xamanistas, etc... etc... etc.

 

Hoje, por incrível que pareça, tenho voltado a buscar um pouco do sentido em Deus, no cristianismo católico, estudando sobre suas diferentes vertentes, desde os princípios, no cristianismo primitivo e ortodoxo oriental, passando pela Idade Média, até autores contemporâneos. Além disso, tenho me comunicado com frequência com um monge católico, trocando várias “figurinhas”, e frequentado missas, para ouvir e aprender um pouco com as homilias, com as interpretações dos textos bíblicos feitas pelos sacerdotes.

 

Curiosamente, minha “intolerância religiosa” me permitiu me interessar muito mais em conhecer sobre as diversas religiões, do que minha “fé”. Talvez se eu tivesse me mantido fiel desde sempre a uma única religião e a um único Deus, eu não tivesse aprendido tanto sobre religião, espiritualidade, crenças, filosofias de vida, etc. Essa busca por conhecer aquilo que não compreendo, no entanto, não é característica de todas as pessoas.

 

A intolerância religiosa é apenas um exemplo de intolerância. E aminha postura diante das religiões, de respeito a todas elas – embora de vez em quando eu dê algumas alfinetadas em alguns amigos mais “crentes” – não é partilhada pela maioria das pessoas que tem esse tipo de “sentimento”.

 

Sim! A intolerância pode ser compreendida como um sentimento, carregando consigo uma grande carga de afeto e  emoção, pois nem sempre, ou quase nunca, está baseada na razão. Certamente há crenças que fundamentam o desprezo, a aversão ou o ódio, mais ou menos consciente, mais ou menos justificado por um discurso, porém as reações são mais emocionais que racionais.

 

Os intolerantes o são por incorporarem em si o sentimento de intolerância, de forma muitas vezes cega, surda e louca, incapazes de silenciar suas revoltas e se pôr na disponibilidade de uma escuta respeitosa do outro. Alguns, inclusive, parecem “incorporados” por um demônio do ódio, tamanho é o furor de seu ódio e negação do diferente. Chego a afirmar, sem muita dúvida, que se trata de um quadro patológico. A intolerância pode ganhar feições psicopatológicas graves, levando a pensamentos, reações emocionais e atos de violência, como perseguição, agressões verbais e físicas, com efeitos muitas vezes fatais.

 

Como disse no início desse artigo, há diversos tipos de intolerância: religiosa, étnico-racial, social, cultural, sexual e de gênero, etc. Essas ganham nomes diversos, como “discriminação”, “intolerância religiosa”, “racismo”, “homofobia”, “machismo” ou “misoginia”, “xenofobia”, etc. E, embora nem sempre sejam fundamentadas por um discurso racional que justifique esse sentimento e essa prática, quase todos nós os temos em maior ou menor grau, mesmo que o neguemos veementemente.

 

A explicação da psicologia social mais tradicional diz respeito à identificação que fazemos entre nós e as pessoas ou grupos de pertença e proximidade (in-group), e a não identificação - e por isso, negação ou hostilização -, em relação às pessoas e grupos diferentes de nós (out-group). Aos grupos de identificação e pertença mantemos relações fraternas, de amizade, de cordialidade, trocas e apoio mútuo, minimizando os defeitos e valorizando as qualidades. Aos grupos “estranhos” a nós e ao nosso grupo de pertença, voltamos nossa desconfiança, julgamos negativamente aquilo que nos é estranho ou diferente, criando justificativas para manter a distância, ou submetendo o outro a testes para que seja digno de vir a pertencer ao grupo ao qual pertenço.

 

Essa dinâmica, aparentemente cruel, é mais comum do que imaginamos, e se faz presente desde muito cedo, nas relações que se estabelecem nos primeiros contextos de socialização, na infância, quando, por exemplo, na escola, vão se formando as chamadas “panelinhas”. Algumas vezes os preconceitos são transmitidos desde muito cedo pelos pais, que reproduzem os preconceitos herdados de seus próprios pais, numa cadeia sucessória, que vai reproduzindo, ao longo da história, certas crenças.

 

Se por um lado hoje vivemos em um mundo muito mais integrado e globalizado, com maior abertura para o novo, principalmente para o “estrangeiro” e “exótico”, ainda hoje mantemos, dentro de nosso próprio país, grandes bolsões de preconceito e intolerância. Se por um lado nos encantamos com a beleza que vem do mundo lá fora, seja vinda dos EUA, da Europa ou do Oriente, mantemos dentro de nosso próprio país relações pouco cordiais em nosso próprio povo. Nós, brasileiros, nutrimos muitos sentimentos de hostilidade em relação a nossos irmãos brasileiros, ao “preto, pobre da periferia”, ao candomblecista/umbandista “macumbeiro” ou ao “crente” evangélico, ao “coxinha” e ao “pão com mortadela”, ao índio, ao nordestino ou sulista, etc. E, o que me parece mais contraditório é que, muitas vezes, quem é vítima de preconceito e sofre na pele algum tipo de discriminação também discrimina e manifesta a intolerância em seus pensamentos e atos, às vezes com tanta ou maior hostilidade.

 

Sinceramente, não creio que seja possível extirpar totalmente esse “mal”, pois faz parte da nossa construção como indivíduos esse tipo de atitude discriminatória entre o que sou eu e o que é meu e o que é o outro e do outro, entre o que é bom e o que é mal, entre o que é certo e o que é errado, entre o que é belo e o que é feio, entre o que é puro e o que é impuro. Tomar consciência, no entanto, de que todas essas diferenças são, na verdade, pura e simplesmente “diferenças”, e que não necessariamente são boas ou más, pois os julgamentos que fazemos são, muitas vezes, artificiais e sem fundamento, já é um bom começo para revermos nossos preconceitos.

 

Não creio que cheguemos um dia a alcançar um estado de plena aceitação do diferente, total tolerância ao que nos é estranho ou estrangeiro, porém acredito que já avançamos muito nesse sentido, mesmo com os recuos, as hesitações e a emergência de novos reacionários fundamentalistas.

 

O mundo contemporâneo, ainda hoje é marcado por guerras e conflitos étnicos e religiosos, o que prova de que estamos longe da paz desejada entre os homens e muito distantes do “paraíso”. Não podemos, porém, deixar de acreditar nessa possibilidade, criando a partir de nós mesmos, modos de transformar nossa própria intolerância em abertura respeitosa para o novo. Essa é, pelo menos, minha fé, e a ela dedico um pouco da minha esperança.  

 

  

FONTE DE IMAGENS:

 

https://vivamelhoronline.com/tag/diversidade-cultural/

 

http://portudoounada.blog.br/o-preconceito-e-intolerancia-no-brasil/

 

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