Dear white people*, vamos falar sobre o que dói na alma e você não vê...

September 6, 2017

 

 

Já há quase um ano comecei o processo para conseguir passar quatro meses do meu doutorado no Canadá, mais especificamente em Toronto, através do Programa de Doutorado Sanduíche no Exterior (PDSE) da CAPES. Eu e meu marido planejamos vir juntos e ele faria um curso de inglês. Finalmente o tão esperado dia de viajar chegou. Terça, 29 de agosto, pisamos em terras canadenses. Como é de se esperar, já percebemos diversas diferenças culturais. E, certamente, essas aparecerão durante minha escrita dos artigos, já que as diferenças nos levam a pensar, refletir, problematizar e desnaturalizar nossa realidade. Só contextualizando, Toronto é capital da província de Ontário, a maior cidade do Canadá e uma das cidades mais multiculturais do mundo. Começarei falando sobre o que nos chamou mais atenção já nesses primeiros dias.

 

No segundo dia de Canadá, em Toronto, meu marido olha para mim quase com lágrimas nos olhos dizendo que nunca se sentiu assim, as pessoas não olhavam para ele desconfiadas, afastando a bolsa ou coisas do tipo. A princípio, aquilo me assustou. Óbvio que se sabe o quanto o Brasil, e de maneira bem peculiar Salvador é racista, e que, muitas vezes, me peguei com medo de quando meu marido ia sair para tocar em horários incomuns, não dele ser assaltado, mas medo de ele ser confundido com bandido e de como poderia ser tratado enquanto suspeito. Mas aí a perceber o quanto isso machuca a pessoa diariamente talvez só tenha me dado conta nesse momento, talvez ELE só tenha se dado conta disso nesse momento, pois, infelizmente nos acostumamos com muitas situações bizarras.

 

Perceber as duras consequências psicológicas do racismo não é novo para mim, apesar de branca, por sempre ter convivido em espaços multiculturais e polêmicos, o tema racismo sempre foi uma pauta que me acompanhou. Anos atrás, quando estudei nos EUA, uma amiga da Tanzânia comentou em um encontro de estudantes internacionais que jamais gostaria de ter nascido nos EUA, pois teria nascido e crescido achando que era inferior, o que não ocorreu como Tanzaniana. Aquela fala para mim foi muito marcante.

 

O que quero nesse artigo é discutir um pouco sobre como o racismo molda as dinâmicas e relações cotidianas que muitas vezes naturalizamos e por isso partirei das minhas experiências e observações.

 

Estudos recentes têm apontado de forma alarmante que 71 em cada 100 pessoas assassinadas são negras, e negros tem 23,5% mais chance de serem assassinados do que pessoas de outras raças (Atlas da Violência 2017[1]), já o 10º Anuário de Segurança Pública[2] (2016) mostra que temos uma polícia que mata muito, foram 3.320 vítimas registradas decorrentes de intervenções policiais em 2015, e também morre muito, foram 358 mortes em 2015. Esses são números. Números alarmam, mas não falam da experiência cotidiana, do que está por trás dos números. Nós temos uma cultura policialesca, vingativa e racista, e o efeito disso são esses números que são superiores aos de países em guerra, a exemplo da Síria (Anuário de Segurança Pública, 2016).

 

Nas nossas relações cotidianas, muitas vezes nem percebemos como nossas ações são moldadas a partir dessa cultura. Durante o Furdunço (festa que acontece no domingo antes do Carnaval – para o leitor que não é soteropolitano) de 2016, enquanto meu marido ia passando o som e se ajeitando em cima do trio onde tocaria, fiquei observando o procedimento de revista aos que passariam para a festa. De fato, de maneira geral todos passaram pela revista, mulheres não, mas homens, negros e brancos, eram revistados. Mas eram revistados de forma diferente. O ritual de revista que ali acontecia demonstrava muito mais do que só a polícia atuando de forma diferente com relação a brancos e negros, mas os próprios negros e brancos chegavam para a revista de forma diferente. Enquanto brancos chegavam totalmente relaxados e despreparados e a polícia quase pedia desculpas pelo procedimento com os olhos, e pedia de forma educada para abrir as pernas e colocar as mãos atrás da cabeça; negros já chegavam com as mãos na cabeça, JÁ SABIAM COMO ERA O RITUAL, e a polícia de forma muito mais agressiva quase chutava as pernas para que abrissem elas e fizessem a revista.

 

A questão aqui não é dizer que a polícia é racista. Não, isso nem começa a explicar esse contexto. A polícia é reflexo de uma sociedade racista que naturalizou certas práticas e que, de forma muito mais mecânica e inconsciente do que consciente, assume posturas e procedimentos diferenciados de acordo com a população a quem atendem.

 

Em outra situação estava com um amigo de moto, e a polícia nos parou em uma blitz. Meu amigo, negro, parou a moto e imediatamente colocou as mãos atrás da cabeça, e eu já fui descendo da moto sem saber como agir, talvez pela primeira vez tive uma arma apontada para mim por ter agido de forma suspeita ou sem saber proceder naquela situação, vasculharam toda minha mochila e depois nos liberaram. O que marcou foi o quão automática foi a reação do meu amigo.

 

O que é cruel é o quanto já estão interiorizadas essas práticas a partir de como sou visto e de como vejo o outro. Não é só perceber todas as formas que sou tratado por ser negro, mas todas as posturas frente a sociedade que tomo por saber como podem me ver porque sou negro. Tudo que faço diariamente para não ser visto como suspeito, tudo que faço para evitar ser morto ou preso, porque no fim estamos falando sobre isso. Como naturalizo isso e acabo nem percebendo o quão violento isso é.

 

E não é só uma questão de segurança pública, de como me manter vivo em uma sociedade racista, mas uma questão de autoestima. No Brasil, como nos EUA (pensando na fala da minha amiga), a sensação de inferioridade se reflete em uma série de ações. Em especial, no Brasil, há uma cultura da deferência em relação ao branco. Posso contar uma série de situações em que me trataram bem ou melhor por ser branca, desde enaltecer a beleza pelo simples fato de ser branca, até comentários como: “você não pode levar ela pra pipoca (local onde ficam os foliões que não pagam para curtir o carnaval de Salvador), você tem que levar ela para um camarote”. Hein? Por que mesmo?

 

Com relação a essa cultura da deferência, tem mudado muito nos últimos anos devido às muitas lutas do movimento negro por visibilidade, reconhecimento e empoderamento. Infelizmente, não sem a reação da nossa elite perversa. Mas a manutenção da figura do suspeito ainda é muito forte e estrategicamente utilizada pelo Estado para manter a exclusão e a desigualdade.

 

Acho que o grande choque para meu marido foi perceber, NA PELE, que não precisa ser assim, não é pra ser assim, ISSO NÃO É NATURAL E PODE SER DIFERENTE! A questão é: ISSO DEVERIA SER UM CHOQUE?

 

 

[*] (Cara gente branca) Nome de uma série televisiva do Netflix. 2016. 

 

[1] BRASIL. IPEA/Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Atlas da Violência 2017. 2017.

 

[2] BRASIL. Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Ano 10. 2016.

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