Dear white people*, vamos falar sobre o que dói na alma e você não vê...



Já há quase um ano comecei o processo para conseguir passar quatro meses do meu doutorado no Canadá, mais especificamente em Toronto, através do Programa de Doutorado Sanduíche no Exterior (PDSE) da CAPES. Eu e meu marido planejamos vir juntos e ele faria um curso de inglês. Finalmente o tão esperado dia de viajar chegou. Terça, 29 de agosto, pisamos em terras canadenses. Como é de se esperar, já percebemos diversas diferenças culturais. E, certamente, essas aparecerão durante minha escrita dos artigos, já que as diferenças nos levam a pensar, refletir, problematizar e desnaturalizar nossa realidade. Só contextualizando, Toronto é capital da província de Ontário, a maior cidade do Canadá e uma das cidades mais multiculturais do mundo. Começarei falando sobre o que nos chamou mais atenção já nesses primeiros dias.


No segundo dia de Canadá, em Toronto, meu marido olha para mim quase com lágrimas nos olhos dizendo que nunca se sentiu assim, as pessoas não olhavam para ele desconfiadas, afastando a bolsa ou coisas do tipo. A princípio, aquilo me assustou. Óbvio que se sabe o quanto o Brasil, e de maneira bem peculiar Salvador é racista, e que, muitas vezes, me peguei com medo de quando meu marido ia sair para tocar em horários incomuns, não dele ser assaltado, mas medo de ele ser confundido com bandido e de como poderia ser tratado enquanto suspeito. Mas aí a perceber o quanto isso machuca a pessoa diariamente talvez só tenha me dado conta nesse momento, talvez ELE só tenha se dado conta disso nesse momento, pois, infelizmente nos acostumamos com muitas situações bizarras.


Perceber as duras consequências psicológicas do racismo não é novo para mim, apesar de branca, por sempre ter convivido em espaços multiculturais e polêmicos, o tema racismo sempre foi uma pauta que me acompanhou. Anos atrás, quando estudei nos EUA, uma amiga da Tanzânia comentou em um encontro de estudantes internacionais que jamais gostaria de ter nascido nos EUA, pois teria nascido e crescido achando que era inferior, o que não ocorreu