A ignorância humana. Conceitos de Espinosa - Parte II

Na coluna de hoje, continuarei a expor a segunda parte das principais ideias de Baruch Espinosa, especificamente sobre o tema da ignorância humana.


Para alcançar um nível de consciência que seja possível compreender a necessidade da expansão e ação da força divina em cada ser, o indivíduo precisa ter alcançado um elevado grau de entendimento sobre a realidade. Mas, isso não é tarefa simples, pois a maioria das pessoas provavelmente morrerá sem alcança-la; morrerá na ignorância (do latim ignorantia, desconhecimento).


Espinosa expõe na sua obra máxima, Ética, três níveis de entendimento humano. E é justamente os dois primeiros níveis que irei falar hoje, sendo que o terceiro nível ficará para o último artigo. Mas, antes de falar dos níveis iniciais, é necessário expor um conceito importante, que o autor chama de potência de agir.


Potência de Agir ou conatus é uma energia ou instinto vital que existe em cada ser, como busca de afirmação da vida. Força de existir. Essa potência se apresenta como algo inconsciente, sendo a tendência ou um esforço infinito que todo ser tem em perseverar na sua existência. A potência de agir pode aumentar ou diminuir de acordo com os encontros do dia a dia, ou seja, com os instantes de vida. Quanto melhor os encontros mais a potência passa para um estágio de maior perfeição, chegando às ideias mais verdadeiras ou adequadas das coisas.


Quanto mais se desenvolve a conatus mais a mente se eleva, pois sua capacidade de pensar e compreender as coisas é aumentada. O mesmo se dá com o corpo, pois elevando-se a conatus, mais o corpo afetará múltiplos corpos, e sendo afetados por eles de forma harmônica e adequada. (CHAUÍ, 1995). É importante destacar que para Espinosa, corpo e mente, extensão e ideia são uma só e mesma substância divina; expressões diferentes de uma mesma natureza.


A vida humana é baseada em encontros. Bem, mau, bom, ruim, todos esses sentimentos nascem dos contatos com outros corpos, com o mundo. O que dimensiona, ou que julga os sentimentos da vida é aquilo que afeta a cada um em dado momento. É a potência de agir – a energia de perseverança vital - que mensura o que alegra e entristece.


Tudo que é contrário a natureza, à potência, e que limita o ser particular, diminui a vida, torna-a impotente. Tudo que alegra é amor; tudo que entristece é ódio. Em outras palavras, a máxima virtude humana é fazer com que a potência da alma e do corpo, inerente a cada um, eleve ao máximo a conatus. Deve-se buscar um estado de suprema alegria do ser, sem castração de causas externas. Ao contrário da potência, a impotência de agir é semelhante a morte: pois é a negação da ação, da vida.


Falarei agora dos dois primeiros gêneros de conhecimento humano que, repito, encontram-se ao nível da ignorância.


O primeiro gênero de conhecimento é o da passividade. Nesse estágio, vive-se ao acaso dos encontros; é o que Espinosa chama de opinião: conhecimento por experiência vaga, por sinais ou simplesmente imaginativa. O corpo é afetado, mas desconhece as causas que o levaram a se comportar de determinada maneira. Assim, não se encontra a causa adequada da potência de agir, da essência, que é sempre uma causa interna. O indivíduo está imerso no reino das paixões, mergulhado na passividade. As ideias formadas são sempre de fora para dentro. É o mundo da heteronomia.


Espinosa chama esse primeiro gênero de conhecimento de ideias inadequadas. São imagens que cada um forma através da percepção sensorial, confusas, mutáveis e obscuras. São inadequadas ou falsas porque não conhecem as relações; é o conhecimento dos efeitos, não das relações, muito menos das causas. Exemplos como as crenças, superstições, medos, opiniões, dogmas, ilusões e o senso comum formam a ausência de autonomia.


O segundo gênero de conhecimento é a via racional, que compreende a causa das coisas. Nesse grau, a mente consegue fazer relações que vão do particular ao universal, chegando às ideias adequadas das coisas. É o caminho da racionalidade oposta àquela vida imaginativa do primeiro gênero.


O sujeito passa a ter ciência de que forma as coisas o afetam. Começa a compreender, por uma experiência mais profunda, a causa e o efeito. Por exemplo, dizem que uma coisa é boa, mas se percebe que não é sempre que esta relação é boa, às vezes pode ser ruim, depende do modo como nos relacionamos com ela. As coisas não são ruins ou boas em si mesmo, depende da nossa relação com as outras coisas. O homem racional não diz mais:” a água me mata por afogamento: ela é ruim”, mas passa a dispor seu corpo, movimentá-lo de forma, que seu encontro com a água aumente sua potência: ele aprende a nadar. Isso envolve aprender a entrar no ritmo, encontrar modos de dispor o corpo para que isso gere potência. (TEIXEIRA, 2013).


Mas, como veremos na última parte da série sobre Espinosa, não basta ter um nível racional e científico para alcançar a liberdade, portanto, a sabedoria, pois ela é incompleta quando ignora a Substância, a saber, a própria relação com Deus, ou o amor intelectual eterno.




Fontes


CHAUI, M. Espinosa: uma filosofia da liberdade . São Paulo: Moderna, 2005.


SPINOZA, B. Ética. Tradução de Tomaz Tadeu. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2015.


TEIXEIRA, L. A Doutrina dos Modos de Percepção e o Conceito de Abstração na Filosofia de Spinoza. São Paulo: Unesp, 2001.


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