Porque escrevo...

September 12, 2017

 

 

Bem, não creio que qualquer pessoa que componha textos literários, tenha uma razão, e esta é a questão, razão, para o fazer... então, eu não poderia explicar porque escrevo, uma vez que é difícil racionalizar sobre esses motivos; trata-se de precisar, de ter necessidade de expor sentimentos pessoais, íntimos mesmo, porque são tantas coisas que a nossa sensibilidade capta, e elas vão se avolumando, sem acomodação, que chega uma hora que é necessário botar para fora ou, fazer “sair pelo trato, como teria dito Erasmo de Roterdam.

 

 Sendo assim, não tenho um motivo, único, explicável, para fazer isso... até porque, creio que seja assim em relação a qualquer coisa. Não sei porque escrevo e nunca me detive muito nessa pergunta, mas tenho certeza que uma das minhas respostas é porque a escrita é como a colheita, o resultado da semeadura amadurecida...

 

Lembro, por muitas razões, que fui uma menina calada e de natureza contemplativa; elaborava no pensamento as mais improváveis histórias, partindo das minhas observações e pequenas experiências, e o universo mais rico no início era a minha própria família; ela me inspirou por muitos e muitos anos e fui elaborando essas observações internamente... lembro que um dos meus irmãos mais velhos tinha um amigo, Manolo, que dizia: “sua família é sui generis”. Eu nem sabia o que queriam dizer aquelas palavras, mas à minha maneira, achava a frase imponente, "devia ser uma coisa bonita". Hoje, sei que éramos mesmo dessa forma, mas só tive consciência do seu significado mais profundo muito mais tarde, quando meus pais já haviam falecido, e fiquei um pouco perdida, porque aquele mundo se desmoronou...

 

Quanto à minha natureza, acho que nunca foi bem compreendida, pois era avaliada como uma “menina de natureza birrenta, calada, esquisita”, porque, ou não correspondia ao que esperavam de mim ou tinha sempre muitas perguntas, perguntas caladas, principalmente - pois queria entender o que acontecia ao meu redor - ou então tinha resposta para tudo, já que minha imaginação era uma roda viva, e assim, achava aquela avaliação uma injustiça que não conseguia combater. Não tinha argumentos suficientes para explicar algo que nem mesmo eu compreendia àquela altura. O que lembro muito vivamente é que observava tudo, percebia pequenas coisas e detalhes aos quais ninguém dava importância, e aquele universo ainda permanece em minha cabeça querendo sair, porque compõe o extenso e profundo rio das minhas experiências e lembranças mais remotas e fortes.

 

Entretanto, em compensação, lembro que uma única pessoa chegou mais perto de mim, de como eu realmente me sentia... D. Maria José, uma amiga de minha mãe, cujo comentário, menos duro, trouxe certo alívio: “essa menina tem um olhar de anjo”. Mas não era nada disso! “nem tanto ao mar, nem tanto à terra”; eu só tinha o hábito de observar as coisas e logo elucubrar ideias e histórias fantasiosas, já que não tagarelava muito... lembro de ter dançado em bailes nos salões vazios do velho sobrado do Engenho de cana de açúcar dos meus bisavós, usando belíssimos vestidos rodados e coberta de joias... de frequentar palácios... de viajar em asas de borboletas floresta adentro... de conversar com lagartas e cavalos. Quando ia passar férias lá na fazenda, eu percebia que os bezerros choravam porque suas mães precisavam seguir para a ordenha, separando-se deles; eu ouvia o vento cantar quando soprava nas palhas do canavial, ouvia o gemido ou os resmungos dos pobres animais que puxavam o pesado carro de boi que levava a cana para moer... o meu mundo interior era muito rico e me bastava, e me fazia feliz...

 

Como toda menina de mente fértil eu também conheci um príncipe que nem percebia a minha existência; era o meu amor impossível; àquela altura, aos 14 anos, pois nessa época a infância era vivida por mais tempo; eu não sofria, achava até muito romântico e normal, como acontecia nos contos de fada, e eu tinha prazer em parecer com os personagens das histórias que gostava de ler.

 

Só pelos dezesseis anos comecei a ter necessidade de externar o que sentia; pensar ou sonhar não era mais suficiente. Primeiro comecei a desenhar e minha mãe, que fora criada num ambiente cultural muito rico, tratou logo de me matricular num curso livre de desenho. Enveredei pela pintura, fiz muitos cursos,  mais tarde algumas exposições coletivas, mas não me satisfiz e parei com tudo.  Aquela ebulição voltou a incomodar dentro de mim e comecei então a escrever coisas que não mostrava a ninguém e parei outra vez.... Segui minha vida quase normalmente: fiz faculdade, casei, não com o meu príncipe dos 14 anos, tive dois filhos e anos depois me divorciei. A essa altura, precisei começar tudo do zero, mas já sem a presença dos meus pais. Certo dia, quase ao acaso, recomecei timidamente a escrever, sem mostrar a ninguém, porque “não queria me expor; eram coisas minhas, quase segredos”...Mas um dia, intempestivamente, resolvi mostrar uns textos a uma colega de trabalho, que os achou “muito difíceis de ler...você diz coisas que ninguém conhece; elabora muito o pensamento...” Parei!  uns dois ou três anos depois, sem pressa, resolvi me aventurar outra vez e alcei vôo, insegura, para ver se alguém me entenderia dessa vez...

 

Eu não conseguia desistir embora tivesse tentado fazê-lo várias vezes. É mais forte que eu; ler e escrever é quase uma compulsão, inclusive, por causa da experiência familiar, muito voltada para a cultura e a arte. Meu pai escrevia, tocava piano muito bem e dançava melhor ainda; em datas como aniversários, Dia das Mães ou aniversário do seu casamento, não comprava cartões; ele mesmo escrevia belos poemas para minha mãe...ela, por seu lado, era uma leitora contumaz e também gostava de escrever, assim como seus irmãos, que eram poetas de extrema sensibilidade...logo, foi difícil fugir à minha sina (risos)...

 

Diante dessa constatação, juntei meus cacos e resolvi mostrar o resultado de tudo através da literatura, numa (des)ordem que me faz muito bem...pois duas coisas me impulsionam e me instigam ao escrever; aprisionar momentos e experiências extremamente fugazes da minha vida pessoal, do meu imaginário  e da vida ao meu redor, e outra, partilhar essas coisas, essas experiências, que, nessa troca, tanto me enriquecem e estimulam a observar aspectos novos ou antes despercebidos. 

 

Neste momento, é como percebo a questão...

 

Por Guacira Marciel

 

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