Arte censurada: Uma exposição encerrada no grito

September 15, 2017

“A censura, a censura, única entidade que ninguém censura” (Plebe Rude)

 

Uma exposição realizada no Instituto Santander em Porto Alegre foi encerrada após intensos protestos sobre o conteúdo à mostra. Intitulada “Queermuseu – Cartografias da diferença na arte brasileira” expunha trabalhos de renomados pintores e artistas plásticos como Lygia Clark, Adriana Varejão, Fernando Bail, o famoso Cândido Portinari e outros 80 artistas, totalizando 270 obras. Foi aberta no dia 15 de agosto e terminaria no dia 8 de outubro.

 

Nesse ínterim, um grupo se manifestou na porta da instituição – e também em seu interior – não só pelas obras ali concentradas, mas indagando ao público perguntas como “você é pedófilo? Curte zoofilia?” além de despejarem  impropérios e xingamentos aos frequentadores, alegando que estariam apreciando apologias a sexo bizarro e degenerado. Boa parte desse grupo era formado por  integrantes de um movimento conhecido nas redes sociais (Movimento Brasil Livre). Diante de tamanha ofensiva, o IS reagiu: cancelou o evento.

Sobre todo esse imbróglio, há muito que refletir. Ocorreu censura? Segundo os manifestantes que se indignaram com a exposição, a tentativa era de boicote. Xingamentos, intervenções questionando a sexualidade dos visitantes, filmagens editadas sobre os quadros, campanhas difamatórias nas mídias sociais e demais ameaças configuram apenas boicote?

 

Bem, qual a atitude legal e cidadã sobre algo que pode ser considerado ofensivo ou inadequado? Solicitar ao Ministério Público uma denúncia. E o órgão responsável tomar essa atitude. Mas os promotores só apareceriam após o fechamento da mostra. E concluíram não haver qualquer tipo de apologia ou bizarrice. Apenas algumas pinturas de cunho sexual – que não é crime e era tema do evento.

 

Muitos reclamaram que os organizadores poderiam expor avisos informando sobre o conteúdo das obras ou realizar uma classificação indicativa. O curador emitiu uma nota afirmando que havia guias que alertavam que alguns quadros continham nudez. Ora, não esqueçamos que a exposição se propunha à temática da sexualidade. A palavra queer remete a uma proposta de ruptura de conceitos ligados a relação binária dos gêneros e questiona a heteronormatividade e, no entanto, apontava para possíveis figurações artísticas com algum conteúdo erótico mais proeminente. Um pequeno alerta a respeito do que o visitante irá encontrar é bem vindo. Mas um mural explicativo detalhando quem deve ver ou avisos constantes sobre as obras não seria necessário. O museu não é babá para ninar, embalar, e indicar o que menores de idade acompanhados de responsáveis vão encontrar lá dentro. Cabe a cada um  priorizar o que o jovem deve aprender ou absorver de cada quadro exposto. E orientá-lo sobre o papel da mostra.

 

Os protestos realizados insurgiram não apenas sobre as obras que, segundo eles, faziam apologias à zoofilia, pedofilia e desrespeitavam símbolos e valores religiosos, mas ao uso do dinheiro público para a realização da mostra. O recurso foi obtido via Lei Rouanet – que funciona com o dispositivo da renúncia fiscal para que aquele dinheiro que seria arrecadado via impostos possa financiar cultura, arte e literatura. Falaram do absurdo que é colocar “nosso dinheiro” nessa empreitada pornográfica. Além de se colocarem como representante-mor de toda uma sociedade, pleiteiam  a supremacia da decisão de onde a verba deve ser aplicada ou não, pois aquilo não seria arte. Eles também podem – com toda autoridade – concluir se tal pintura pode ser qualificada como trabalho artístico ou não. Porreta! Então deveríamos nos instalar na porta de uma montadora de veículos para protestar que aquela fábrica construída através de isenção fiscal também foi erguida com dinheiro público? E que o benefício vai gerar lucros para os empreendedores daquele negócio sem o devido retorno aos cofres do Estado? Podemos achar essa atitude imoral?

 

O MP já adiantou que não enxergou nenhum tipo de apologia, mas continuemos a problematizar essa questão. Digamos que um pintor esteja em excursão pelo interior do país e encontre jovens que praticam sexo com éguas e cabritas (algo muito comum em muitos vilarejos). Ele não poderia retratar tal fato? Seria apologia? Essa realidade não deve ser discutida ou questionada em nenhuma hipótese? Só serve para causos e galhofas na boca do povo? Essa prática juvenil nos grotões do país deve ser escondida para sempre para não provocar uma zoofilia desenfreada? Ao que parece, sim. Um jovem que aprecie uma obra onde nela esteja representada um ser humano fazendo sexo com um animal pode fazê-lo interiorizar aquela cena, embaralhar seu psicológico e adulterar seus gostos a ponto de ao chegar em casa olhar maliciosamente seu yorkshire balançando um suculento rabinho e vindo em sua direção. A censura prevê uma restrição de algo e era isso o que pensavam os manifestantes que forçaram a um encerramento de uma mostra. Mas a piada fica por minha conta. Já o referido pintor que visualiza jovens descobrindo sua sexualidade com algum equino que vá para uma região árida pintar uma paisagem de uma terra arrasada pelo sol, pelos poderes públicos, e enfeite sua tela com esfomeados e raquíticos aplaudindo um belo pôr-do-sol, que não trará qualquer tipo de inquietação a ser censurada.

 

O grupo também afirmou que havia quadros imorais que desrespeitavam valores religiosos. Bem, considero desrespeito aos valores cristão padres acusados de molestar crianças e adolescentes - como denunciou o vencedor do Oscar “Spotlight – Segredos Revelados”. Ou práticas extorsivas, como um pastor que pede um carro a um casal em troca da cura divina do filho que nasceu com graves problemas congênitos. É usar a religião como mascara para atos de repúdio. Além de questionar as obras, os manifestantes desconsideram críticos e artistas, muitos com formação e conhecimento de cátedra que passam anos estudando estética, contextos de época, sociedade, cultura ocidental, história, biografias, estilos, e escolas de arte através dos séculos. Provavelmente cursos estes – para muito dos manifestantes – voltados para doutrinação esquerdista da arte e contemplação de qualquer desgraça como algo de valor artístico. Mal compreendem a subjetividade da arte e suas múltiplas faces para transgredir e transpor a consciência acomodada em conceitos estabelecidos e “puros”.

 

Um abaixo assinado pede a reabertura da exposição e critica o Santander por se render a uma tentativa vil de ataques à mostra. Cabem várias suposições sobre a decisão do instituto. Entre elas, a imagem do banco, possíveis quebras de contratos de publicidade, reações de correntistas, e desistências em novas aberturas de contas. Muito provavelmente pesou também o risco de depredação das obras, pichações e confrontos entre visitantes e manifestantes. Se esse temor estava intrínseco na cabeça dos diretores do local, impossível saber. Mas fica claro que o - ou os -  grupo que se sentiu empoderado ao conseguir causar o cancelamento do evento, representante de milhares de seguidores que os apóiam país afora, tem um perfil reacionário. E isso não diz respeito apenas a esse protesto, mas a motivação crescente de segmentos que tomem à frente de atitudes desse porte. O Movimento Brasil Livre – apontado como um dos apoiadores desse manifesto – elegeu vereadores e fiscalizam  professores em sala de aula, defensores que são do projeto Escola Sem Partido. Se a discussão continuar sobre se o ato praticado foi censura ou não, veremos nas próximas exposições.

 

Fontes: 

 

https://oglobo.globo.com/cultura/artes-visuais/artistas-acusam-santander-cultural-de-censura-21810283

 

http://zh.clicrbs.com.br/rs/entretenimento/arte/noticia/2017/09/queermuseu-professores-da-ufrgs-divulgam-nota-de-repudio-ao-fechamento-da-exposicao-9896306.html

 

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