Correspondências para algúem: respostas ao vento.


Sr Alguém,

Escrevo essa carta não sei se para ser respondida, mas para satisfazer a muitos ou poucos que compartilhem as mesmas dúvidas. Com isso, parto da leitura de um livro que, embora muitos não tenham lido, dá um norte para os questionamentos. Sendo assim, essa correspondência poderá ir de um lado para outro sem chegar a mãos especificas.


O livro em questão não é nenhum clássico, nem parece almejar esse posto. Muito menos se tornar canônico. O título é “Lava Jato”, escrito por um jornalista (o repórter da Globo Wladimir Netto) e traz um histórico dessa famosa operação que se tornou uma bactéria super resistente e que não é eliminada por nenhum antibiótico. É uma composição cronológica dos fatos desde a sua “fecundação”. Antes de dirigir essas perguntas a alguém – motivo maior dessa carta – devo dizer que li o livro por três motivos: porque gosto de ler, porque tive acesso, e, sobretudo, para rememorar e montar um mosaico que não se desmanchasse na minha mente diante de tanta informação. Teria um quarto motivo, mas é tosco: como converso muito em bar, tenho que ter assunto entre um gole e outro. Esses ambientes estão repletos de doutores em lavajatologia e eu sou um mero diletante.


Como material jornalístico que é, o documento vai dissecando como tudo se iniciou, prisões, revelações, investigações, descobertas, roubalheira, e muita delação, colaboração, deduração, e toda arte de “caguetar” o próximo. É basicamente aquilo que quase todo mundo sabe: uma relação promíscua entre Capital e Estado que exauriu a Petrobrás por via de operadores intermediários conhecidos como “doleiros”, que remetiam boa parte dos roubos para fora do país. Muita coisa não lembrava, pois pra uma operação dessa envergadura, diariamente bombardeada em vários veículos de comunicação e mídias sociais, iniciada em 2014, 3 anos se tornam 20. A maracutaia era fonte de enriquecimento pessoal, lucratividade maximizada de empresários, corrupção de servidores públicos e gastos de campanha política. Tudo bem explicado. Embora em muitos momentos as passagens do livro funcionem como meia armador que dá passes para o juiz Sérgio Moro ser o artilheiro do campeonato e levar a bola de ouro. Normal em tudo o que diz respeito à Lava Jato – tratada quase que um exército de um homem só. Mas o livro abre espaços para profissionais do direito que questionam a metodologia da operação e as ações de Moro.