O preço da riqueza e a gratuidade da vida

October 8, 2017

 Semana passada eu estava conversando com um amigo que, de certo modo, defendia a idéia de que as pessoas podem enriquecer trabalhando. Retruquei, de forma provocativa, dizendo que nunca tinha visto alguém ficar rico trabalhando, e que, na maioria das vezes, ou a pessoa já nasceu rica, herdando a riqueza de seus ancestrais que trabalharam por ela, ou enriqueceram explorando o trabalho de outras pessoas, ou, ainda, usaram de trambique, deixando de pagar impostos e sonegando a Receita Federal. Sei que meus argumentos foram e são radicais, e que, de fato, há pessoas que se tornaram bem sucedidas financeiramente trabalhando honestamente. Eu é que não as vi. No entanto, toda essa discussão me fez refletir sobre essa noção de sucesso que sempre está associada à riqueza material, numa sociedade e num mundo cada dia mais carente, para não dizer indigente, de valores. Pensando nisso, lanço a seguinte pergunta: Qual preço que pagamos pelo sucesso?

 

Se partirmos do principio de que para ser bem sucedidos precisamos trabalhar muito (muitos “gurus” dos negócios dizem que não é necessário trabalhar tanto assim, mas para começar é importante ter “espirito empreendedor”), quanto tempo de nossas vidas deveríamos nos dedicar ao trabalho? Oito horas diárias, cinco dias e meio na semana? Essa é a jornada de um trabalhador comum que, longe de enriquecer, apenas trabalhar para sobreviver e pagar suas contas. Esse mesmo trabalhador, na verdade, se trabalhar longe de sua casa, gasta-se muito mais de oito horas diárias dedicadas ao trabalho. (Hoje fala-se muito no “home-office”, que surge como uma nova “tendência”, mas que ainda muito mal vista por muitos, ou é vivida como uma forma sutil de manter o trabalhador em “stand by” trabalhando em “dedicação exclusiva”, 24 horas por dia).

 

Tomando a mim mesmo como exemplo, quando em minha rotina ordinária de trabalho, costumo acordar todos os dias às quatro e meia da manhã (sim, às quatro e meia!), para me preparar para o dia de trabalho, pegando o ônibus às seis horas, para chegar a tempo de “bater o ponto” de entrada às sete da manhã (às vezes ainda me atraso!), cumprindo oito horas de expediente, que na verdade são nove, considerando a uma hora de intervalo para almoço, e levando mais uma hora e meia de tempo de retorno para casa. Contabilizando tudo, ao todo são cerca de treze horas do dia vividas em função do trabalho. Rotina essa que se repete diariamente, cinco dias da semana, onze meses por mês, ao longo de vários anos.

 

Das vinte e quatro horas dos “dias úteis”, treze horas são passadas em função da rotina de trabalho, restando-me onze horas de “ócio”, sendo que dessas, oito “deveriam” ser para dormir, restando apenas três horas, que distribuo entre banho, jantar, leituras e, às vezes, atender um cliente ou outro no consultório à noite, para “complementar a renda” e me permitir executar uma atividade profissional que, mais do que garantir o necessário para minha subsistência, me permite alguns momentos de prazer e realização pessoal. Prazer em fazer algo que gosto.

 

Pois bem, ainda não enriqueci trabalhando e, pelo andar da carruagem, estou bem longe de enriquecer e chegar a ser considerado um profissional “bem sucedido” financeiramente. Ganho o suficiente para me manter e ter alguns pequenos prazeres – quase luxos! – como ir ao cinema ou ao teatro de vez em quando, comprar livros e, uma vez ao ano, fazer uma viagem de férias aqui mesmo pelo Brasil, para “economizar” e, na minha concepção quase nacionalista, valorizar o turismo local, contribuindo com a economia do meu país. Brinco dizendo que com os meus “pequenos luxos pequeno burgueses” eu novo a economia brasileira, gerando mais emprego e renda que muito programa de governo em época de campanha eleitoral. Se pararmos para pensar, de fato, com o que consumimos diariamente, nós realmente contribuímos para gerar empregos diretos e indiretos.

 

Divagações à parte, retorno à pergunta inicial: Qual o preço que pagamos pelo “sucesso”?

 

Primeiramente, acho importante refletirmos sobre essa noção de “sucesso” associada ao aspecto financeiro, ao enriquecimento. De fato, o quanto ganhamos ou o quanto conseguimos acumular ao longo da nossa vida é , ou deve ser, o critério para considerarmos a nós, reles mortais, bem sucedidos? Qual é a imagem que associamos a essa ideia de sucesso? Pessoas ricas, bem vestidas, morando em mansões, com vários carros, imóveis, jóias, jatinho e iate, viajando para os EUA ou para a Europa? Ter dinheiro para comprar todas essas coisas nos garante, de fato, o necessário para nos considerarmos bem sucedidos na vida? E quem não alcança esse padrão de vida endinheirado, é, no sentido contrário ao sucesso, fracassado? De onde vem esse raciocínio? - pergunto eu.

 

A resposta que me vem mais fácil à mente é que “imitamos” o modelo norte americano de sucesso, esse velho clichê do “american way of life”, o mundo glorioso das celebridades hollywoodianas ou dos grandes magnatas ricaços. Feliz ou infelizmente, esse modelo de vida “bem sucedido”, que tanto introjetamos e tentamos reproduzir, está muito distante de nossa realidade concreta – e certamente da realidade de muitos norte-americanos. Fomos criados com a idéia de que os EUA são uma terra de oportunidades, mas hoje vemos uma nação fortemente marcada pela xenofobia, contrários à imigração de “latinos”, buscando criar muros concretos nas fronteiras mexicanas para barrar os fluxos migratórios clandestinos, incrementando procedimentos de fiscalização na imigração e fortemente apavorados pelo risco real de atentados terroristas.

 

Embora ainda figure como uma das maiores nações e uma das economias mais fortes do mundo, sustentada principalmente pela indústria armamentista, os EUA, a nação do paradigmáticos “american way of life”, é extremamente adoecido, ponto de vermos, não muito raramente, a ocorrência de chacinas como a noticiada na última semana, em que um “cidadão”, aparentemente “bem sucedido”, jogador profissional, disparou para uma multidão de pessoas que assistiam a um show, matando mais de cinquenta e deixando outras quinhentas feridas. Ao se investigar um pouco sobre o referido cidadão, este era filho de um “celebre e importante” bandido norte americano, mas tinha uma vida economicamente bem sucedida, com vários imóveis, carros e um arsenal de guerra em casa.

 

Comparações à parte, se voltarmos a nossa realidade brasileira, muito menos glamorosa, quem figura em nossa sociedade como exemplos de sucesso e riqueza? Primeiro, os jogadores de futebol, nossos gladiadores modernos, que sabemos ganham algumas dezenas de milhares de reais, quando não milhões – muito mais do que nossos professores universitários e outros profissionais com formação em  nível superior. Depois temos alguns artistas, músicos e dançarinos de axé, pagode, funk, arrocha ou forró universitário, e atores famosos das grandes redes de telecomunicação, que vivem nos programas de televisão, nas novelas ou fazendo shows. Temos também os apresentadores de telejornais e programas de entretenimento. Além deles, que compõem uma sempre nova “elite emergente”, não podemos deixar de considerar os grandes industriais e empresários de diversos ramos produtivos, dos agronegócios aos grandes empreiteiros, e, para não deixar ninguém de fora, por último mas não menos importante, nossos políticos e magistrados da justiça, lideres de igrejas midiáticas e os grandes narcotraficantes.

 

Reunidos todos esses, podemos considerar que temos um bom panorama dos “tipos” que ocupam a categoria de “bem sucedidos” financeiramente, ocupando todos os altos patamares de “qualidade de vida” que se pode comprar e ser usufruído através do dinheiro. Todos esses, reunidos, ocupam no máximo os 5% da população brasileira que ocupam as classes A e AA, os ricos e milionários. Desses, me pergunto sobre aqueles que já nasceram ricos, ou, se enriqueceram, o fizeram de forma absolutamente honesta. Vivendo no país em que vivemos, com tantos escândalos atuais e antigos envolvendo políticos, burocratas, grandes empresários e empreiteiros agenciadores de propinas e juízes que fazem vista grossa para a sujeira toda que só faz crescer de tamanho e de mal cheiro, não me parece de todo absurdo a minha desconfiança para o fator honestidade ou falta de honestidade, relacionados a essas grandes riquezas, conquistadas ou mantidas sabe-se lá a que custos.

 

Podemos, então, considerar esse modo de vida, regido pelo poder econômico, como sucesso? Esse modelo é, de fato, o melhor a ser seguido como exemplo? E qual é o preço a ser pago para obter esse sucesso e esse status de ricos e milionários?

 

Penso ser esse um caminho demasiado tortuoso e o preço demasiadamente caro. Paga-se não apenas com o dinheiro, que garante o poder de consumo, mas com a própria honra. Acompanhando diariamente os escândalos que assolam nosso país, não tem sido raro vermos a prisão de políticos, agentes do governo e empresários, todos envolvidos em fraudes e esquemas de corrupção. Os envolvidos passam a figurar na lista dos “ladrões de colarinho branco”, presos pela polícia federal no conforto de seus lares e encaminhados para os presídios trajando seus ternos e carregando suas humildes sacolinhas de ginástica, malas muito mais humildes que as que costumam carregar repletas de dinheiro vivo. Presos, talvez não se demorem muito tempo na cadeia, pois sempre podem vir a pleitear um habeas corpus ou uma prisão domiciliar, quando alegam “problemas de saúde”. Regalia paradoxal, típica da elite endinheirada, se considerarmos as penúrias dos milhares de “pretos, pobres da periferia”, pequenos ladrões de galinha, de celular e de ônibus ou os pequenos traficantes de bairros, que apodrecem amontoados nas cadeias superlotadas, vivendo muitas vezes em condições menos salubres que muitas gaiolas de animais de zoológico, verdadeiramente animalizados e embrutecidos pela condição de exclusão.

 

Considerando ainda esses homens e mulheres bem sucedidos às custas da desonestidade, me pergunto qual o limite da ganância dessa gente? Se é que há limite para essa gente! Há, de fato, limite? Ou quanto mais se tem, mais se quer, seja lá qual for o meio a se empregar e o preço a se pagar? Acredito que há aí uma verdadeira compulsão patológica pelo enriquecimento, associada a um perfil de personalidade antissocial psicopática, associada sabe-se lá a que fantasia de grandeza e glória, verdadeiramente megalomaníaca e narcisista, ao ponto de acumularem muito mais do que o necessário para viver bem, de forma confortável e luxuosa, legando às gerações seguintes o mesmo modo de vida e gosto pela ganância desmedida e pela ausência de limites éticos.

 

Embora eu pareça estar sendo um pouco exagerado em minha descrição, não creio estar de todo longe de um panorama real. Vemos, ao menos na política, a perpetuação de famílias, geração após geração, movidas pela carreira política, sempre e cada vez enriquecendo mais, a partir, principalmente, das teias de influencia e relacionamento que vão se estabelecendo a cada mandato ou gestão. Mesmo aqueles que não são eleitos pelo voto, se mantem na esfera do governo assumindo cargos políticos, muitas vezes sem ter nenhum tipo de preparo técnico para tal, mantidos pelos seus apadrinhamentos e pelas redes de amizade. O que se costuma chamar no mundo dos negócios de “networking”, na política poderíamos chamar de “toma lá, dá cá”, esquemas de trocas de “favores” típicos da máfia, à filmes como “O Poderoso Chefão”.

 

Enquanto vemos diariamente todo esse “esquema” sendo denunciado, noticiado, mexido e remexido, copiosamente debatido e comentado, sempre com novos ingredientes de escândalo, os 95% restantes da população, que não ocupam lugar na elite brasileira endinheirada, segue suas rotinas de trabalho, na luta pelo seu ganha pão, dia após dia, ano após ano, sempre temerosa do desemprego ou da falência, cobrindo a cabeça e descobrindo os pés com o lençol que não consegue, muitas vezes, cobrir o corpo todo. Vivemos a vida real, das pessoas reais, que trabalham por uma segurança e estabilidade presente e futura, porém nem sempre certas e garantidas, diante de tantas mudanças e revezes econômicos e políticos empreendidos por essa elite e que afetam o todo da sociedade.

 

Já não tenho coragem de perguntar sobre o preço que pagamos pelo sucesso. Simplesmente não acredito nessa noção de sucesso associada ao enriquecimento. A palavra mesma me causa profundo desconforto por trazer em si uma ideologia que, longe de humana, é predatória. O sucesso que vem do enriquecimento para fins de consumo. Trabalhar, trabalhar e trabalhar para consumir, consumir e consumir. Esse é o ciclo que se mostra evidente quando analisamos a essência dessa lógica do sucesso. E, para aqueles que não são lá muito habituados ao trabalho, o modo de enriquecimento é via jogos de poder e blefe, nas trapaças da mesa de pôquer ou nos embates políticos, ou ainda nos esquemas de “toma lá, dá cá”, ou “eu te ajudo e você me ajuda” a tomar o dinheiro que “arrecadamos” do povo nos impostos que tornam nossas vidas mais difíceis e distantes do ideal de descanso e conforto que todos nós almejamos.

 

Diante desse panorama tão deprimente, o que nos resta, se é que algo nos resta, no final das contas?

 

Para aqueles que descobrem que toda essa idéia de sucesso é, na verdade, uma grande falácia feita para convencer o cidadão a continuar trabalhando dia-a-dia e às vezes dia e noite, para produzir para consumir, feitos os cálculos de todas as contas e faturas sempre arrochadas ou pendentes para o mês seguinte, só resta pensar, quando resta algum tempo para pensar, na vida. Sim, pensar e pensar na vida. Não na vida que simplesmente se tem que lutar para manter e subsistir, mas na vida vivida, naquilo que ainda vale a pena ser vivido. A vida que, apesar de todo o cansaço e fadiga, é única a coisa que verdadeiramente nos pertence e nos faz sentir que vale a pena lutar.

 

A vida nos é dada de forma gratuita, de forma quase milagrosa, que foi mantida por aqueles que nos permitiram a nossa existência – nossos pais, nossa família – e àqueles a quem nós podemos gerar e legar existência – filhos e netos. A vida, provavelmente, é o único bem que de fato podemos ter e almejar um sucesso. Sucesso na vida não é a riqueza que se acumula em bens que adquirimos e consumimos, mas é a vida que partilhamos com aqueles cuja existência nos dá sentido para existir e persistir. Os momentos em família e com quem amamos, os momentos com os companheiros e amigos verdadeiros que nos acompanham nas alegrias e nas dores, a vida, feita desses momentos, constitui tudo o que podemos construir não como patrimônio material, mas como valor.

 

Certamente, tudo isso que podemos verdadeiramente viver e usufruir como vida vivida não tem preço a ser calculado financeiramente, mas afetivamente. A vida vivida como principal valor não se mede cronologicamente, nem se pode calcular em termos de lucros e dividendos. Não se ganha vida ou se deve vida. A vida é usufruída como ou sem sabedoria, dia a dia, hora a hora, minuto a minuto, segundo a segundo, se passando em transcurso, num gasto absoluto que só se estanca na morte.

 

Qual o preço que pagamos pela vida? Qual o preço que pagamos por viver? Qual o valor dessa vida e desse viver? O que, verdadeiramente, importa, afinal de contas?

 

Teremos todos nós o tempo de uma vida para responder a essas perguntas.

 

A mim, que sinto ter chegado próximo ao meio de minha trajetória, imprecisa quanto a esse término, mas estimada, já sei que o valor não está no que posso acumular em riquezas e bens e no quanto sou capaz de consumir. O valor está na tranquilidade de poder dormir em paz todas as noites, colocando minha cabeça no travesseiro sem preocupações com coisas que não valem a pena. O valor está em cada momento em que posso usufruir desta vida que me foi dada gratuitamente, sabendo-me responsável pelo bom uso dela, para não desperdiça-la desperdiçando-me. O valor está em poder escrever essas linhas sem me preocupar se serei ou não lido ou compreendido, única e exclusivamente pelo prazer de deixar meus pensamentos registrados no tempo presente. O valor está no luxo de me sentir feliz e realizado, apesar de tudo e, em me sentindo assim, continuar persistindo na vida, sabendo que essa vida é meu bem maior, intransponível, irrevogável e indelegável.

 

É isso, acho que por hoje já deu!

 

Ao som de Mercedes Sosa, demos “gracias a la vida”!

 

 

 

Fonte da imagem: 

 

https://abrilexame.files.wordpress.com/2017/05/tempo-c3a9-dinheiro.jpg?quality=70&strip=info

 

Fonte do vídeo:

 

https://www.youtube.com/watch?v=cIrGQD84F1g

 

 

 

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