O preço da riqueza e a gratuidade da vida


Semana passada eu estava conversando com um amigo que, de certo modo, defendia a idéia de que as pessoas podem enriquecer trabalhando. Retruquei, de forma provocativa, dizendo que nunca tinha visto alguém ficar rico trabalhando, e que, na maioria das vezes, ou a pessoa já nasceu rica, herdando a riqueza de seus ancestrais que trabalharam por ela, ou enriqueceram explorando o trabalho de outras pessoas, ou, ainda, usaram de trambique, deixando de pagar impostos e sonegando a Receita Federal. Sei que meus argumentos foram e são radicais, e que, de fato, há pessoas que se tornaram bem sucedidas financeiramente trabalhando honestamente. Eu é que não as vi. No entanto, toda essa discussão me fez refletir sobre essa noção de sucesso que sempre está associada à riqueza material, numa sociedade e num mundo cada dia mais carente, para não dizer indigente, de valores. Pensando nisso, lanço a seguinte pergunta: Qual preço que pagamos pelo sucesso?


Se partirmos do principio de que para ser bem sucedidos precisamos trabalhar muito (muitos “gurus” dos negócios dizem que não é necessário trabalhar tanto assim, mas para começar é importante ter “espirito empreendedor”), quanto tempo de nossas vidas deveríamos nos dedicar ao trabalho? Oito horas diárias, cinco dias e meio na semana? Essa é a jornada de um trabalhador comum que, longe de enriquecer, apenas trabalhar para sobreviver e pagar suas contas. Esse mesmo trabalhador, na verdade, se trabalhar longe de sua casa, gasta-se muito mais de oito horas diárias dedicadas ao trabalho. (Hoje fala-se muito no “home-office”, que surge como uma nova “tendência”, mas que ainda muito mal vista por muitos, ou é vivida como uma forma sutil de manter o trabalhador em “stand by” trabalhando em “dedicação exclusiva”, 24 horas por dia).


Tomando a mim mesmo como exemplo, quando em minha rotina ordinária de trabalho, costumo acordar todos os dias às quatro e meia da manhã (sim, às quatro e meia!), para me preparar para o dia de trabalho, pegando o ônibus às seis horas, para chegar a tempo de “bater o ponto” de entrada às sete da manhã (às vezes ainda me atraso!), cumprindo oito horas de expediente, que na verdade são nove, considerando a uma hora de intervalo para almoço, e levando mais uma hora e meia de tempo de retorno para casa. Contabilizando tudo, ao todo são cerca de treze horas do dia vividas em função do trabalho. Rotina essa que se repete diariamente, cinco dias da semana, onze meses por mês, ao longo de vários anos.