"Chora não,bebê": Sociologia do Arrocha

October 13, 2017

Pelas minhas contas, lá se vão mais ou menos 15 anos do surgimento do ritmo conhecido como Arrocha. Essa febre musical que se espalhou pelo Estado da Bahia e demais regiões do país teria surgido no distrito de Caroba, em Candeias. O grupo que primeiramente teria executado o ritmo foi o Asas Livres, grupo de onde surgiu Pablo, o “Príncipe do Arrocha”. Outros nomes que também embalaram casais nos seus primórdios teriam sido Nara Costa, Silvano Sales, Nira Guerreira e Tayrone Cigano. Mas não é minha intenção reportar a música, nem falar sobre ela especificamente. Quero traçar observações a respeito de premissas que podem ter impulsionado seu início.

 

Meu raciocínio baseia-se, a princípio, nos locais onde o ritmo ganhou corpo e teria de lá colocado o pé na estrada. Os intérpretes que citei acima são oriundos de três municípios em especial: Candeias, São Francisco do Conde e Simões Filho – que integram a região metropolitana de Salvador. Apesar das referências às zonas rurais dessas cidades como ponto de partida dessa denominação musical, o seu desenvolvimento teria se dado em bailes realizados também na área urbana e daí ter se espelhado. Portanto, a primeira observação é de que o ritmo teria nascido em cidades industriais, ou seja, que tem a produção industrial como atividade econômica principal. Isso em si não explica muita coisa, mas pode justificar outras.

 

Em locais onde a atividade industrial se desenvolve, costuma atrair uma população masculina disposta a fornecer mão-de-obra para os ofícios lá realizados tornando-se “piões” de obra. Portanto, é comum a circulação de homens a procura de emprego. Esses municípios concentravam muita riqueza por via de royalties da extração de produtos naturais como petróleo e gás. Então o dinheiro circulava. Com tanto trabalhador recebendo proventos, logo se consolida um comércio formado para atendê-los, principalmente bares e restaurantes. As atividades nesses locais costumam se intensificar com jogos e música ambiente. Em locais maiores, pátios onde se pode balançar o esqueleto com danças de salão, as populares “serestas”. Cenário típico para a cultura operária.

 

Mas para dançar, os frequentadores precisam do público feminino! Muitos deles advém de outros locais, não são “nativos”. Como os trabalhos são temporários, suas famílias não os acompanham. Para espantar a solidão, diversão. E aí então algumas mulheres aproveitam para se deslocar para esses canteiros em busca de possibilidades de rendimento...

 

A primeira Revolução Industrial na Inglaterra gerou alguns problemas sociais como alcoolismo, violência doméstica, explosão demográfica e prostituição. E onde a produção em larga escala chegava esses fenômenos se reproduziam. Atividade industrial gera oportunidade, que gera mão-de-obra, que gera comércio, que gera diversão, que gera casa noturna... A esbórnia está feita.

 

O cenário social então se desenrola. Não é à toa, acredito, que o Arrocha tenha se desenvolvido nesse território. A Bahia sempre foi formadora dos mais diversos ritmos, cada qual com sua história. E os diversos ritmos em vários países surgiram de intensa atividade laboral. Nas Américas foram muitos gêneros musicais que nasceram das comemorações de escravos, um momento de alegria e humanidade que convergiam após as crueldades perpetradas pelo sistema. O que seria a própria dança do Arrocha senão um sugestivo compasso para embalar a união de tantos fatores e constituir idílios de amor? Um dos primeiros sucessos do Arrocha é justamente “Melô do Arrocha”, interpretada por Marcio Moreno. A letra não poderia ser mais determinante e autoexplicativa:

 

Venha aprender a nova dança que é sucesso na Bahia

Surgiu no brega de Caroba em Candeias

Na terra da alegria

As piriguetes tão dançando tão

E as lacraias arrochando tão

Mais os homens tão adorando

Porque a moda e dançar arrochando

 

Arrocha,arrocha,arrocha,arrocha

Não para não,não para,não para

Arrocha,arrocha,arrocha

Aperta expreme as piriguetes negão

E vai descendo bem gostoso bem gostosinho até matar painho

Arrocha,arrocha,arrocha

Aperta espreme

As piriguetes negão

 

“Periguete” é como são designadas mulheres “fáceis” que vão para esses ambientes a procura de sexo e vantagens, movidas por interesses que são efeitos da sobrevivência em localidades onde as mulheres tem pouquíssimas oportunidades de qualificação profissional para se inserirem nas práticas rentáveis da principal fonte de remuneração. Já “lacraia” pode ter muitos significados, entre eles, uma pessoa magra que tem um molejo fora do comum. Mas importante notar que o ambiente do Arrocha proporciona uma fusão de indivíduos interessados em pura farra, dispostos aos rumos da gandaia em excesso. As primeiras letras eram descrições das festas comandadas pelo ritmo até se tornar sucesso radiofônico e passa a abordar temas românticos, relações frágeis, e sofrimentos amorosos (“sofrência”) que podem -  a meu ver – serem típicos de quem está longe de sua terra e de seus referenciais.

 

Essas divagações podem ser pura “viagem” de minha parte, mas podem ter algum ponto de ressonância com outros fatos. Não se atribui o surgimento dos bailes de forró ao famoso “For All”, promovidos pelos militares norte-americanos à população de Natal na Base Militar do Rio Grande do Norte durante a Segunda Grande Guerra, onde muitos soldados se divertiam no salão com as “cabrochas” potiguares? A música regional do Pará não teria também se desenvolvido nos períodos do Ciclo da Borracha e ganhado corpo nos garimpos de Serra Pelada? Não sei. São hipóteses para uma pesquisa mais apurada futuramente. Quem sabe...? Mas fica aqui a reflexão: a relação entre trabalho, economia e diversão como propulsores da camada sonora que balança as multidões.

 

E assim encerro essas observações. Gostei de ter escrito. E posso garantir que “Foi bonito, foi, foi intenso, foi verdadeiro, mas sincero. Sei que fui capaz, fiz até demais...”

 

Fontes:

 

https://bdtd.ufs.br/bitstream/tede/2406/1/DAYANNE_SOUZA_FIGUEIREDO.pdf

 

http://www.scielo.br/pdf/rbh/v32n63/18.pdf

 

https://mundoestranho.abril.com.br/cultura/como-surgiram-os-diferentes-ritmos-latinos/#

 

https://www.letras.mus.br/pablo-a-voz-romantica/fui-fiel/

 

https://publicdomainvectors.org/pt/vetorial-gratis/Silhueta-de-imagem-vetorial-de-dan%C3%A7arino-feminino/12217.html

 

 

 

 

 

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