O que (não) é a amizade

October 31, 2017

 

Aquiles faz curativos em Pátroclo, ferido por uma flecha na guerra contra Tróia. Vaso do Altes Museum em Berlim.

 

Das muitas divagações que faço, durante madrugadas insones e nem sempre produtivas (sim, mentalmente estou velho o suficiente para isso), passei a conversar comigo mesmo – como um bom filósofo faz, embora não seja um – e refletir sobre várias coisas, das grandes questões da vida às mais frívolas.

 

Em uma dessas noites, estive pensando sobre o que constituí uma amizade, sobretudo atualmente. Ora, com tal questão, a busca não poderia ser outra, senão pela essência da coisa. No entanto, como o ato de exercer um regime de verdade sobre algo é limitar, busquei uma metodologia inversa: dizer pelo que não é. Tal exercício mental me fez chegar em algumas conclusões, que somadas aos meus anos vividos (quis parecer velho, então não cortem o meu barato), me levaram a essas antíteses. Vejamos.

 

Não faz muito tempo, ouvi de pessoas muito engajadas, preocupadíssimas com a maneira como se educam as crianças de hoje, que a amizade é muito importante na formação dos pequenos. Até aí estava “de boa” para mim, mas infelizmente a afirmação não parou por aí. Seguindo o raciocínio, o pai e mãe tinham que ser amigos do filho, o professor também tinha que ser amigo do estudante e por aí vai. Só que não.

 

Desculpem-me os que pensam diferente, mas a meu ver, a amizade não deve ser confundida com respeito e demais emoções necessárias no trato com qualquer um, principalmente com crianças. Agradeço porque meus pais e professores desempenharam seus “papéis”, cuja autoridade é característica intrínseca, sem que a relação tivesse se tornado autoritária ou sem espaço para o diálogo. Creio que progenitores e demais pessoas responsáveis pela formação de outras, não precisem ser “amigos” para demonstrar empatia, carinho e cumplicidade.

 

A amizade envolve um certo grau de horizontalidade, incompatível com uma relação que, a priori, não o é. Infelizmente, não me cansei de ver “pais-amigos” e “professores-amigos” e o resultado não me pareceu animador: crianças que não têm o devido respeito, nem pelos pais, nem pelos demais adultos porque mal deixam os cueiros, pensam em seguir senão sua própria vontade; estudantes que se acham com o direito de fazer o que quiserem em sala de aula, em nome da “brodagem” do professor, que mais parece uma versão capenga de um comediante com diploma de licenciatura. Mas se vangloriam de que “sou amigo dele (s)”. Mas isso é tema para outra conversa, então desculpem-me pela pequena digressão.

 

A amizade não deve ter utilidade. Isso mesmo, amigo bom é amigo inútil. Calma, antes que pense naquele amigo que “ainda está procurando uma boa oportunidade do mercado de trabalho”, não é a este aí que me refiro. Útil é tudo aquilo que serve para alguma coisa, ou seja, tem seu valor na relação com algo, mais especificamente o seu fim. Se você tem um carro, é porque a utilidade dele é levar você a algum lugar; se compra um tênis, seu valor está em sua utilidade, que é manter seus pés protegidos do chão; da mesma forma, as roupas que vestimos. Todos esses itens se apresentam a nós como necessários, porque demonstram ser um meio para se conseguir um fim.

 

Ainda que a nossa sociedade de consumo tenha sacralizado as coisas como detentoras de um valor em si, uma boa amizade não deve ser tomada como uma alavanca com a qual se pode mover o mundo: são os momentos vividos com alguém – momentos esses que não eram úteis nem necessários –, mas que só foram vividos porque foi uma escolha de ambos, que se decantam na história de uma amizade. Se você tem um amigo que te acha com cara de Google e só te procura quando está procurando por algo, desconfie...

 

Amizade também não é oba-oba. Ainda que dar boas gargalhadas com um amigo seja tão bom quanto um lugar vago no ônibus para sentar, muitas vezes o sentimento compartilhado exigirá que, julgando necessário, um amigo tenha que ser duro e diga ou faça, o que quer que tenha que ser dito ou feito. E por vezes é difícil entender, justamente porque a amizade é uma relação horizontal e temos o costume de não aceitarmos “pagação” de alguém que está no mesmo nível que nós. Mas quando a outra pessoa ouve mesmo assim, ainda que discordando do que foi dito, é sinal que aceitamos que o outro fale, em nome de uma “autoridade” que não vem pelo laço de sangue, nem tampouco das hierarquias sociais, mas sim da amizade que você e aquela pessoa compartilham.

 

Amizade não está naquilo que se dá ou recebe (lá ele). Não é raro ouvir alguém se gabar de amizades que a “bancam” em uma festa, ou algo gênero. Seguindo o argumento, amigo bom é amigo “mão aberta”, sempre a fazer de você o destinatário dos seus gastos. Raciocínio inverso, um bom amigo seria aquele que se entrega: você se sente bem quando se doa desmedidamente àquele amigo e assim, se sente fazendo sua parte. Sinto pelos que foram tocados pelo dedo sinistro da “mercantilização da vida” e medem suas amizades pelo que se pode auferir das mesmas, como um investimento na bolsa de valores. Da mesma forma, creio não ser a entrega desmedida, como um fiel que põe aos pés do altar o seu sacrifício em busca de redenção, o fundamental da amizade.

 

Não é uma questão a ser entendida como um fluxograma de setas de ida e volta; muito menos como o produto dos vetores que vão e vem. O importante para uma amizade é o que acontece no fluxo de vida entre as pessoas. Não à toa, o termo companheiro em latim signifique cum panis (com pão, em latim), ou seja, os que compartilhavam não apenas da refeição, mas de laços que só podem ocorrer em um espaço de interseção entre as pessoas, tal qual o espaço político. Justamente por isso, para Aristóteles, a amizade era um bem a ser perseguido na política (juro que tentei me afastar do tema, mas o vício é grande e não resisti ao exemplo). E esse compartilhamento não implica em acepções: esses momentos compartilhados devem ser bons ou ruins. Nos momentos de angustia, ter um amigo não significa reviver cenas clichês de novela, mas sim poder contar senão com palavras de conforto, ao menos com um silêncio eloquente de afeição.

 

Da mesma forma, ter um amigo significa não lidar com um retrato pintado, como aqueles encomendados antigamente, mas com uma paisagem que por mais que admiremos na primeira vez a vemos, sofrerá mudanças pelo devir, gostemos ou não. Como qualquer outro, ele tem qualidades e defeitos, os quais devemos aceitar e aprender a conviver, sejam eles quais forem. Se somos seres mutáveis por natureza, seu amigo provavelmente irá mudar em algum momento ou de alguma forma e você terá que ama-lo mesmo assim, caso a amizade permaneça.

 

Por fim, a amizade não é GPS e não se referencia pela distância. Na era digital, a sustentação de boa parte das amizades tem ocorrido por meio eletrônico. Não serei um fariseu a criticar “os novos tempos”, pois creio que uma mensagem de whatsapp te desobriga a encontrar alguém da mesma forma que a carta o faz. Portanto, essa falsa contradição em medir amigos pelo critério de “perto” e “longe”, só demonstra a fragilidade de algo que parece só fazer-se eficaz se próximo. Tal como um monumento que desafia a natureza e o tempo, uma boa amizade deve ser o mesmo, independente da distância.

 

Bem, provavelmente você deve achar um tanto quanto contraditório ter escrito o que é uma amizade, mesmo com a ressalva de que o modelo servisse para mim e para mais ninguém. No entanto, se Capiba e Hermínio Bello de Carvalho estiverem certos e as amizades forem mesmo feitas como casa, então no vilarejo que é a vida, consigo distinguir, entre as que caíram e não deixam vestígios e as que permanecem de pé, de que material foram feitas.

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