Discernimento e escolha

November 5, 2017

 

 

Hoje irei tratar de um tema que, a meu ver, diz respeito à vida e à existência de todas as pessoas: a escolha. A escolha que não se limita ao ato de optar por uma coisa ao invés de outra, nem a um simples ato de vontade, mas no que, numa perspectiva existencialista, é o que define nossa liberdade, a escolha responsável em relação ao nosso próprio projeto existencial, ao nosso destino, ao nosso próprio eu que construímos diariamente.

 

Obviamente, se tratamos do tema da escolha, devemos considerar que há opções a serem escolhidas. Será que e essas opções realmente existem e estão disponíveis ou somos condicionados o tempo inteiro ao ponto de termos nossas vidas mais ou menos predeterminadas? Não creio nisso, embora eu considere que, a própria necessidade de fazermos escolhas seja um sinal de limites a nossas ações. Temos opções limitadas, e esses limites se dão justamente pelas opções que temos diante de nós.

 

De todo o modo, há sim certas determinações estabelecidas pelo nosso contexto de vida imediato, pela nossa família, onde nascemos e primeiro socializamos, na escola, na rua, nos bairro, na cidade, no estado, no país, na cultura desses lugares onde nascemos e nos desenvolvemos. Todos eles, embora influenciem enormemente nossos primeiros anos de vida e parte da vida adulta, podem vir a ser transpostos e expandidos quando nos deparamos com outros contextos de socialização e podemos vir a transitar e conhecer outros lugares, pessoas, realidades e visões de mundo.      

 

O contexto social e, principalmente, econômico, pode restringir bastante as possibilidades de ampliação desse campo de experiências de socialização e transito pelo mundo, mas, mesmo assim, esses limites podem ser transpostos quando se busca ampliar a visão sobre o mundo e a realidade através da cultura e do conhecimento. Creio que uma boa educação, que nos tire de nossos espaços comuns de acomodação e nos põe em contato com outras realidades, nos permite ampliar essa visão de mundo, nos abrindo portas e possibilidades de novos contatos com a realidade a nossa volta, mesmo que não saiamos dos limites físicos de nossa cidade. A busca por essa ampliação de visão de mundo, no meu entendimento, mais do que questão de oportunidade, é uma escolha, para aqueles que ainda acreditam no potencial emancipador via educação.

 

Essa mudança ou ampliação de visão de mundo, que muito se adquire mediante os processos de aprendizado, pelo estudo ou simplesmente pela leitura ou contato direto com outras pessoas de origens, culturas, pensamentos e experiências de vida diferentes das nossas, nos favorece uma gradual mudança de compreensão também sobre nós mesmos, nos despertando desejos, nos fazendo repensar nossos papéis e nossas escolhas ao longo da vida. Esse ato de reflexão é o que nos permite mudar ao longo da vida, rever nossos pontos de vista, reavaliar o peso de nossas ações, tomar decisões diferentes, assumir riscos ou recuar diante desses riscos, buscando soluções outras, etc. A partir de uma maior consciência de si e do mundo a sua volta é possível agir com maior discernimento sobre o que é melhor ou pior, certo ou errado, bom ou mau para si, para o outro e para o mundo.

 

Quando falamos em escolha, do ponto de vista existencial, como exercício de liberdade, devemos levar em consideração esse discernimento, que implica uma certa racionalização sobre as consequências dessas escolhas e das implicações éticas para si, para o outro e para o mundo. Uma escolha que faço não tem consequências apenas sobre minha vida, mas impacta direta ou indiretamente a vida de outras pessoas a minha volta. Se ajo de modo meramente instintivo ou impulsivo, meus gestos e ações, sejam eles criativos ou destrutivos, não ficarão restritos a mim mesmo, exceto se eu opte por viver uma vida solitária com o mínimo de contato possível com outras pessoas, o que é quase sempre algo impossível, num mundo que nos demanda o tempo inteiro que sejamos úteis e produtivos e estejamos hiperconectados, seja no mundo real, seja no mundo virtual.

 

Nossas ações, nossas escolhas, embora sejam o que de fato caracteriza nossa liberdade, não são totalmente desprovidas de um contorno, de um contexto que as influencia ou as limite. O fato de limitar não significa dizer que as determina ao ponto de esses limites, em algum momento, não poderem ser transpostos, mas, essa transposição de limites nem sempre depende única e exclusivamente do nosso querer, na nossa garra e determinação. Talvez nesse ponto é que repouse o risco maior da frustração. Sim! A frustração diante da impossibilidade de realização de uma escolha desejada.

 

Vivemos numa sociedade que o tempo inteiro nos convoca a superar os limites, transpor barreiras, vencer obstáculos, como se a vida fosse uma eterna corrida daquelas que vemos em jogos de olimpíadas. Imaginem a loucura que seria se tivéssemos que passar a vida inteira correndo e pulando obstáculos! A vida se assemelha muito mais a uma caminhada em paisagens imprevisíveis, oras ao ar livre, oras em espaços fechados, oras em ambientes organizados, planejados e bem sinalizados, oras adentrando trilhas e vielas estreitas, oras subindo ladeiras, retornando de becos sem saída ou contornando obstáculos, subindo e descendo, parando às vezes para descansar, etc.

 

O destino final todos nós sabemos qual é, mas a caminhada é o mais importante. E cada um caminha fazendo seu próprio trajeto, sua própria trilha, oras sozinho, oras acompanhado, marcando pontos de encontro, despedindo-se para rever mais a frente ou nunca mais. E assim vamos vivendo nossas escolhas, nem sempre tendo todo o intinerário previamente traçado – na verdade quase nunca o temos – rascunhando os dias e vivendo e fazendo escolhas possíveis a cada momento.

 

Embora não possamos sempre realizar aquilo que desejamos, da forma como desejamos e quando desejamos – o que muitos confundem como sendo, isso, a liberdade – escolhemos o tempo inteiro ser e agir de acordo com nossa consciência, nas relações com nós mesmos, com o outro e com o mundo. Mesmo quando parcialmente privados de nossa razão, por motivos diversos, ainda assim, guiados por nossos impulsos ou por nossos instintos, agimos de forma a sermos responsabilizados por nossos atos. Por vezes pode nos faltar o pleno discernimento de tudo o que nos move ou nos condiciona a ação, limitando ou possibilitando nossas escolhas, mas, ainda assim, agimos escolhendo dentre as opções que nos são mais próximas e possíveis, que temos ou não a iniciativa de ir ao encontro para realizar.

 

Embora eu não concorde com a ideia um tanto quanto perversa que coloca toda a responsabilidade da condução da vida da pessoa nas suas próprias mãos, também não nego que cabe a ela um certo protagonismo. Escolher e ser livre implica em assumir esse protagonismo diante da própria vida, a capacidade de ir em busca e realizar seu próprio caminho, sua própria existência. Não creio que haja formula a ser ensinada para a melhor forma de se realizar essa caminhada e fazer essas escolhas com discernimento. A vida mesma nos encarrega de nos fornecer as oportunidades e os modos de agir visando a manutenção da própria existência. Nem sempre encontramos um sentido nessa caminhada, o que demanda que estejamos constantemente nos reinventando e construindo novos sentidos. Temos toda uma vida para fazer isso, mesmo quando a vida nos parece curta e breve para tudo o que desejamos realizar.

 

Acho que fico por aqui.

 

Espero que todos tenham gostado do texto de hoje. Espero não ter caminhado em círculos, mas, se o fiz, quem pelo menos, tenha sido uma caminhada prazerosa.

 

Abraço a todos e até semana que vem.

 

Fonte de imagem:

 

http://notuscomunicacao.com.br/wordpress/wp-content/uploads/2015/07/escolhas_artigo.jpg

 

 

 

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