"Isso é coisa de preto": Opiniões sobre uma injúria na TV

November 10, 2017

Na cobertura de uma reportagem nos EUA sobre as eleições norte-americanas, o jornalista da Rede Globo Willian Waak reagiu a um buzinaço próximo ao local onde estava com um convidado. Reclamando do barulho, teria dito em cochichos inaudíveis que aquela barulhada toda era “coisa de preto”. A frase foi dita fora do ar, mas somente agora foi vazada. Essa injuria teria sido decifrada por leitura labial. Diante do fato, a emissora afastou o jornalista do comando do “Jornal da Globo”. Imediatamente, muitas pessoas nas redes sociais pediam a demissão sumária de Waak.

 

A demissão seria justa, óbvio. Em pleno trabalho, mesmo fora do ar, o jornalista proferiu algo repugnante. Não foi na praia tomando sol, nem saindo bêbado de uma boate. Foi pouco antes de entrar ao vivo para cumprir seu oficio! O vídeo foi gravado por um celular pelo ex-operador de VT da emissora Diego Rocha e vazado pelo designer gráfico Robson Cordeiro. O texto que se segue não é para falar sobre as práticas do racismo no Brasil. Isso é constantemente debatido e muito bem posto por ensaístas mais inteirados e estudiosos do assunto. A questão aqui é opinar sobre o que aconteceria se o jornalista fosse demitido. A meu ver, pelo que vejo e analiso como expectador dos desígnios da grande imprensa, o desligamento total não seria uma boa saída. E opto pela opinião porque opiniões podem ser proferidas por qualquer um, não apenas especialistas.

 

Esse mesmo Waak muitas vezes foi acusado de declarações políticas duras aos governos do PT e muitas vezes é chamado de “golpista” – pertencente que é ao grupo de profissionais da TV e dos veículos de comunicação que apoiaram a queda de Dilma Rousseff. Mas independente de posições ideológicas, o que se pode avaliar de cara é que alguém com mais de 60 anos proferir essa citação infeliz mostra que seu preconceito não tem como ser revertido. E que o jornalista tenha passado esse tempo todo na TV sem nenhum arranhão quanto a qualquer outro comentário discriminatório é que é a surpresa.

 

Mas por que eu afirmei que a demissão seria um tiro no pé? Demitido, o jornalista em questão seria procurado por outros grupos da mídia para falar sobre o assunto. Teria espaço, coisa que ele menos deveria ter. Acredito, por leve inspeção, que uma pauta com algo tão polêmico geraria atenção de muita gente que consome ou obtém informação. Todos iam querer ler ou ouvir o que ele teria a dizer. Ele iria se desculpar? Iria negar o que falou e atribuir ao engano da leitura labial um grande equívoco? Iria dizer secamente que quem não for racista nesse país que atire a primeira pedra? Bem, isso daria uma grande oportunidade a ele refazer sua imagem e, mediante a reação do público, ser até consultado para trabalhar em outra emissora, apresentar um programa de variedades – como um Quiz – ser colunista ou até mesmo criar um blog de sucesso. Será? Não duvido. Há muitos “Waaks” por aí – pelas opiniões duras e ditas “fascistas”, e não por promover racismos e afins, que fique bem claro. Ter um Waak a mais ou a menos em seu quadro de funcionários não faria diferença. Uma questão de “Waakcância”.

 

Ouvimos muitas frases repulsivas por aí, não exatamente ditas por jornalistas, mas por políticos que são ardorosamente seguidos – Como um que teria chamado sírios e bolivianos de “escória do mundo”. Um também apresentador de jornal teria dito, fora do ar também, “Que merda, dois lixeiros desejando felicidades do alto das suas vassouras. O mais baixo na escala do trabalho”. Pediu desculpas e seguiu em frente. Indignação há, mas nunca que possa causar qualquer danos de imagem a quem profere. Portanto, a melhor saída para Waak seria o rebaixamento profissional. Colocá-lo em um setor para atender telefone ou assessorar jornalista de maior renome e até ouvir piadinhas como “puxa, Waak, esse café caiu mal no meu estômago. Isso é coisa de preto!”. Assim, sentiria o que é falar demais o que não deve sobre uma população que ainda ouvem os estalos do açoite do período escravocrata. E ainda notar que se incomodar com algo ou se manifestar buzinando não é uma questão de etnia, como ele deixou claro...

 

Mas posso estar enganado. Sim, é pra isso que serve a opinião, para omitir algo que pode não vir a acontecer como se previa. O ator José Mayer foi acusado de abusar de uma figurinista da Globo. Emitiu uma carta de desculpas, mas não teve que dar explicações, nem foi solicitado para falar de atitudes machistas na TV. Foi afastado, e pelo que parece, vai ser mantido assim.

 

Enquanto isso, várias injurias raciais acontecem por aí. Nos salões de beleza, shopping centers, estádios de futebol...nada mudará. Não é nenhum apresentador de jornal e suas frases infelizes que vão nos deixar a par de rever nossos preconceitos. Muita “coisa de preto” ainda vai ocorrer Brasil afora...

 

 

FONTES:

 

http://www.otempo.com.br/divers%C3%A3o/celebridades/ex-funcion%C3%A1rio-da-globo-vazou-v%C3%ADdeo-de-william-waack-1.1540923

 

https://tvefamosos.uol.com.br/noticias/redacao/2017/09/19/boris-casoy-paga-r-60-mil-a-gari-ofendido-em-telejornal.htm

 

 

 

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