Hollywood engoliu a esquerda!!!: os bastidores do espetáculo cinematográfico

November 22, 2017

 

 

 

 

 

 

Thiago Pinho

 

 

O mundo do cinema mudou, não percebe? Olha a sua volta, da uma olhada... O que você vê? Vamos mergulhar um pouco nesse terreno estético, observando seus bastidores e toda sua dinâmica de fundo. A proposta, nesse ensaio, é entender as mudanças na estrutura de linguagem do cinema contemporâneo e da própria percepção dos envolvidos nesse universo. Antes de invadir esse aqui e agora, vamos recuar um pouco, vamos direcionar os olhos ao passado, um passado não tão distante assim, na verdade apenas algumas décadas atrás.

 

 O cinema mais crítico, clássico, aquele de diretores como De Sica, Visconti, Fellini, e outros, tinha um claro compromisso em retratar a realidade do modo mais imediato possível, uma realidade que transbordava na medida em que os planos eram organizados, uma realidade sem maquiagem ou qualquer malabarismo estético. Essa visão anti-heroica do mundo, ás vezes áspera e fria, como em Ladrões de Bicicleta, um grande filme de De Sica, acaba se contrastando com o modelo popular do cinema hollywoodiano nas décadas de 50, 60 e 70, com sua narrativa fantasiosa, seus romances assépticos, e seus heróis cartesianos, transparentes. Ao contrário de Hollywood, o cinema crítico, nesse sentido, era como um suspiro diante de um universo fílmico tomado por uma linguagem bem encadeada, com personagens bem resolvidos, com cenários bem estruturados, a não ser quando algum inimigo externo surgia, personificando todos os problemas dentro de um único ponto.

 

Em Rear Window (1954) de Hitchcock, um fotógrafo profissional acompanha os movimentos suspeitos de uma figura no prédio ao lado, gerando uma tensão crescente, tendenciosa, e bem característica do próprio diretor. O inimigo vai se esboçando de forma cada vez mais clara, sendo uma externalidade capaz de ser representada. Esse é o mesmo modelo de um filme, algumas décadas á frente, como Jaws (1975), em que mais uma vez Hollywood constrói um modelo dicotômico da realidade, tornando a contradição, a dissonância, algo de casual, alguma mancha externa e inconfundível com o próprio mundo, tudo isso personificado na figura de uma criatura assassina. O suspense é construído ao longo de todo filme, cena por cena, ao fazer do protagonista, o tubarão, uma espécie de inimigo oculto, distante, mas ao mesmo tempo sempre presente. A trilha sonora potencializa esse mesmo efeito, tornando o tubarão o objeto que condensa todos os medos e as preocupações dos personagens.

 

Seguindo a mesma linha, em 1979 o filme Alien de Riddley Scott surge nas telas, preservando o mesmo padrão de filmes como Rear Window ou Jaws. Nesse caso, o inimigo não mora mais ao lado, como em Hitchcock, ou no oceano, como Spielberg, mas vem de outro planeta, embora mantenha a mesma estrutura que os outros dois. Esse inimigo, como sempre, é algo externo, personificável, algo que ameaça a coesão espontânea dos personagens, algo que os ameaça de fora. Existe aqui uma espécie de matriz harmônica conformando sua linguagem, seus personagens e cenários. Tudo está encadeado dentro de um todo conveniente, embora ilusório, já que se apresenta sem manchas ou contradições.

 

O cinema crítico e seus descendentes, como Fellini, por exemplo, sempre recusou o estilo da narrativa hollywoodiana, entendendo que as contradições são internas á própria realidade, e não um obstáculo casual dentro de uma linguagem coerente. Como consequência, seus personagens eram profundos, oscilantes, anti-heróicos, e o inimigo sempre algo mais disperso, onipresente. O problema aqui não é tão fácil de ser representado, já que não é um elemento da realidade, mas a própria realidade, em toda sua extensão. Em Roma Cidade Aberta, meninos caminham descalços, sem esperança, tendo apenas uma cidade devastada no fundo. Em Ladrões de Bicicleta, não existe um Happy End, mas o caminhar triste de um pai ao lado de seu filho pequeno. Em a Terra Treme, de Visconti, as mulheres esperam, na beira de um rochedo, pelo retorno de seus maridos, os pescadores, e isso em meio a nuvens escuras e vento forte. O real, nesse retrato neorrealista, não usa maquiagens, ou uma retórica confortável escondida atrás de algum narrador over. Ao contrário do retrato de Dorian Gray, as manchas desagradáveis não são ocultadas em algum sótão escuro, distante do olhar do outro. Elas são trazidas a tona, sem vergonha, por mais impactante e dissonante que sejam. Isso é o que podemos chamar de visão anti-heróica de mundo.

 

O cinema hollywoodiano hoje em dia, por sua vez, mudou radicalmente sua estrutura interna, adaptando a si mesmo, ao incorporar elementos antes contrários ao seu padrão fílmico, como a perspectiva anti-heroica. Como o próprio capitalismo, ele acabou expandindo seus limites, além de modificar seus valores conforme a demanda flutuante do momento. O potencial crítico clássico, presente em filmes como Roma Cidade Aberta, por exemplo, já não fazem tanto efeito, já não carregam tanta intensidade; ao contrário, servem apenas para reforçar o estado contemporâneo de uma nova indústria cinematográfica, com uma nova forma de funcionamento, não mais baseada na alienação, mas sim no cinismo.

 

Filmes como Divergent (2014), After Earth (2013), The book of Eli (2010), I Am The Legend (2007), Wall-E (2008), The Day After Tomorrow (2004), World War Z (2013), Mad Max: Fury Road (2015), e tantos outros, trouxeram para o cinema de massa aquela perspectiva antes utilizada pelos movimentos de resistência. Hoje, ao invés de critério critico, a visão anti-heroica serve como um tipo de moeda que agrega valor a mercadoria, nesse caso, o cinema. A indústria cultural contemporânea, nesse sentido, incorpora aquele movimento que décadas atrás ameaçava sua estrutura, fazendo dela, agora, uma extensão de si mesma. As contradições do mundo, dos personagens, das narrativas, estão escancarados na tela, não mais escondidos atrás de ideologias. Nenhum manto separa espectador e écran, nada impede que o primeiro veja o real em seu aspecto mais imediato e desprezível. O estranho, contudo, é que dessa imediaticidade não brota nenhuma reflexão, mas uma espécie de cinismo confortável. Algo mudou na dinâmica estética do cinema, e a própria percepção dos indivíduos também segue o mesmo ritmo.

 

Já que a realidade no cinema popular contemporâneo é mostrada sempre em todo seu perfil contraditório, sendo seus próprios personagens e cenários também complexos e ambíguos, o problema atualmente não é mais a alienação, mas o cinismo.  A chamada cultura de massa, hoje, expõe claramente em suas telas as dissonâncias contidas na realidade, fazendo de seus filmes um prolongamento do que acontece no próprio mundo, sem mais maquiagens ou retoques. Até mesmo desenhos infantis, antes povoados por uma linguagem bem ajustada, dicotômica, com seus personagens e enredos bem resolvidos, agora tornam-se complexos, dinâmicos, apresentando uma narrativa bem anti-heroica. Produções como “Adventure Time” (2010), “Gravity Falls” (2012) e “Steven Universe” (2013), apenas para citar alguns, representam bem essa mudança de narrativa. A dialética perde sua síntese, torna-se negativa, fazendo da linguagem uma espécie de quadro a lá Pollock, embora, e isso é o curioso, nenhuma reflexão brote desse espaço, ao contrário.

 

Nesse horizonte não mais coerente, sem aquela harmonia constituinte, o enredo é complexo o bastante para se tornar incerto, escapadiço, não mais governado por aquelas famosas dicotomias, como “bem-mal”, “herói-vilão”, “natureza-sociedade”, etc. Numa estrutura de linguagem dicotômica, ou dualista, cada coisa tem seu lugar, cada elemento corresponde a alguma matriz de sentido, tudo encadeado dentro de uma grande totalidade hegeliana. Esse modelo, contudo, mudou e não opera mais com dualismos e sim como uma estrutura complexa de linguagem.

 

          Para Brecht, quanto mais uma narrativa se aproxima da realidade, revelando suas nuances e contradições, mais a reflexão substituiria o prazer do espectador diante do espetáculo, ao criar assim um tipo de afastamento constituinte, alguma brecha reflexiva responsável pela própria inciativa política. Contudo, parece que essa ideia não se aplica aos dias de hoje. Os indivíduos contemporâneos não parecem mais reflexivos, apesar da realidade contraditória e anti-heroica presente nas telas dos cinemas populares e até mesmo em desenhos infantis. Alguma coisa aconteceu no processo, sendo que a reflexão brechtiana acabou sendo substituída por um cinismo estranho, um tipo de comportamento muito além daquela alienação presente na indústria cultural clássica.

 

          O capitalismo hoje em dia não busca mais esconder suas falhas, deslizes, e sua própria irracionalidade interna. Não perde seu tempo costurando uma linguagem confortável, embora irreal. O seu lado mais corrompido torna-se mercadoria, artigo de consumo, o que é no mínimo irônico. Suas feridas se tornaram um critério estético, não mais um objeto de vergonha. O prazer surge justamente daquilo que deveria incomodar, e o riso passa a ser uma espécie de patrocinador não mais da identidade das coisas, como em Adorno, mas do seu oposto. O riso substitui a crítica, até aí nenhuma novidade. Mas um riso que brota das contradições, um riso que não mais prospera na alienação? Que forma de prazer é essa que não brota mais da fantasia, da farsa, mas justamente de uma visão concreta, de um cinismo? Seria algum tipo de masoquismo?

 

 

Fonte da imagem: https://mundoestranho.abril.com.br/cultura/por-que-hollywood-se-tornou-a-capital-do-cinema/

 

 

 

 

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