Graciliano Ramos: angústia e o não lugar do escritor


Luana Marinho



No romance ‘Angústia’, publicado em 1936, o escritor alagoano Graciliano Ramos critica, entre outros aspectos, a instituição literária e coloca em dúvida o valor da própria escrita. Ele também problematiza o não lugar do intelectual na sociedade brasileira. O livro é narrado em primeira pessoa pelo personagem principal, Luís da Silva, um funcionário público de 35 anos e escritor frustrado.


Assim como na ficção, muitos escritores brasileiros conhecidos na atualidade ocuparam o posto de funcionário público, a exemplo de Carlos Drummond de Andrade, Machado de Assis, Vinícius de Moraes e Augusto dos Anjos. O próprio Graciliano foi prefeito da cidade de Palmeira dos Índios, além de ter dirigido a Imprensa Oficial e a Instrução Pública do Estado de Alagoas.


Nesse sentido, Graciliano reflete sobre a condição do escritor brasileiro que não consegue sobreviver com a venda de livros. O personagem Luís da Silva trabalha em um órgão público, escrevendo relatórios e recebendo ordens. Ele considera o ofício enfadonho e mal remunerado, chegando a afirmar que age como um parafuso insignificante na máquina do Estado, “fazendo voltas num lugar só”.


Além de funcionário público, Luís da Silva vende sonetos a “moços ingênuos”, trabalha à noite em um jornal, revisando textos e escrevendo notas de polícia, e presta serviços a editoras “de segunda ordem”, traduzindo “livros idiotas”, para complementar o salário.


Assim, Luís da Silva apresenta-se como um intelectual fracassado, pois escreve apenas sobre o que os outros pedem e por dinheiro, numa espécie de prostituição da escrita. Logo no terceiro parágrafo do romance, o narrador compara os escritores às mulheres da rua da Lama, reduto da prostituição de Maceió na década de 30:


Passo diante de uma livraria, olho com desgosto as vitrinas, tenho a impressão de que se acham ali pessoas exibindo títulos e preços nos rostos, vendendo-se. É uma espécie de prostituição (…) E os autores, resignados, mostram as letras e os algarismos, oferecendo-se como as mulheres da rua da Lama (RAMOS, 2012, p. 7).





Apesar de escrever por dinheiro, Luís da Silva não consegue ascender socialmente. Nas primeiras páginas do romance, ele assegura que leva uma “vida monótona, agarrada à banca das nove horas ao meio-dia e das duas às cinco, é estúpida. Vida de sururu”. Ao estabelecer um paralelo entre si e o sururu – molusco típico do Nordeste que vive dentro de conchas –, o narrador rebaixa-se a uma vida oprimida e limitada, sem grandes pretensões.


Quanto à forma de narrar, Graciliano utiliza em ‘Angústia’ a técnica literária da antecipação. Luís da Silva descreve fatos ocorridos um ano atrás como se não tivessem acontecido, mas, ao longo do romance, deixa pistas sobre fatos que serão descritos nas últimas 100 páginas do livro. Este é, portanto, um romance memorialista, em que o narrador destaca momentos que julga relevantes da própria vida.


Outro aspecto significativo de ‘Angústia’ é a organização não-linear. Ele não é dividido em capítulos, mas em blocos que podem ser entendidos de forma autônoma. Segundo o escritor e professor Silviano Santiago (2012, p. 288), o romance é formado por uma justaposição de micronarrativas autobiográficas que, no entanto, “mantêm entre elas uma estrutura tão fechada quanto a da grande narrativa”. Ou seja, apesar da aparente fragmentação, o leitor consegue ordenar a narrativa.


Por essas e outras razões, o professor Antonio Candido (2010, p. 84) considera ‘Angústia’ o mais complexo dos romances de Graciliano Ramos. Diferente dos demais livros do escritor, ele é “longo e desenvolve com detalhe a análise interior”.





Autora: Luana Marinho

Jornalista, especialista em comunicação estratégica e graduanda em letras vernáculas pela Universidade Federal da Bahia (Ufba).

E-mail: luana_marinho_nogueira@hotmail.com





Fontes



CANDIDO, Antonio. Introdução à literatura brasileira. 6. ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre azul, 2010.

RAMOS, Graciliano. Angústia. 67. ed. Rio de Janeiro: Record, 2012.

SANTIAGO, Silviano. Posfácio. In: RAMOS, Graciliano. Angústia. 67. ed. Rio de Janeiro: Record, 2012. p. 288.

Foto: https://queridojeito.com/graciliano-ramos

Foto http://diariodonordeste.verdesmares.com.br/cadernos/caderno-3/a-universalidade-de-graciliano-ramos-1.1729779

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