Arte como autoconhecimento: um relato sobre a experiência no teatro em Salvador

December 11, 2017

 

 

Leon Tolstói

 

"A atividade da arte é baseada no fato que o homem, ao receber pela audição ou visão as expressões dos sentimentos de outro homem, é capaz de experimentar os mesmos sentimentos daquele que os expressa".

 

 "A atividade da arte se baseia nessa capacidade que as pessoas têm de ser contagiadas pelos sentimentos de outras pessoas". [1]

 

 Arte vem do latim ars, que significa uma técnica. Na sua origem, a arte era sobre fazer algo, de um objeto comum até o aprendizado de uma língua.  Com o passar do tempo, de acordo com Deonisio da Silva [2], o conceito passou a ser utilizado para designar a capacidade de criar algo que expresse sentimentos, emoções e ideias por meios de pinturas, danças, músicas e teatro. Utilizo dessa definição mais atual para meu ensaio de hoje.

 

Na Antiguidade, Platão encarava a arte como imitação do real - mundo verdadeiro. A arte afastaria os  homens  do trabalho da razão. Por isso, o grande pensador grego apreciava a filosofia como caminho racional para o desprendimento das sombras em busca da luz verdadeira. Mas, o sábio filósofo pecava em não considerar que nem toda imitação é arte, e que os sentimentos expressados por ela podem elevar o espírito para além das aparências.

 

 

Até pouco tempo, a arte era algo indiferente pra mim.  Mas, comecei a me dar conta do enorme déficit dessa questão. A minha visão de mundo era mais centrada numa ótica objetiva da realidade. A minha área, as ciências sociais e a filosofia, segue essa compreensão, a saber, de um intenso trabalho racional de  interpretação da vida nas mais diversas facetas. E o grande cuidado que devemos ter é de que é impossível compreender cabalmente todas as relações. Muitos estudiosos acabam caindo neste equívoco e mergulhando em verdadeiras “seitas acadêmicas”.  Mesmo assim, sempre tive uma resistência com toda essa pseudo possibilidade de explicação da vida, mais, especificamente, o social.

 

Comecei a sair do quadro científico da vida, e perceber que para além da visão de mundo regido por leis, normas, cultura, instituições, costumes, língua, há também uma dimensão subjetiva sobre nós mesmos que devemos dar atenção. Não nos ensinam no colégio, ou na faculdade, como sermos pessoas melhores; não nos ensinam sobre  nossos defeitos ou  qualidades, sobre ser equilibrado e nem como isso tem um impacto enorme na relação com o outro.

 

A dimensão da arte passou a me interessar muito. Primeiro pela literatura. Comecei a devorar os clássicos. Inesperadamente, esse desejo me inspirou após o curso de graduação. A minha experiência tardia e mais profunda com a literatura  foi uma lacuna considerável, fruto de  uma educação voltada mais para a instrumentalização, em parte por causa da minha origem familiar mais humilde, por outro devido a um certo desprezo social.

 

Confesso que quando comecei a devorar literatura pensava, primeiramente, em ser mais culto; mais conhecimento daria uma visão mais ampla da vida e um vocabulário mais enriquecedor. Um  rápido parêntese pra falar dessa questão no parágrafo abaixo.

 

Na obra "A Civilização do espetáculo", o escritor peruano, Mário Vargas Llosa, me fez pensar muito sobre a mudança social ocorrida, mais acentuadamente, a partir do século XVIII, que  proporcionou, sobretudo devido ao desmoronamento de uma ideia de  mundo mais hierárquica e, ao mesmo tempo, mais orgânica, o aparecimento do especialista, aquele que é um ser unidimensional, que vai longe no seu campo, mais inculto porque é incapaz de conectar seu conhecimento com outros, " o isolam numa especialidade que é apenas uma célula diminuta do vasto campo do saber". [3]

 

Para além da breve reflexão acima, me dei conta de que, além do conhecimento mais abrangente, a arte me tornou uma pessoa mais atenta, observadora no tocante a alma humana. A arte pode contribuir para ir além de uma visão muito objetiva, isolada e simplificadora do comportamento humano, com a capacidade de transcender.

 

Lembro que após graduar-me, desejava fazer algo que pudesse aperfeiçoar melhor a comunicação com as pessoas. Cheguei a fazer oratória, de curtíssimo prazo. Confesso que me ajudou bastante, porque queria trabalhar isso na minha profissão, de professor. Mas, a oratória te ensina mais a utilizar técnicas, incrivelmente elaboradas para a comunicação; não desenvolve a espontaneidade, mas sim, a expertise para usar a linguagem oral e corporal. Por isso,  sabia que algum dia iria fazer teatro.

 

A palavra teatro deriva do grego theatrón, que significa “lugar para contemplar”. Segundo a  Wikipédia,  "Theaomai (ou theatrón) não significa ver no sentido comum, mas, sim, ter uma experiência intensa, envolvente, meditativa, inquiridora, a fim de descobrir o significado mais profundo; uma cuidadosa e deliberada visão que interpreta seu objeto." [4] Portanto, o teatro é uma arte que visa transportar sentimentos mais profundos.

 

Depois de muito, mas muito tempo mesmo, resolvi levar a sério a promessa - fazer teatro - , e comecei a fazer um curso livre este ano. Eu estava apostando muito que o curso poderia dar uma dimensão da vida na qual pudesse conhecer, comunicar-me melhor, transcender algo que sempre foi um problema pra mim: ir além do “racionalismo virginiano”. Desejava que isso impactasse na minha vida pessoal e profissional. Sim, desejava trabalhar mais a  subjetividade, sensibilidade e aperfeiçoar meus afetos, deixando vazar toda a naturalidade que não experimentei na vida, mais por medo e receio do que por vontade.

 

No início, tive muita dificuldade de expressar espontaneidade. Achava que poderia dar mais, ser mais natural. Ou seja, me desamarrar do cálculo das ações, e deixar que as emoções me levassem. Desejava ser eu mesmo, e colocar essa potência particular em cada ato da minha experiência.

 

Em meio a alguns problemas que atravessei durante o curso, decerto pela minha mania de avaliar todas as ações de forma muito racional -  o que, no fim acaba se tornando até algo irracional, levando em conta a complexidade das pessoas, - me dei conta de que a arte, e, nesse caso, o teatro, não é prioritariamente para ser avaliado, mas vivido e experimentado com toda a sua sensibilidade. O preconceito e as amarras sociais devem ser minimizadas a favor de algo diferente: o dar-se para uma manifestação que é individual, mas ao mesmo tempo coletiva. Essa manifestação não é uma projeção para o futuro, para um projeto de vida distante, mas sim um encontro com o próprio eu, um eu que se projeta no próximo; uma consciência que não está centrada isoladamente, mas que está conectada. Compreender essa dimensão não é simples. Não é fácil materializar em palavras – como ouso fazer -  essa explicação de algo tão subjetivo, mas que não foge da materialidade.

 

Grupo Teatro para Vida. Diretora Xanda Fontes. Salvador, 02 de dezembro, 2017.

 

 

 

E a minha experiência em participar de uma peça pela primeira vez? Euforia! É o sentimento que tive. Pisar no palco com todos os meus companheiros; um público esperando você atuar, é uma sensação realmente nova. Não é como fazer uma palestra ou dar uma aula. É diferente. Existe uma energia envolta que é difícil explicar. Mas, a vontade de continuar ali no palco é muito verdadeira. Torcer para os colegas  para que tudo ocorresse bem, desejando que o conjunto fizesse com que o individual brilhasse. Torcer para que cada personalidade ali desse o melhor de si.

 

Ao fim e ao cabo, a minha vontade é de continuar e aprender mais. Significa uma doação maior, uma necessidade de aprofundar sobre a magia da arte, dimensão essa que damos pouca atenção na vida, sobretudo por causa do modus operandi em que a sociedade orienta seus membros. Somos ensinados a sermos engrenagens mecânicas que devem cumprir determinadas ações. A sociedade espera de você, não a busca pelo autoconhecimento, mas um certo comportamento dito normal, padronizado para aquele tipo específico de cultura. Como dirá Gofman:

 

Espera-se que cada participante suprima seus sentimentos cordiais imediatos, transmitindo uma visão da situação que julga ser ao menos temporariamente aceitável pelos outros. A conservação desta concordância superficial, desta aparência de consenso, é facilitada pelo fato de cada participante ocultar seus próprios desejos por trás de afirmações que apoiam valores aos quais todos os presentes se sentem obrigados a prestar falsa homenagem.  [5]

 

 

Por isso, indico que experimentem o teatro, e toda a sensação que ele produz. Não apenas para ter a vontade de atuar em um palco (o que não deixa de ser algo fabuloso), mas o que ela pode produzir como transformação pessoal, e como essa experiência tem um significado importante na vida. Não desprezemos as diversas facetas da existência, não nos prendamos pelo que é imediato, mas que ousamos ascender para uma visão mais inteira sobre a vida, sem reducionismos e sem preconceitos. 

 

Por hoje é só. Deixo abaixo a seguinte reflexão de Cleyde Yáconis, nome artístico de Cleyde Becker Iaconis, que foi uma renomada atriz brasileira:

 

 

"No teatro, busco tudo que possa me acrescentar como ser humano". 

 

 

 

Referências

 

[1] TOLSTÓI, Leon. O que é arte?: a polêmica visão do autor de Guerra e Paz. 2° ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016.

 [2] SILVA. Deonísio da. De onde vem as palavras: origens e curiosidades da língua portuguesa. 17° ed. Rio de Janeiro:  Lexikon, 2014.

[3] LLOSA, Mario Vargas. A civilização do espetáculo: uma radiografia do nosso tempo e da nossa cultura. Rio de Janeiro: Objetiva, p.64, 2013.

[4] https://pt.wikipedia.org/wiki/Teatro

[5] GOFFMAN, Erving. A representação do eu na vida cotidiana. 20° ed. Petrópolis, RJ: Vozes, p.21, 2014.

 

 

Imagem : http://4.bp.blogspot.com/-Gez1XEhjRQE/UiUOmAjNqeI/AAAAAAAAAGw/On4VlrWfG5k/s1600/mascaras-simbolo-teatro-1330008728691_956x500.jpg

 

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