UM NOVO RUMO NA TEORIA SOCIAL: Bruno Latour e a sociologia deleuziana

December 22, 2017

 

 

 

O objetivo desse ensaio é discutir um pouco sobre os novos rumos da teoria social contemporânea e suas implicações ao longo do tempo. O que mudou no repertório do cientista social? Qual a sua nova linguagem? Qual o seu novo corpo?

 

Durante várias gerações, vários séculos até aqui, um mesmo horizonte parecia predominar no campo filosófico e em suas ramificações nas ciências sociais. Essa abordagem, de fundo platônica, carregava um solo compartilhado de critérios: o dualismo era um deles. Rizoma, diferença e devir eram termos que até pouco tempo raramente tinham sido objetos de respeito, ou mesmo de tolerância, sempre subordinados a alguma instancia outra, algum suporte mais abstrato e conceitual, como a sociedade, por exemplo.

 

A meta, o proposito último de todo saber sociológico e filosófico, desde Descartes a Durkheim, nesse caso, era alçar sempre voos mais altos, saindo do simples, do imanente, e caminhando aos poucos rumo a atmosferas espirituais mais complexas, ou, como diria Hegel, chegando no conceito ao passar brevemente pela sensibilidade. A diferença, o devir e o próprio corpo eram tidos como meios de acesso a uma realidade estável, autônoma e nobre, conferindo constância e equilíbrio aos enunciados. Na teoria social mais clássica, no processo mesmo de produção do conhecimento, toda uma série de contingencias eram varridas para debaixo do tapete, tudo isso a fim de manter uma aparência confortável, evidente, ao mesmo tempo que distorcida, da própria realidade em seu devir.

 

No final do século XIX e durante o século XX, começa a se proliferar uma nova gramatica filosófica, não mais fundada no platonismo ou em seus derivados kantianos (fenomenologia, hermenêutica, pragmatismo) e hegelianos (marxismo, teoria crítica). Spinoza, Nietzsche, ou mesmo Gabriel Tarde, e tantos outros personagens ofuscados pelo brilho intenso da tradição dominante, ganham terreno e passam a transbordar suas teorias muito além das fronteiras de seus campos. Aos poucos um novo repertório se forma, ou melhor, uma nova atitude diante do real, tendo a imanência como seu mais elevado representante.

 

Como resultado dessa mudança, há uma valorização cada vez maior do transitório sobre o constante, do plural sobre o unitário, do descentramento sobre a centralidade, etc. O pesquisador perde sua vaidade epistemológica, não mais sendo uma espécie de guardião do conhecimento adequado, e adquire, por consequência, uma arbitrariedade lamentável para uns e comemorada por outros. De qualquer maneira, o campo intelectual muda suas configurações e põe em movimento um tipo de abordagem finalmente valorizada e capaz de divulgar seus conteúdos sem restrição ou constrangimento.

 

Quando um personagem como Gabriel Tarde, um sociólogo do século XIX, contemporâneo de Durkheim, procura introduzir no esquema conceitual da época um repertório muito semelhante ao que Latour conseguiu no século XX, se depara, contudo, com uma certa resistência, um tipo de impossibilidade epistemológica, digamos assim. Naquele período, não apenas a filosofia respirava um ar diferenciado, como o próprio pensamento social mantinha ainda um ritmo transcendentalista. Apesar da breve fama no inicio de sua carreira, qualquer investida que destoasse do esperado, fugisse da expectativa, como em Tarde, era um esforço inútil, vazio. Sem certas condições espirituais e materiais de existência, sem um certo alicerce de fundo, nenhuma forma de conhecimento nasce e se reproduz, nem mesmo enquanto potencialidade. 

 

O gênio balzaquiano, e sua fantasiosa criação ex nihilo, é deixado de lado, excluído de cena, ao reforçar a ideia de que mesmo um autor, longe de ser apenas uma célula autônoma pairando ao redor de um papel, tela ou partitura, nada mais é do que um instante dentro de um dinâmico plano de composição. A filosofia deleuziana e o próprio Bruno Latour, portanto, apareceram simplesmente na hora certa, num solo adequado de possibilidades. Com a perda de potência da filosofia kantiana na metade do século XX, e os descentramentos encaminhados desde então, além da chegada de temas planetários complexos, como o efeito estufa, o terrorismo e outros, a sociologia latouriana se depara com condições adequadas para firmar seu pacote interpretativo, sugerindo novas respostas para perguntas também inéditas, reconstruindo assim um instrumental sociológico já desgastado.

 

Nesse solo descentrado, rizomático, Latour põe os dois pés fora do circulo convencional, da ciência moderna, e olha para trás, para a própria tradição, com sua referencia hegeliana/kantiana de fundo, ao mesmo tempo em que descentra seus contornos, ressignificando o que já existia. Na verdade, acaba revendo não apenas certos critérios ou determinados conteúdos, mas uma forma de pensar e de organizar a própria linguagem. Isso significa que dicotomias clássicas como natureza/cultura, humano/animal, individuo/sociedade, são colocadas de lado em favor de um maneira de conduzir a pesquisa “sem mudanças de nível”, sem realidades transcendentes que se destacam dos encontros, ou estruturas transcendentais que garantem a identidade dos fenômenos. Essa postura, como é possível perceber, garante uma certa horizontalidade das relações, uma pesquisa imanente, ao caminhar rumo a uma nova ontologia, agora múltipla, repleta de modos de existência.

 

Ao contrário dos modelos anteriores, a sociologia de Bruno Latour, descendente direta do descentramento deleuziano, não substitui uma transcendentalidade por outra, ao trocar um eixo de significação por algum mais interessante. Sua investida inédita surge dessa ruptura brusca com o modelo kantiano, entrando num regime epistemológico diferenciado, ao caminhar direto rumo a uma multiplicidade ontológica. Nesse novo modelo descentrado radical, não existe nenhuma instancia, ou critério, que, de partida, determine a configuração da realidade. O rizoma (rede) é flexível o bastante para comportar varias modalidades de “ser”, múltiplas ontologias, sendo desde um mundo sensível, em que o corpo é um eixo de importância, até fluxos de pura materialidade, passando por universos inorgânicos, ou mesmo por utensílios domésticos em um canto de uma simples cozinha. Isso implica, em outras palavras, uma abertura para vários horizontes de sentido, vários modos de existência, ultrapassando assim a mania dos transcendentais em reduzir a dinamicidade dos encontros a um conjunto de critérios conformadores, a uma única referencia de significação, como a “consciência” em Husserl, o “corpo” em Merleau-Ponty, o “signo” em Wittgenstein, ou mesmo, como é possível ver na teoria social, a “classe” em Marx, o “individuo” em Weber, e o “fato social” em Durkheim.

 

 

Referência da imagem:

 

http://roquegoncalves.com.br/como-esta-sua-rede-de-contatos/

 

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