IMPLODINDO A LINGUAGEM: Jean Genet e os limites da narrativa

December 28, 2017

 

 

 

As narrativas em novelas ou certos filmes são exaustivamente encadeadas, tornando cada gesto, cada enquadramento, um instante dentro de um todo significativo. O amarrar de um sapato no meio de uma calçada é um pretexto para um encontro inesquecível com determinado personagem; o comentário feito na mesa do jantar torna-se uma brecha para o desvelamento de um segredo até então escondido; um simples passeio no parque acaba reforçando a ideia sugerida na cena anterior, etc. Jean Genet, ao contrário, propõe, ao lado de personagens como Balzac e Beckett, aquilo que Deleuze chamou de “tempo morto”, ou seja, acontecimentos sem significado, rotineiros, aquela parcela mais predominante da vida cotidiana, embora mais rustica, feia e insipida. O objetivo desse ensaio é justamente discutir um pouco os contornos dessa figura chamada Jean Genet, esse grande romancista, essa figura radical não apenas no terreno da arte, mas da linguagem como um todo.

 

Percorrendo os escritos de Jean Genet, não apenas Querrele, mas o diário de um bandido, e o próprio livro de Sartre, o leitor tem a impressão, ao menos num nível mais intuitivo, de que não existe um pacote moral entregue de imediato ao leitor, como uma espécie de a priori que conformaria a experiência, mas sim um conjunto difuso e complexo de encontros. Não existe aqui o recurso á algum imperativo transcendental, ou mesmo transcendente, nada que atravesse a incoerência mundana e do próprio corpo, ao apontar os rumos de alguma saída confortável. Em outras palavras, o encadeamento não é predefinido, nem mesmo bem legitimado; não segue um percurso já dado, apenas aguardando, como diria Kant, um “sujeito maior de idade”; ao contrário, essa trajetória é montada e refeita no ato mesmo da leitura. Já o cenário em torno da narrativa é bem ambiguo, complexo, criando uma atmosfera  integrada com a performance dos personagens, reforçando essa característica indefinida da obra, essa fragmentação de fronteiras. Sem esse a priori enquadrando os movimentos, definindo seu sentido, sua direção, resta ao outro a responsabilidade de preencher as lacunas.

 

Em Querelle, a própria aposta em uma totalidade de sentido já é, de partida, um problema na investigação, seja esse “todo” descritivo ou narrativo. A subordinação dos elementos literários de uma obra, ainda que a partir de elementos externos, empíricos, continua criando um certo obstáculo estético, ao menos para Genet. Talvez fosse preciso criar uma outra categoria, não tanto uma síntese das duas anteriores, mas um percurso novo, um mais adequado à singularidade desse escritor. Ao invés do narrar e do descrever, por que não o instituir? Nesse caso, o critério não é mais a existência de um eixo estruturante que coordenaria a leitura ou a escrita, dando contorno, sentido e coerência aos seus repertórios; o critério, ao contrário, seria um pouco mais dinâmico, mais aberto a possibilidades, o que não significa um campo confuso.

 

A não existência de fronteiras, de uma interpretação definitiva, não exclui, por outro lado, um certo enquadramento provisório, pragmático. A radicalidade, nesse caso, é direcionada ao aspecto evidente, metafisico, e por isso rigido da narrativa tradicional. Desde que não haja ponto de chegada no processo interpretativo, e o escritor e o leitor estejam dispostos a sempre revisar o que foi feito, não há, aqui, nenhum problema. Ao contrário do que pensava Adorno, talvez a totalidade não seja um obstáculo, mas o seu enrijecimento. É impossível a vida social, ou mesmo um simples contato com uma obra qualquer, sem o recurso de um conceito, um eixo de referência ou uma representação, o que não significa uma forma sólido, indiscutível e metafísica de conduzir as coisas. O todo, ao ser aberto, espiral, não contradiz a dinâmica e a intensidade do escritor, ao invés disso, reforça o que ele é.

 

Dentre vários elementos que poderiam ser enunciados, o tema do “mal” é, sem duvida, um dos que mais chamam atenção em Querelle, sendo até o seu aspecto mais importante, ao menos para autores como Sartre e Bataille. Essa característica acaba sendo tão intensa que ultrapassa as fronteiras de construção dos próprios personagens, fazendo com que seja um evento coletivo, banal e penetrante, algo dissolvido nas próprias descrições do cenário e do clima cênico. Entender Querelle como uma metáfora é uma forma, sem dúvida bastante grosseira e limitada, de tratar o tema do “mal” em um aspecto mais palpável, mais objetificado, o que não significa que a sua presença se resuma a um rótulo fixo.

 

Como toda metáfora, a obra aponta para além de si mesmo, indicando uma realidade mais genérica e compartilhada. No filme (1982), adaptado por Werner, Querelle desperta tanto a atenção dos outros personagens, assim como seus estados emocionais, o que acaba criando um elo indireto entre todos, como se houvesse um tipo particular de comunhão momentânea, uma convergência coletiva rumo a um mesmo estado sensível, quase como o estado de ánimo em Kant. Ele parece estar em toda parte, como uma substância presente em cada fresta dos encontros e da própria linguagem; ele é aquela centelha que ameaça e provoca tudo ao redor

 

O mal, enquanto instância ética importante, é definido negativamente, sendo algo mais do que um mero discurso, ou uma externalidade. Ele é um resultado direto da própria trajetória do personagem, de sua própria linguagem, do simples encadear de signos e de sua circunscrição no mundo. Na medida em que ocorre essa circunscriação, e a realidade passa a ser definida, é criado, ao redor, uma espécie de sombra, um tipo de excesso. O mal, não sendo nada de positivo, é uma consequência direta da própria forma discursiva, do próprio movimento de costurar a realidade e conferir sentido ao seu contorno. Ou seja, quanto mais firme é a fronteira ética, mais esse mal se expande, causando um impacto crescente, quase como um liquido que transborda. Ao ser definido em termos de negação, o mal passa a ser um efeito, uma resultante de encontros, não sendo, portanto, um predicado autônomo, isolado.

 

Mesmo o narrador em Querelle traz em si essa figura do mal, já que não é onisciente. Assim como em Kafka, o que é narrado por Genet possui já, logo de inicio, tanta brecha, tanta falha e omissão, fazendo com que narrador e personagem acabem convergindo para um mesmo ponto vazio, em que o desconhecimento é uma constante. Ao invés de costurar os eventos do enredo, dentro de alguma totalidade significativa, inclusive antecipando algum desfecho, o narrador se perde no turbilhão de seus próprios comentários, não menos intensos do que aqueles de seus personagens. No filme, embora o narrador esteja disperso entre várias figuras que reivindicam o mesmo papel, ele continua cercado por um nevoa compreensiva, apenas descrevendo, no sentido lukacsiano, o que existe ao redor, sem qualquer surpresa ou alguma outra espécie de ruptura.

 

 

 

Referência da imagem:

 

https://pixabay.com/pt/quadrinhos-explos%C3%A3o-2340467/

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