Drummond, Itabira e o mundo

January 17, 2018

O professor, escritor e músico José Miguel Wisnik faz uma instigante associação da obra do poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade com a palavra “mundo”. No fim de 2016, ele tratou desse assunto na palestra "Poetas que pensaram o mundo: Drummond e a maquinação do mundo", dentro do Ciclo Mutações, no Salão Nobre da Reitoria da Universidade Federal da Bahia (Ufba).

 

Wisnik diz ter mudado a perspectiva sobre os poemas de Drummond a partir da visita que realizou à cidade natal do poeta, Itabira, em 2014. Segundo ele, o poeta mineiro é um daqueles escritores que conseguem transformar o seu lugar de origem em lugar de todo mundo. Drummond promove o mergulho do leitor em Itabira a partir da experiência pessoal. “Quem já não ouviu falar ou tem uma imagem de Itabira?”, questiona Wisnik.

 

O professor relaciona Drummond e a capacidade de produzir associações imagéticas a Walter Benjamin, um dos nomes da Escola de Frankfurt, para quem a memória involuntária seria a fonte da poesia lírica. Vincula-se aqui a memória involuntária às experiências e lembranças pessoais. Itabira e seus lugares, como o Pico do Cauê e a Igreja do Rosário, perpassam as poesias de Drummond.

 

Wisnik lembra, porém, que o pico e a igreja já não existem. A exploração de ferro transformou o Pico do Cauê em um buraco. Já a igreja desabou em razão das bombas de dinamite. Como em outras cidades mineiras, a mineração provocou um campo de devastação em Itabira.

 

Para Wisnik, as poesias de Drummond constatam a exploração capitalista a qualquer custo e a “cegueira” do homem para as consequências dessa exploração. Ele ainda comenta que a Vale do Rio Doce foi criada em 1942, exatamente para a exploração das minas da região de Itabira. E de lá, saía o ferro que abastecia os países envolvidos na Segunda Guerra Mundial – fato que reforça a conexão Itabira-mundo presente na obra de Drummond.

 

Na palestra, Wisnik deu destaque aos poemas "Itabira" (do livro Alguma Poesia), "A montanha pulverizada" (publicado na obra Menino Antigo), "A máquina do mundo” (de Claro enigma) e “Elegia 1938” (de Sentimento do mundo). Os quatro apresentam o espanto e a impotência do poeta diante da devastação provocada pelo extrativismo mineral. Segue abaixo trecho de “A montanha pulverizada”:

 

(...) Esta manhã acordo e não a encontro,
britada em bilhões de lascas,
deslizando em correia transportadora
entupindo 150 vagões,
no trem-monstro de 5 locomotivas
– trem maior do mundo, tomem nota –
foge minha serra vai,
deixando no meu corpo a paisagem
mísero pó de ferro, e este não passa.

 

Referência:
DRUMMOND DE ANDRADE, Carlos. Antologia poética. Rio de Janeiro: Record, 2000.

Imagem: 
http://www.carlosdrummond.com.br/conteudos/visualizar/Na-caca-ao-urso

 

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