Problemas e generalizações da obra A Elite do Atraso: da escravidão à Lava Jato

January 22, 2018

 

 

 

 

O ultimo livro do professor da USP, Jessé Souza, a Elite do Atraso: da escravidão à Lava Jato, retoma algumas teses de obras anteriores. O objetivo desse breve artigo é problematizar algumas de suas ideias, com as generalizações que o autor deixa escapar,  complicadas para a teoria social. Não iremos discorrer sobre toda a obra, o que demandaria um espaço maior. Mas espero que suscite boas reflexões.

 

A tese do autor é que a abissal desigualdade social no Brasil tem raízes, essencialmente, na escravidão. Esta aparece como uma espécie de instituição total que a tudo engloba. Portanto, o problema do país não é o patrimonialismo, o jeitinho brasileiro à moda de Sergio Buarque de Holanda, nem um suposto populismo de esquerda e muito menos a corrupção no Estado. O grande problema é a exclusão social pelo viés da classe. E a classe que está no topo - os capitalistas - controlam o mercado, juntamente com a classe média brasileira - capataz dos ricos - para perpetuarem um pacto antipopular que impediria uma verdadeira Democracia inclusiva.

 

O autor faz a crítica a uma visão de mundo enviesada, que ele chama de culturalismo conservador racista (no sentimento de segregação) que impõe uma lógica naturalista de explicação do mundo através de uma hierarquia - com base em ideias de inferioridade e superioridade - para aqueles que estão  no topo e os que estão abaixo na pirâmide social. Essa visão controla todas as relações sociais, entre continentes, países, raças e classes.

 

Com uma roupagem moderna, a escravidão do passado brasileiro se mantém, atualmente. O grande fazendeiro é comparado aos grandes oligarcas e rentistas atuais; o capataz é a classe média, e, por fim, os escravos e os excluídos  inorgânicos estão na ralé e na classe trabalhadora. Não precisamos ser expert para identificar  que encarar a escravidão brasileira, e sua lógica classista, como a grande causa de todas as mazelas atuais , é um reducionismo conceitual, pois deixa de enxergar outros elementos para explicar a imensa desigualdade social no Brasil.

 

Por sua vez, Jessé coloca que as classes médias e as baixas são manipuladas pelos super ricos, industriais, grandes comerciantes e os rentistas, que são os grandes ganhadores no Brasil. Nesse cenário, indica que a Democracia mais abrangente, a social, não vingou em terras tupiniquins por causa do desprezo da classe média brasileira pelos pobres, e pela ambição por manter seus status quo, impedindo que sua posição social seja compartilhada pelas demais. Juntando tudo isso, atribui o nosso atraso ao puro egoísmo e ganância das classes dirigentes. Na sua acepção, a classe média tem horror e certa antipatia aos que estão abaixo, isso porque a pré-reflexividade de nossa sociedade, o nosso processo civilizatório, não internalizou a empatia, característica das sociedades modernas europeias. A empatia seria o elemento crucial para a construção de uma Democracia.

 

A escravidão deixou suas marcas, e, após a Abolição da Escravatura, nada foi feito para que os excluídos fossem integrados no novo cenário competitivo, com um mercado  capitalista de trabalho assalariado. Por falta de preparo moral, profissional, político e social os ex-escravos e inorgânicos, usando a expressão de Caio Prado, não tiveram assistência do Estado, e foram jogados a mercê da sorte. 

 

 O sociólogo aponta que boa parte da Academia e a mídia são instrumentalizadas,  imbecilizadas,  para defender os interesses da grande elite - principalmente, bancos e sistemas financeiros - e para propagar simbolicamente uma visão de mundo conforme os seus interesses, com a finalidade de se manterem no topo. 

 

Agora passaremos para algumas problematizações. Irei me concentrar em três planos: a elite super rica; a classe média e, por fim, a classe trabalhadora e a ralé como estratificações inferiores. Antes, faremos um breve comentário sobre a vida em sociedade na visão do autor.

 

“A questão do poder é a questão central de toda sociedade. A razão é simples. Ela que nos irá dizer quem manda e quem obdece, quem fica com os privilegios e quem é abandonado e excluído”. [1] Nessa visão marxista-bourdieuseana, a vida em sociedade é sempre uma luta por recursos escassos, e nessa luta os indivíduos estão inseridos em classes, presos por sua própria condição de nascimento. A categoria poder toma sua versão quase que ontológica, pois não haveria como fugir da luta por posições privilegiadas na vida social. 

 

 A luta pelo poder seria aquela batalha  histórica no qual todos nós estamos atados, e da qual não se vislumbraria nenhuma outra visão fundante. É preciso reconhecer que esse olhar totalizante nos guia a uma visão de mundo no qual as relações gerais tendem a englobar a individualidade, o mistério, a própria existencialidade, a liberdade individual, as angústias existenciais da vida, como questões relacionadas ao Ser, ao tempo,  a morte, e qualquer discussão que passe por algum tipo de transcendência. São esses pontos que deixamos para a reflexão do leitor, sem maiores aprofundamentos nesse momento.

 

Disto isto, iremos mergulhar diretamente sobre as classes. Comecemos com a classe capitalista, ou os endinheirados (pejorativamente escrito). Está implícito na análise do autor, um naturalismo forçado e combativo que ele chama de narcisismo infantil dos ricos, outras vezes uma irrefreada ganância por uma acumulação monetária infinita.  Há uma naturalização dos capitalistas como se genericamente todos tivessem uma personalidade egocêntrica, uma inclinação congênita para si mesmo. O grande perigo é acreditar que a fase de narcisimo infantil - uma fase comum nas crianças - seja um marca dos adultos de uma determinada classe social, só porque possuem privilégios econômicos superiores. Nascer em uma condição social elevada já é uma condenação a priori da própria situação! E está aí um problema sério!

 

Como assim não há atitudes altruístas entre ricos e bilionários? Há vários exemplos no mundo que mostram o contrário, que a generosidade, a caridade, não está vinculada a situação de classe, mas à  personalidade. Não é que não exista ganância entre as elites, mas esse adjetivo não está ancorado em posições de renda.

 

Sobre a classe média, especificamente a brasileira, o autor, apesar de ter classificado as frações de classe, não esconde sua generalização, mais uma vez:

 

“O moralismo para inglês ver e o ódio secular às classes parece-me a mais brasileira de nossas singularidades sociais [...] Ainda que a classe média seja muito heterogênea, toda ela, sem exceção, inclusive o autor que aqui escreve, é portadora em maior ou menor grau desse tipo de preconceito. De alguma maneira “nascemos” com ele e o introjetamos e o incorporamos de modo seja inconsciente e pré-reflexivo, seja de modo e refletido como consciente como ódio aberto”. [2].

 

Ainda,

 

"Toda classe média desenvolve uma mistura de medo e de raiva em relação aos pobres em geral”.[3]  (p.172).

 

Parece claro, aqui, uma ideia de idiotização da classe média,  manipulada pela classe dos endinheirados.  Continua: “ na verdade, afora as épocas históricas que lograram organizar nas classes populares ou as camadas médias por algum período breve de tempo, a única classe consciente de seus interesses entre nós foi e é ainda a ínfima elite do dinheiro.” [4]  

 

 Ao falar das classes menos privilegiadas, principalmente a ralé, os mais pobres, o autor não escapa das generalizações, pois passa a ideia de que toda a necessidade é fruto do interesse material. É importante ressaltar que o desejo, como pulsão aquisitiva humana (afinal somos seres desejantes) de querer algo, não se esgota na aquisição de bens. Na obra,  Luta por  Reconhecimento, de Axel Honneth, há uma lição importante: a luta social possui também uma dinâmica por reconhecimento intersubjetivo da individualidade (negro, mulher, gay, indígena, ateu, idoso).  E isso não pode ser reduzido a bandeiras materialistas; não se restringe a uma questão de classe, no sentido econômico. É preciso reconhecer que as três dimensões da dinâmica social do reconhecimento – afetiva (amor), direito e solidariedade –  de Honneth integram um conjunto maior nas relações humanas.

 

Há, ainda, uma generalização perigosa: unificar toda a classe da ralé, deixando de lado as complexidades que existem, por exemplo, de quem mora na periferia. Existem muito mais questões para além da baixa aquisição econômica: questões indentitárias,  simbólicas, redes de solidariedade, acolhimento, comunitarismo religioso, conexões inter-classes que operam nesses lugares menos privilegiados. É preciso reconhecer que há vários projetos de vida envolvidos, que passam ao largo da vida competitiva na luta por recursos materiais, que não se identificam necessariamente com o individualismo consumidor. Claro que isso não diminui a importância do desejo de ascensão social, aliás é um elemento importante da Democracia social. Mas é necessário não cair em armadilhas generalizantes.

 

Para finalizar, é preciso endossar que o tema da desigualdade, trazida pelo autor, é um calo no pé do Brasil.  Fazendo uma rápida pesquisa, com dados publicados em 2017, do Relatório de Desenvolvimento Humano (RDH), elaborado pelas Nações Unidas, mostrou que o país está entre as 10 Nações com maiores desigualdades de renda do mundo, estando, ainda, em quarto lugar, na América Latina.  Não dá para ignorar o fato! O que é interessante, ainda, é que há países mais pobres com índices de educação, saúde e expectativa de vida mais elevados que o Brasil, que lembremos, tem a 8° maior economia do mundo

 

Diante dos dados, estamos buscando ainda compreender o que trava o desenvolvimento socioeconômico do país.

 

Aos leitores que não puderam ler a obra, recomendo, sim! Sem dúvida, que as ideias e os questionamentos aqui reunidos, brevemente, suscitarão  concordâncias ou discordâncias absolutamente normais, o que faz parte de um debate livre e rico em conflitos. Até a próxima!  

 

 

Referência

 

[1] Souza, Jessé. A elite do atraso: da escravidão à Lava Jato. Rio de Janeiro: Leya, 2017, p. 11

 

[2] e [3] Souza, Jessé. A elite do atraso: da escravidão à Lava Jato. Rio de Janeiro: Leya, 2017, p. 171 e 172.

 

[4] Souza, Jessé. A elite do atraso: da escravidão à Lava Jato. Rio de Janeiro: Leya, 2017, p. 139.

 

 

Fonte da imagem: 

 

http://midianinja.org/ivanabentes/a-elite-do-atraso-para-jesse-souza-a-classe-politica-e-empregada-das-empresas/

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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