• Thiago Araujo Pinho

A SOCIOLOGIA RADICAL DE Mr. BEAN: O silêncio revolucionário e as novas formas de sentido


Em sociologia, a palavra não é apenas um meio de expressão, alguma ponte qualquer, ou mesmo algo de estético. Ela é também a nossa virtude, nosso instrumento, muitas vezes até uma arma. É através dela que o caos vira cosmos, e a complexidade é costurada, fazendo de tudo um grande retrato significativo, onde cada elemento tem seu lugar, seu propósito. Ser crítico nada mais é do que encaixar o mundo inteiro na linguagem, comprimindo o máximo seus contornos até caber nas paredes do signo. O excesso nunca é bem vindo, já que bagunça fronteiras e descontrói toda a conveniencia, além de espalhar gotas de dúvida por todos os cantos.


Por outro lado, existe uma outra forma de entender essa história, um outro modo de conduzir a própria criticidade. Em uma democracia liberal onde todos falam o tempo todo, onde todos tem uma opinião pronta e disponível, assim como centenas de interpretações de bolso, o silencio pode ser a grande chave, até mesmo uma arma revolucionária, inédita. Claro que esse silencio não tem nada de resignado, mas carrega uma abordagem nova, além de um horizonte político a ser construído. Sobre esse tipo curioso de silencio, Rowan Atkinson (o Mr. Bean) talvez seja o seu mais imediato representante, além de um possível ponto de partida rumo a um novo saber sociológico.


Rowan Atkinson, comediante britânico, é uma figura no mínimo incomum, uma raridade no campo da comedia. Apesar de ter uma eloquência sem comparação, um potencial retorico muito raro, prefere a comedia do silencio, do detalhe, da sutileza, assim como Chaplin preferiu, ao menos no seu inicio de carreira, no começo do século passado. Algo parece impactar mais no silêncio, principalmente quando esse silencio é acompanhado por um certo toque de ingenuidade, as vezes até de ignorância. O corpo, oscilante, acompanha o ritmo dos acontecimentos, seguindo um fluxo leve, modesto.


Ao contrário do Stand-Up, em que o menor traço de humor é planejado, assim como as risadas são antecipadas, inclusive em detalhes, a comédia do silencio, ao contrário, é espontânea, inesperada, já que conta apenas com o corpo e sua combinação única de milhares de músculos articulados, gerando assim uma infinita margem de possibilidades. Ao invés de um plano, um projeto, existe muito mais o improviso, um toque intuitivo, a certeza de que o espectador pode ser afetado de outras formas muito além do signo, muito além da representação. Em um terreno em que o Stand-Up é uma regra, como nos “The late shows”, o silencio de Atkinson acaba sendo muito mais impactante, muito mais revolucionário.


Apesar da genialidade incomparável de Chaplin, em seu filme luzes da cidade (1931), o seu silencio é muito mais um detalhe casual, provisório, resultado de uma certa limitação tecnológica, incapaz de registrar sons. Em Atkinson, ao contrário, o silencio é uma escolha, é algo afirmado a cada momento, a cada encontro. A importância do silencio, principalmente em cenários cheios de conversa, barulhos de carro, discussões, etc, marca um poderoso diferencial, um traço marcante, ao menos enquanto contraste. O fundo barulhento, ao invés de desviar a atenção do espectador, realça mais e mais o silencio em primeiro plano, garantindo evidencia ao que acontece. Atkinson se destaca no meio dos sons, no meio do barulho circular e sem proposito da vida moderna, fazendo um tipo de comedia rara e muito impactante. O Stand-Up, especialmente nos “Talk Shows”, nada mais é do que uma combinação matemática de fatores: “timing” + “punchline” + “closure”. Ao seguir essa receita, uma infinidade de temas podem ser articulados, fazendo do Stand-Up apenas um simples exercício de técnica, podendo ser realizado basicamente por qualquer um, sem muito segredo ou critério. Já a “comédia do silêncio”, de figuras com Atkinson e Chaplin, ao contrário, não respondem a uma ordem matemática, a uma fórmula, mas a um movimento espontâneo, suave.


A sociologia, presa em uma atmosfera liberal, lembra bastante os cenários na série Mr. Bean (1995), cheios de barulho, pessoas falando ao mesmo tempo, ninguém ouvindo ninguém. De repente, no canto esquerdo da cena uma figura estranha caminha em silêncio, senta no banco, e começa sua refeição. Simples, não é? O barulho de fundo apenas realça a sutileza do seu gesto, dando destaque até as mínimas contrações dos músculos na sua face, realçando cada ruga. Nós, sociologos, vivemos em um grande episodio de Mr. Bean, mas sem o seu personagem principal, apenas o barulho sobreposto em barulho, apenas falas cruzadas e empilhadas sem proposito, sem destino. Esperamos talvez que, algum dia, uma figura estranha também apareça no primeiro plano e, com seu silencio, conquiste a atenção de todos.


Se a fala era uma virtude dentro da sociologia clássica, agora a opção talvez seja a humildade, nada menos do que a escuta cuidadosa, além da sutileza de sentido. O barulho é inútil, assim como as interpretações descontroladas, o desespero em encaixar tudo dentro do signo, não importa o que aconteça. Sem dúvida, novas opções devem aparecer no horizonte, mas não sem antes experimentar algumas gotas da comedia do silencio, ao permitir um contato sem pretensões, a não ser um corpo disponível e aberto a possibilidades.


Em seu livro “A queda”, Camus oferece ao leitor o seu personagem principal, Jean Baptiste Clemence, uma figura curiosa, muito curiosa. Seu único papel na trama é falar, articulando monólogos sem fim, e até sem proposito, numa circularidade muitas vezes irritante. O silêncio é o seu inimigo, já que pode ser mortal, reflexivo, e por isso as palavras não podem deixar de sair, como numa cachoeira infinita ou num trem desgovernado.


Em Shakespeare existiam, sem dúvida, os chamados solilóquios, conversas internas, profundas, e reveladoras do destino da trama, como em Hamlet em seu Ato 3 Cena 1, o tão famoso “ser ou não ser”. O problema é que um solilóquio não é um monologo, não é um esforço desesperado para preencher alguma coisa, alguma interpretação, alguma lacuna. Infelizmente não vivemos em uma universidade de solilóquios, mas de monólogos, onde cada um tem o seu e isso que importa. Nessa atmosfera liberal, barulhenta, o silencio de Mr. Bean pode comunicar alguma coisa, pode acabar contribuindo para a própria reconstrução da sociologia.


Referência da Imagem:


https://7info.ru/world/world-culture/mister_bin_stanet_otcom_v_62_goda/

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