E SE A RUA FOSSE A SUA CASA? E SE O PAPELÃO FOSSE O SEU COLCHÃO? O QUE VOCÊ FARIA?

 

Quem nunca foi abordado por um pedinte solicitando ajuda, um cobertor, um “trocado” para comer? Quantas vezes ao dia somos atravessados por essa realidade inaudível, indolor, cromática e imperceptível à consciência coletiva fragmentada, distorcida de si mesma e adoecida?

 

Não precisamos fazer muito esforço mnêmico para acessarmos memórias de um morador de rua, mendigo, mendicante, pedinte, indigente, esmoleiro, esmoler, sem-teto ou sem abrigo pedindo ajuda. Embora a demência social seja um mal a consciência simbólica do coletivo, a Existência Suprema nos coloca todos os dias cara-a-cara com a realidade dos que vivem em extrema carência material, não conseguindo as condições mínimas de sobrevivência e salubridade com os meios próprios.

 

A população de rua apresenta números alarmantes em todo país, desde cidades grandes a cidades pequenas, por todo lado encontramos pessoas em extrema vulnerabilidade social, vivendo em situações precárias de sobrevivência. Muitos são os fatores que levam as pessoas a morarem nas ruas: uso abusivo de drogas, alcoolismo, baixa autoestima, desemprego, vínculos familiares fragilizados ou rompidos, violência, problemas mentais, entre outros. Mais importante do que buscar as causas desse fenômeno, é compreender a roupagem do imaginário social sobre ele.

 

Diante dessa situação, muitos fecham os olhos e negam a existência do coletivo a sua volta. Negar, portanto, não resolve o problema, uma vez que somos sujeitos coparticipantes de tudo que nos acontece em sociedade, a final, ela é a casa de todos.

 

O processo de construção da realidade social perpassa por simbolismos culturais e sociais, seja de ordem pública ou privada, e atuam como reforçadores simbólicos que atravessam e constituem os sujeitos. Nesse sentido, a roupagem do imaginário social sobre a situação do dos moradores de rua representa um dos elementos constitutivos para a compreensão desse fenômeno.

 

Representações coletivas e representações individuais desse fenômeno atravessam diferentes áreas de conhecimento e conduzem a diferentes reflexões. Dentro das Psicologias, a Psicologia Social Sociológica contribui de maneira significativa para tal compreensão. A distinção básica entre a forma psicológica e a forma sociológica da psicologia social se dá em função da ênfase que outorgam ao indivíduo ou ao contexto social a explicação das condutas sociais.

 

A psicologia social psicológica se desenvolveu em berço americano, embora tenha nascido na Europa. A psicologia social sociológica é representativa do continente europeu. Esta, enfatiza que fenômenos coletivos não podem ser reduzidos a fenômenos individuais, contrário a perspectiva americana que enfatiza o indivíduo e acredita que tudo pode ser reduzido a ele. Os psicólogos sociais psicológicos tendem a enfatizar a autonomia do indivíduo, vista por alguns teóricos como “uma concepção supervalorizada do homem”. Já os psicólogos sociais sociológicos tendem a corrigir a excessiva centralização no indivíduo e a individualização da psicologia social nos Estados Unidos propondo, como modelo, o estudo das representações sociais do indivíduo.

 

A dicotomia público-privado, coletivo-individual, são instâncias simbólicas integrativas do sujeito. Não há como separá-las, muito embora muitas correntes filosóficas e científicas o façam. Parto do pressuposto de que o problema com os moradores de rua é reflexo de um coletivo-individual adoecido e fragmentado.

 

Enquanto indivíduos, somos responsáveis por nossas ações e escolhas conscientes. Entretanto, e quando as escolhas não são conscientes? E quando o individual é invadido pelo coletivo coercitivo, violento, algoz, mobilizador de angústia, traumático e homicida?

 

A individualização do coletivo, reduzindo os processos de subjetivação ao indivíduo apenas, nada mais é do que um reflexo egodistônico de uma sociedade à margem da loucura. Pensar que o problema dos moradores de rua é consequência apenas de suas escolhas pessoais “conscientes”, é o mesmo que reduzir as águas de Narciso ao rio, esquecendo-se que o mar também é espelho.

 

Referências da Imagem:

 

http://lounge.obviousmag.org/pilulas_da_literatura/2015/06/atualidade-de-um-sabio-as-avessas-o-narrador-em-o-mendigo-que-sabia-de-cor-os-adagios-de-erasmo-de-r.html

 

 

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