Um apelo ao bom senso

March 21, 2018

 Fonte: Revista Donna

 

Antes de mais nada, deixo aqui meu pesar pelo ocorrido às famílias de Marielle Franco e Anderson Gomes, mortos cruelmente na semana passada no Rio de Janeiro. Embora tenha relutado em escrever sobre mais esse brutal crime no Rio, deixar de manifestar minha opinião é condescender com o que acredito ser a exploração irresponsável da execução da vereadora e seu motorista, além da profanação de sua memória e pelos seus feitos.

 

Creio que é possível discutir sob diversos aspectos a fatídica morte da vereadora do PSOL Marielle Franco e do seu motorista. Mas tenho certeza de que não se pode continuar a utilizar esse crime bárbaro como motor de uma disputa axiológica, seja nas ruas, nas redes sociais e nos meios de comunicação, alguns dos quais ainda travam uma luta encarniçada contra o presidente Michel Temer, desde a tentativa malfadada de apeá-lo do poder orquestrada pela Procuradoria Geral da República.

 

O que ocorreu na quarta-feira, na Rua Joaquim Palhares, Região Central do Rio de Janeiro, se tornou munição de basicamente dois tipos de disputa: a primeira envolve os partidários e adversários da intervenção federal (por favor, o termo correto é intervenção federal, não militar) no Rio. Já a segunda envolve os que procuram justificativas exógenas ao fato objetivo do assassinato da vereadora, ou seja, buscando “causas profundas”. Em comum, quase todos apelando a teorias da conspiração para explicar algo que sequer terminou de ser apurado. Com efeito, cabe salientar que a separação feita por mim é apenas com fins metodológicos, pois fatalmente esses campos se encontram interligados.

 

No primeiro caso, que gravita em torno da intervenção federal, existem basicamente suas teses: ou o crime ocorreu porque a iniciativa do governo Temer – e o alvo não poderia ser outro – é um erro e a morte da vereadora é só a prova cabal de que a ação federal só piora a situação, ou então a audácia de se assassinar uma política só mostra a necessidade de uma reorganização do sistema de Segurança Pública carioca. A meu ver, a jogada do governo Temer terá efeitos incertos, porque além de restringir a intervenção apenas aos órgãos de segurança – como se ninguém soubesse das ramificações perniciosas que o crime organizado tem no aparato estatal do Rio –, tem toda pinta de insistir em ações sem controle social e mantendo as fracassadas UPPs¹, repetindo parte do repertório de erros que deixam o Rio nesse estado de coisas. Com efeito, grupos antagônicos ao governo (principalmente grupos de esquerda e alguns meios de comunicação) usam a morte de Marielle Franco como uma prova cabal da inépcia da intervenção.

 

Já os que defendem a intervenção na segurança, chegam a afirmar que a morte de Marielle Franco teve o intuito de acabar com a ação do governo federal, como se causa e efeito já estivessem dados a priori, esquecendo-se da própria atuação da vereadora como ardorosa combatente de crimes atribuídos a policiais. No fim das contas, acham que uma ação que manteve a estrutura política carioca intacta tem alguma chance de ser bem-sucedida. Mas provavelmente será: faço ideia de quem e como serão os presos e os mortos nas operações de combate ao crime.

 

Ao que parece, os dois grupos se comportam como o próprio Hamlet de Shakespeare: tendo recebido a “verdade” de alguma entidade de outro plano, de forma canalha lutam pelo espólio dessa tragédia, munição para suas disputas políticas que já duram mais de um ano, ainda em torno da ferida mal sarada do impeachment. Chega a ser repulsivo que alguém vá a uma manifestação pela morte de Marielle Franco e Anderson Gomes e ainda tenha coragem de gritar “Fora Temer”. Será que nem mesmo a dor das famílias é empecilho para a militância política?

 

Há ainda os que queiram justificar o duplo assassinato por características sociais: ou por questões de raça, classe, gênero e visão de mundo, ou pelas – supostas – ligações de Franco com criminosos. Se é verdadeiro que Marielle Franco foi covardemente assassinada por ser mulher, negra e socialista, então avisem ao deputado estadual Marcelo Freixo que ele pode dispensar a proteção policial que recebeu por causa de sua notável atuação no combate às milícias. O que dizer então da juíza Patrícia Acioli, morta em 2011? Ela foi literalmente fuzilada porque era mulher, ou porque tinha uma atuação implacável contra políticos e policiais corruptos?

 

Sobre esse aspecto, não se trata de querer menosprezar a luta de questões identitárias, pelo contrário. Se me comovo e me revolto pela morte de Marielle Franco e Anderson Gomes, tal como os demais assassinados no Rio (divulgados ou não), é porque me solidarizo com a dor das famílias, porque sei como é ter um ente querido ceifado pela violência. Mas ainda que não tivesse vivido o que vivem as famílias Franco e Gomes, bastaria o mínimo de empatia para que a dor do homicídio possa ser sentida por quem quer que seja.

 

Com efeito, é preciso ter estômago para ler o que se têm veiculado de notícias falsas sobre Marielle Franco, que de uns dias para cá passou a ser ex-mulher de traficante, colaboradora do crime organizado e outras inverdades impublicáveis por mim, que o diga uma distintos senhores da elite da sociedade brasileira, uma desembargadora do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro e um deputado federal.  O que há de mais de mais cínico, perverso e doentio nessas manifestações por aí a fora é que, além de se propagarem notícias sem procedência, como pano de fundo está a velha justificação da violência. Ou morreu porque estava com mais quatro amigos até tarde na rua, ou foram assediadas porque a saia era curta, ou apedrejaram porque estavam de mãos dadas em público. Inclusive foi criado um site para desmentir as notícias falsas sobre Marielle Franco. Caso alguém não acredite em um site criado por pessoas próximas, que vá buscar por si só as informações.

 

O simbolismo do que ocorreu não pode ser diluído em afirmações de que a comoção com a morte da Marielle Franco não deveria ser maior do que a das centenas de vítimas anteriores. Do ponto de vista político, ainda que fosse de um campo axiológico muito diferente do meu, a morte da vereadora expõe um ataque à representação política, porque cassou pela força a representante de 46.502 eleitores, que viam na vereadora uma porta-voz de suas demandas, como se o poder político que a empossou estivesse abaixo do desígnio de forças que, à revelia do princípios da ordem constitucional, pretendem reproduzir seus interesses de dominação, não raramente com a conivência dos agentes públicos, tal como ocorreu com o vereador Lúcio Diniz Araújo Martel, em outubro de 2012.

 

Aliás, segundo a União dos Vereadores do Brasil (UVB), 23 prefeitos e vereadores não terminarão seus mandatos porque foram assassinados e desse total, seis foram por motivações políticas. Se incluirmos aí os ativistas políticos, são 194 nos últimos cinco anos. Se o crime de quarta-feira se confirmar como de natureza política, o Brasil corre o risco de viver o mesmo período de terror que passou a Colômbia nas primeiras décadas do século passado, com a morte de políticos por conflitos partidários, embora a violência não esteja localizada em disputas partidárias. Para as eleições de 2018, os brasileiros também devem se perguntar se o domínio territorial no Brasil continuará a ser compartilhado entre o poder do Estado e de grupos criminosos.

 

Se mortes de figuras emblemáticas na história significaram grandes acontecimentos, que o crime da Rua Joaquim Palhares possa ser uma bandeira adotada por todos os que buscam o fim da violência no Rio e no resto do país, seja lá contra quem for. E para os que, de todos os lados, ainda insistem em profanar a lembrança de Marielle Franco, seja para destilar ódio, seja para brandir em sua luta política, mais respeito à memória alheia, por favor.

 

P.S.: Meus sentimentos para a família do pequeno Benjamin.

 

 

¹Unidades de Polícia Pacificadora

 

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