O horror do nosso outro eu, em "O Médico e o Monstro"

April 4, 2018

 

Lembram-se do filme, A Liga Extraordinária, de Alan Moore; Van Helsing - o caçador de monstros; O Incrível Monstro Trapalhão, e o desenho animado, Piu Piu e Frajola? Pois bem, todos eles se referem em algum momento à obra O Médico e Monstro, publicada em 1886, pelo escritor escocês, Robert Louis Stevenson. A transformação do homem em uma figura totalmente diferente, de um cientista que vira um monstro tomando uma poção química estranha, apareceram em filmes, desenhos e romances ao longo do século XX e XXI.

 

O que prenderá o leitor até o fim do ensaio, esperamos, é a curiosidade para a importância de ler essa obra, pois ela tem a capacidade de falar dos encontros entre o sacrifício moral e a  bestialidade.

 

O  Médico e o Monstro é atemporal. Por quê? Inevitavelmente toca em questões da natureza humana.  Ainda mais claro: a  dualidade entre o bem o mau.

 

O médico Henry Jekyll é como todos nós: vive de malabarismos entre agir conforme a razão e o instinto. A luta entre  cultura e a natureza. Certo dia,  buscou separar os dois lados da consciência, no qual cada um poderia agir de acordo com suas características próprias. “ A maldição da humanidade era que aqueles dois feixos incongruentes estavam ligados – que no útero agoniado da consciência, esses gêmeos antagônicos devessem lutar continuamente” ( p.101). [1]

 

Decide investigar como separar as duas consciências, através de uma droga química, em seu laboratório. Eureka!  Conseguiu! Mas em parte, pois a personalidade que apareceu em sua forma mais pura e radical, foi o lado demoníaco. Não houve uma libertação da consciência para o bem. Ele mesmo avalia que na hora de beber a poção, a sua mente não “estava sob o império das aspirações nobres  e piedosas”, mas dotada de ambições. Seu lado dual surgiu com a aparência baixa, magra, peluda, pálida, assustadora. Figura medonha! 

 

  Um das primeiras versões cinematográficas de O médico e o Monstro, dirigida por Lucius Henderson, em 1912, no Estados Unidos.

 

O doutor viu que essa descoberta poderia ser positiva. Potencializar a liberdade instintual, cuja a sociedade tende a retrair, usando o disfarce de Mr. Hyde - o monstro -  e fazendo-o desparecer quando bem quisesse. Satisfazer os prazeres impuros e indignos, não era de todo ruim. O outro Eu é o reino da anarquia, da ausência das repressões morais, dos desejos inesgotáveis, das atitudes insanas.

 

Por um certo tempo, Dr. Jekyll acreditou que estava imune aos atos bestiais do seu duplo, pois quando voltava a ser ele mesmo – tomando a poção milagrosa de transformação - , não sentia aumento de maldade.  Quase todos os dias,  Mr. Hyde saia pelas madrugadas de Londres, para barbarizar; não poderia fazê-la com a personalidade de médico. Liberava todos os seus vãs impulsos, reprimidos durante toda a sua vida pela coerção social, que impulsiona a seguir padrões de comportamento adequadas a vida em sociedade.

 

Transformação de Piu Piu depois de tomar a o poção do doutor Jekyll. Frajola e Piu-Piu, episódio “Hyde and Go Tweet”

 

Um belo dia, tudo mudou. Dr. Jekyll virou Mr. Hyde enquanto dormia. Pasmem! Sem usar o seu experimento líquido. E agora? Como resolver uma transformação não deliberada? Essa angústia vai dominar nosso ilustre personagem ao longo de toda a história. Doses duplicadas foram utilizadas a fim de evitar transformações espontâneas. O médico começou a perceber que seu duplo ganhava um potencial de agigantamento superior ao seu estado natural, como se o lado sórdido acrescentasse tanto poder, em pouco tempo, mais do que sua vida inteira.

 

Contudo, ele percebeu que poderia controlar por um tempo o estado sórdido,  o lado devasso de sua natureza. Em suas palavras:

 

“Sim, preferi o médico maduro, e insatisfeito, rodeado de amigos e alimentando esperanças honestas, e me despedi, decidido, da liberdade, da juventude relativa, do passo ágil, dos impulsos arrebatadores e dos prazeres secretos que desfrutara sob o disfarce de Hyde" (p.112). [2]

 

Mas, não resistiu. Em um momento de fraqueza mental voltou a tomar o líquido. O que  o autor quis mostrar? Que a tentação a cometer atos irracionais, anárquicos, era algo irresistível!  A transformação de Hyde tirou a vida de uma pessoa, o que em suas palavras significou que  “o espírito do inferno imediatamente despertou em mim e rugiu” (p.113). [3] Em seguida, o remorso e as lágrimas condenaram o ato hediondo. E houve, mais uma vez, a decisão deliberada de sufocar a barbárie interior em favor de uma vida natural com restrições, controlando as exigências do instinto. Ou seja, superar as transformações espontâneas negando seu lado bestial.

 

Vieram dias felizes. Grande esforço e dedicação ao trabalho. Mas veio o tédio de uma vida mecânica, restrita e desaventurada. Não é fácil licenciar o lado mais baixo do ser humano!!! O desejo retornou novamente a consciência do cientista: a tentação de deixar a besta fera agir. A queda. A baixeza. O pecado. O lado animal! É difícil não cair no desejo inquietante de ser Hyde!

 

O médico não conseguiria livrar-se das tentações. Estas lhe impôs um poder tão colossal que ele perdeu a capacidade evitar as transformações. Imagine estar em qualquer lugar  e de repente seu lado mais sombrio atiça sua consciência sem que se possa controlar suas ações. Era a sina de Dr. Jekyll.


No fim, o suicídio foi o remédio mais radical. O medicamento, que ele usava para retroceder as transformações, cessou. O ato trágico acabou sendo a última saída para sanar o conflito interno.

 

Resta a todos nós, nobres leitores, refletir sobre o livro. Chamamos atenção ao nosso ímpeto de terceirizar a barbárie. A questão da dualidade é uma condição humana. Hierarquizar moralmente as pessoas a partir de ideologia, religião, partido, crença, etnia, cor, sexo, gênero, negando a sombra presente em cada um de nós, é a completa ilusão da ignorância. Uma camada superficial e ingênua do entendimento humano. A  insegurança quanto às nossas fraquezas nos impulsiona a projetar no outro todo a maldade. Porém, a lição de hoje é que todos temos um pouco de Mr. Hyde.

 

Até a próxima

 

 

Fontes:

 

Link da imagem de capa: http://www.quartoato.com/2017/10/o-medico-e-o-monstro-1886-o-terror.html

 

Link da segunda imagem: http://guerraheroica.blogspot.com.br/2016/05/dr-jekyll-e-mr-hyde-o-medico-e-o.html

 

Link da terceira imagem: http://www.cafeinaliteraria.com.br/2010/11/27/se-ele-e-aquele-que-se-esconde-eu-serei-aquele-que-procura/

 

 

Referência

 

 [1], [2], [3]  STEVENSON, Robert Louis. O Médico e o Monstro. Tradução: Marco Marcionilo. São Paulo: Editora Melhoramentos, 2013.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Compartilhar
Please reload

RECEBA AS NOVIDADES

  • Grey Facebook Icon
  • Grey Instagram Icon
  • Grey G+ Icon

© 2019 por Soteroprosa | Design por Stephanie Nascimento. Implementação e suporte por Wix.com.