JO – A POTÊNCIA VISCERAL DO MOVIMENTO

April 11, 2018

 

 

 

Por Ronaldo Magalhães*

 

 

 

Ontem fui assistir aos espetáculos da 7ª. edição do projeto AbriU Dança, no teatro Gregório de Matos, em Salvador. Entre os espetáculos, o solo “Jo” interpretado pela dançarina espanhola Clara Garcia [1], direção e coreografia de Claudio Machado [2], direção musical de Jarbas Bittencourt e Iluminação de Fred Alvin. O solo é baseado na peça Gota D´Água de Chico Buarque e Paulo Pontes escrita em 1975. Machado inspirou-se na personagem central da peça, a Joana que, por sua vez, é uma revisitação do mito grego de Medeia, escrita em 431 a. C pelo dramaturgo Eurípides (480 a.C – 406 a.C). Nela, o autor representa o retrato psicológico de uma mulher repleta de amor e ódio. Esposa repudiada e estrangeira perseguida, ela se revolta contra o mundo opressivo que a rodeia, refutando as convenções sociais tradicionais. Para vingar-se de Jasão seu marido, e no intuito de se automodificar, ela mata os filhos.

 

Na peça Gota D´Água são abordadas as dificuldades vividas por um grupo de pessoas que moram num conjunto habitacional no Rio de Janeiro, pano de fundo para contar os dramas e conflitos vividos por Joana e Jasão, que como na peça clássica, larga a mulher para casar-se com Alma, filha de Creonte. Joana não aceita tal situação, mata seus dois filhos e depois suicida-se.

 

Gostei muito de ver Clara Garcia em cena. Sua presença cênica emana uma potência visceral e um dinamismo que, nos convoca a prestar atenção nos mínimos movimentos realizados durante sua performance. Assim que Clara entra em cena, sua postura de imediato desperta a atenção, pois há uma concentração e uma contenção em sua posição no palco. Ela está parada, de pé sobre um foco de luz. Traz sob a pele apenas uma longa saia. Os seios estão naturalmente expostos e seu corpo é marcado por inúmeros pegadores de roupa que estão grudados em várias partes. Nesse momento eu já consegui fazer uma leitura da relação de Joana como lavadeira, mas tem uma metáfora ali presente, um subtexto que indica, no meu ponto de vista, uma relação com a tortura sofrida por ela, as marcas da dor e da traição cometida por Jasão.

 

 Ela tenta manter-se de pé. A trilha musical é bem pontuada: um típico samba carioca.  Os pegadores começam a cair, a soltarem-se do seu corpo. Ela reage, mas sucumbe. Cai no chão. E mergulha seu corpo num movimento que esconde seu rosto (o tempo inteiro fica com a face rente ao chão) e tenta desesperadamente sair daquela agonia. Movimento que revela sua subserviência até então ao marido e expressa também a perda de sua identidade. Ela tenta recuperar a todo custo as suas forças, mas percebe que elas estão se esvaindo. Há uma luta para elevar-se, para manter seus pés firmes no chão.  Ela peleja em tensão com o próprio corpo quando tenta puxar sua perna que se esvai enfraquecida no chão. Movimento que me fez lembrar da manipulação sofrida pela mulher, como se Joana naquele momento fosse uma marionete do destino ou do próprio Jasão. Mas Joana não se entrega e continua lutando pela sua própria vida. Há um embate e, os movimentos expansivos nos convocam a observar sua guerrilha no mundo. Por um certo período, o fluxo da dança permanece desenvolvido por uma trilha própria; uma trilha que nasce do mais interno movimento corporal de Clara Garcia em meu ao silêncio.  

 

Confesso que foi um momento de puro deleite poder apreciar a concentração e entrega da dançarina. E mesmo não havendo uma trilha musical concreta, fui invadido por essa intensa vibração. Há momentos de sussurros, ameaças de brandir seu grito de dor.  A batalha dela contra um sistema, contra um patriarcado, contra um mundo injusto.

 

Quando a outra trilha começa, ela traz uma ambiência de dramaticidade. A tensão entre o feminino e o masculino mantém-se até o momento em que Jo (Clara Garcia) volta sua atenção para o símbolo mais precioso de sua feminilidade e de sua primitiva e instintiva essência maternal: os seios.  O jogo que até então era uma dinâmica de luta e tensão entre o movimento contido versus a expansividade expressiva do corpo, passa a ser focalizado nas mamas. Jo brinca com elas como se elas fossem seus brinquedos. Ela se diverte ao entoar um cântico que nos remete a uma cantiga de ninar, a uma parlenda. Momento precioso que nos incita a observar todo o poder da ludicidade ali presente, nos evoca à presença dos dois filhos maculados, ao tempo em que nos convida a perceber seu poder enquanto mulher e mãe. Sem contar que a cantiga também nos reporta a uma espécie de lamento, mas há certamente uma força e uma potência essencial que a eleva e enleva num movimento de eterno retorno. Movimento que a conduz à redenção de si mesma quando, ao tocar em si, ao prestar atenção a si mesma, à sua feminilidade e instinto maternal, ela vislumbra a luz da própria identidade.

 

E para arrematar, cito um trecho do depoimento de Jung, na Retrospectiva do seu livro Memórias, Sonhos, Reflexões que consegue traduzir com veemência, todo o conflito e dramaticidade vividos por Joana: “A falta de liberdade causava-me grande tristeza. Tinha às vezes a impressão de encontrar-me num campo de batalha. – Caíste por terra, meu amigo! Mas devo prosseguir, não posso, não posso parar. Pois “vergonhosamente uma força arrebata-nos o coração”. Eu te amo, eu te amo, mas não posso ficar! No momento isso é dilacerante. Mas eu mesmo sou uma vítima, não posso ficar. Entretanto, o daimon urde as coisas de tal modo que é possível escapar à inconsequência abençoada e, em oposição à flagrante “infidelidade”, permaneço totalmente fiel” (JUNG, 2016, p.424).

 

 

* Roteirista, dramaturgo, diretor, ator e arte-educador. Mestre em Artes Cênicas PPGAC-UFBA (2016) Dramaturgia, História e Recepção. Bacharel em Direção Teatral (2008). Escreve contos, roteiros para rádio, cinema e TV. Entre eles: “A Roubada da Rainha” (adaptação); La Dance – O musical; TV Anísio Teixeira: Histórias da Bahia; Clip Planeta Dez.  Colaborou na escrita das peças O Castelo da Torre do Grupo Vila Vox; LoCais da Memória (2012); revisão dramatúrgica do texto Matrioska (UFBA); Escreveu Balada para Nina; A Busca do Tesouro. Foi integrante do coletivo Birosca de Dramaturgias (o texto teatral “Balada para Nina” foi lido na Universidade de Coimbra em Portugal).  Tem artigos e contos publicados. Entre eles Uma troca perfeita e Eterna Presença.

 

 

Fontes

 

[1] CLARA GARCIA é dançarina, professora de dança, produtora e gestora cultural. Começou a sua experiência como dançarina aos 11 anos com a companhia de danças urbanas e Hiphop Uniq, em Barcelona, ​​na qual atuou durante 10 anos. Neste período tornou-se campeã nacional em 2005 e europeia em 2006. Graduada em Dança e Coreografia em Die Etage Schule für Darstellende Kunst (Berlim – Alemanha). Criou e atuou em diversos projetos de dança e trabalhou com diferentes coreógrafos como Stella Zanou, Jennifer Mann, Shusaku Takeuchi, Saskia Assohoto, entre outros, e trabalhou como professora de dança e projetos socioculturais. Em 2015 foi para Frankfurt para integrar a companhia de teatro físico Antagon TheaterAKTion, como dançarina e atriz, participando de festivais pela Europa, Ásia e América Central. Improviso, dança contemporânea e a acrobacia - com grandes influências de danças urbanas e breakdance  -  demarcam o seu campo de atuação artística.

 

[2] CLAUDIO MACHADO é ator, dançarino, diretor e produtor cultural. Graduado em Artes Cênicas pela Universidade Federal da Bahia. Com mais de 20 anos de atuação em mais de 50 produções baianas para as linguagens de teatro, dança, performance, música e cinema. Atuou no grupo Vilavox durante 14 anos (2001 a 2015) em múltiplas funções na área de criação e execução de projetos de montagem de espetáculos, formação e ações culturais diversas. Trabalhou como gestor cultural no município de Madre de Deus – BA entre 2013 a 2015; e pela gestão estadual de 2010 a 2013.
Premiado duas vezes pelo Prêmio Braskem de Teatro: como Melhor Espetáculo infanto-juvenil de 2012 com O Segredo da Arca de Trancoso sob sua direção; e como Melhor Ator do ano de 2013 pela atuação na peça Destinatário Desconhecido. Desde de 2016 integrou o Antagon TheaterAKTion, como performer e diretor, atuando em espetáculos do repertório do grupo em festivais pela Europa, Ásia e América bem como dirigindo performances apresentadas na Alemanha.

 

Referência bibliográfica

 

JUNG, Carl Gustav. Memórias, Sonhos, Reflexões. Trad. Dora Ferreira da Silva. [Ed. Especial] Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016, 512p.

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