JO – A POTÊNCIA VISCERAL DO MOVIMENTO


Por Ronaldo Magalhães*

Ontem fui assistir aos espetáculos da 7ª. edição do projeto AbriU Dança, no teatro Gregório de Matos, em Salvador. Entre os espetáculos, o solo “Jo” interpretado pela dançarina espanhola Clara Garcia [1], direção e coreografia de Claudio Machado [2], direção musical de Jarbas Bittencourt e Iluminação de Fred Alvin. O solo é baseado na peça Gota D´Água de Chico Buarque e Paulo Pontes escrita em 1975. Machado inspirou-se na personagem central da peça, a Joana que, por sua vez, é uma revisitação do mito grego de Medeia, escrita em 431 a. C pelo dramaturgo Eurípides (480 a.C – 406 a.C). Nela, o autor representa o retrato psicológico de uma mulher repleta de amor e ódio. Esposa repudiada e estrangeira perseguida, ela se revolta contra o mundo opressivo que a rodeia, refutando as convenções sociais tradicionais. Para vingar-se de Jasão seu marido, e no intuito de se automodificar, ela mata os filhos.


Na peça Gota D´Água são abordadas as dificuldades vividas por um grupo de pessoas que moram num conjunto habitacional no Rio de Janeiro, pano de fundo para contar os dramas e conflitos vividos por Joana e Jasão, que como na peça clássica, larga a mulher para casar-se com Alma, filha de Creonte. Joana não aceita tal situação, mata seus dois filhos e depois suicida-se.


Gostei muito de ver Clara Garcia em cena. Sua presença cênica emana uma potência visceral e um dinamismo que, nos convoca a prestar atenção nos mínimos movimentos realizados durante sua performance. Assim que Clara entra em cena, sua postura de imediato desperta a atenção, pois há uma concentração e uma contenção em sua posição no palco. Ela está parada, de pé sobre um foco de luz. Traz sob a pele apenas uma longa saia. Os seios estão naturalmente expostos e seu corpo é marcado por inúmeros pegadores de roupa que estão grudados em várias partes. Nesse momento eu já consegui fazer uma leitura da relação de Joana como lavadeira, mas tem uma metáfora ali presente, um subtexto que indica, no meu ponto de vista, uma relação com a tortura sofrida por ela, as marcas da dor e da traição cometida por Jasão.


Ela tenta manter-se de pé. A trilha musical é bem pontuada: um típico samba carioca. Os pegadores começam a cair, a soltarem-se do seu