A FILOSOFIA DO RISO: Nietzsche e a arte de rir de si mesmo

April 19, 2018

 

 

Um belo dia, sentado em seu sofá, com seu velho smartphone em uma das mãos, você abre seu aplicativo do youtube, como sempre, e entra em um dos trilhões de canais de comédia espalhados pela rede, quando, de repente, você começa a perceber alguma coisa estranha, um tipo de padrão naquele aparente caos chamado internet. Em um dos canais de comedia que segue, esse mais politizado e crítico, uma mesma fórmula parece ganhar destaque, um tipo de configuração cada vez mais previsível, ou melhor, cada vez mais desprezível.

 

Quando se ouve uma piada, dita por alguém, em algum lugar, normalmente ela tem uma meta, um propósito, uma direção, como uma flecha lançada em um alvo. O riso, ao menos aquele comum, é visto como uma arma conveniente, um instrumento direcionado a um outro, a um inimigo, a um adversário. Esse tipo de riso cheio de conveniência, cheio até de um tom aristocrático, é aquilo que Nietzsche chamou de riso gelado, em sua obra “Assim Falou Zaratustra”, sendo nada mais do que uma reação de um corpo em agonia, de um corpo fraco. O oposto desse riso conveniente, bem previsível, é aquele direcionado a si mesmo, aquele que invade as profundezas do “EU”, do corpo e da linguagem.  Nesse cenário, o sujeito está disposto a rir dos próprios valores, da própria vida, das próprias narrativas, assim como Zaratustra, ao descer da colina com sua nova filosofia. Esse riso nietzschiano, esse riso alternativo, é do tipo profundo, radical e sem qualquer traço de hipocrisia.  Além de ser mais sincero, o riso de Zaratustra abre espaço para uma nova forma de crítica e reflexão, um estilo de vida muito especial e até mesmo indispensável ao sociólogo contemporâneo.

 

Na tragédia, dentro do teatro, existe a famosa “ironia dramática”, um tipo de reação curiosa do público, uma espécie de sentimento de superioridade ao saber de coisas que o personagem desconhece, a exemplo do destino de Édipo, conhecido desde o começo pela plateia, mas apenas no final, pelo personagem. Na comédia, algo parecido também acontece. Quando o riso brota no publico, por conta de algum deslize dos personagens, um sentimento de superioridade é mais uma vez construído, criando assim uma certa hierarquia. O riso gelado, aquele conveniente, unilateral, opera com essa mesma estrutura de funcionamento. Ele é uma flecha direcionado apenas ao outro, fiscalizando cada deslize, cada detalhe, num tipo de vigília contínua. O riso gelado, quando aparece, sempre traz uma mensagem nos bastidores, meio que inconsciente: “EU SOU MELHOR DO QUE VOCÊ”.

 

Esse riso frio, pobre, de pura conveniência, não é bem uma falha, ou mesmo um traço de ignorância, como poderia parecer numa primeira impressão. Ele é muita mais um arranjo, uma estratégia, mas não de uma racionalidade pura, selecionando opções, e sim uma estratégia de um corpo conveniente, ressentido e desesperado. Esse corpo fraco, diria Nietzsche, não é bobo, nada tem de ingênuo, muito pelo contrário. Esse pedaço de matéria em desespero, muitas vezes ressentida, sempre usa qualquer recurso ao redor para compensar sua fraqueza, não apenas a linguagem com suas justificativas, mas até mesmo um simples sorriso. Nada escapa das garras do indivíduo fraco, daquele incapaz de afirmar as próprias falhas, incapaz de afirmar o próprio corpo.

 

O riso de Zaratustra, por outro lado, sendo mais radical, nada tem de conveniência, muito pelo contrário. Zaratustra sempre ri de si mesmo, do seu proprio corpo, dos seus próprios deslizes, dos seus próprios valores. É nesse riso radical, nessa zombaria de si mesmo, onde mora a verdadeira reflexão crítica, justamente porque abre espaço para a mudança, o novo e o dialogo. Ao não se levar a serio, ao rir de si mesmo, Zaratustra se abre ao mundo, ao outro, abraçando sempre novas possibilidades. O riso gelado, ao contrário, bloqueia sempre os encontros, já que instala um abismo entre o eu e o outro, assim como uma hierarquia hipócrita. Nesse riso de superioridade, nesse riso frio, o outro é apenas um objeto para mim, nada mais do que um detalhe dispensável, um simples meio para minha propria autodefinição.

 

O riso de Zaratustra, por outro lado, sempre aproxima os mundos, sempre abre a si mesmo para o diálogo, a mudança e as novidades. O riso de Zaratustra ressoa pelas gerações, pelos séculos, afetando até mesmo um personagem como Jean Baptiste Clamence, no livro A queda de Albert Camus. Ao ser um “juiz penitente”, Clamence percebe que a única forma legitima de rir do outro, é rir de si mesmo, caso contrário, diz ele, não vale, não faz sentido, sendo pura hipocrisia e conveniência. Claro que não é fácil rir de si mesmo, mas talvez seja o inicio de uma verdade critica, de uma verdadeira sociologia.

 

Referência da Imagem:

 

http://mtltimes.ca/Montreal/social-life/parenting-sometimes-just-laugh/

 

 

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