Amor nos tempos do Gabo

 

 

Javier Bardem e Giovanna Mezzogiorno vivem Florentino Ariza e Fermina Daza, respectivamente, no filme de homônimo à obra. Fonte: Revista Cromos.

 

 

 

No dia 06 de março comemorou-se o aniversário de um dos grandes escritores do século passado – senão um dos maiores da língua latina: Gabriel Garcia Márquez. Ganhador do prêmio Nobel de literatura em 1982 pelo conjunto de sua obra, "Gabo" se tornou um cânone no meio literário e passagem obrigatória para aqueles que querem compreender, por meio de uma narrativa minuciosa e cativante, o que significa a América Latina, incluindo o seus habitantes, costumes e contradições.

 

Falecido em 2014 no México, Garcia Márquez escreveu Cien Años de Soledad (Cem anos de solidão), livro que foi considerado o mais importante da língua hispânica, atrás apenas do grandioso (em todos os sentidos) Don Quijote de la Mancha (Dom Quixote de la Mancha), de Miguel de Cervantes. De tão importante, é quase impossível pensar em Garcia Márquez e não lembrar da saga da família Buendía na fantástica cidade fictícia de Macondo.

 

No entanto, apesar de Cien Años ser uma das minhas criações preferidas de Gabo, a obra que mais gosto é El Amor en los Tiempos del Cólera, publicada em 1985. Lembro-me que quando adquiri o livro, deduzi que seria apenas um romance “corriqueiro”, afinal o tema era batido: triângulo amoroso, um jovem pobre apaixonado pela menina rica e um casamento de interesses com rapaz bem-sucedido para atrapalhar os planos do casal... nada do que não encontremos em um filmezinho ordinário na Sessão da Tarde. No entanto, fui deliciosamente desmentido com à medida que ia avançando no romance.

 

Apesar da história de amor interrompida entre a altiva e decidida Fermina Daza e o taciturno e lânguido telegrafista Florentino Ariza ser o fio condutor da narrativa, o leitor é forçosamente jogado para um turbilhão de acontecimentos que envolvem não apenas os dois, como também o virtuoso marido de Fermina, o médico Juvenal Urbino, da cidade e da próprio país como um todo. Tudo isso em uma Colômbia permeada pela pobreza, abandono, conflitos políticos e seu descompasso com o “mundo civilizado”.

 

Garcia Márquez nos convida para refletir, por meio da narrativa que enreda as personagens, tanto sobre questões sociais como o patriarcalismo, racismo, machismo, a pobreza que ainda assola o continente (a menção à doença no título não é à toa), sobre as guerras civis que rasgam a história da Colômbia – e que estão presentes em quase todas as obras do autor –, como questões de foro íntimo, em uma dimensão quase psicológica e existencial: a saudade de alguém que se ama, a tristeza por não ter consigo a pessoa querida, a resignação com que se busca levar a vida adiante, os impasses de um casamento, o luto pelo ente querido, a decepção pela traição, os prazeres carnais que nos rendem boas histórias... está tudo lá. Sem perceber, fui convidado a experimentar de uma maneira densamente detalhada, sentimentos que, ainda que não vividos pelo leitor, nos fazem pensar sobre a própria condição humana enquanto possibilidade experiência nesse fluxo contínuo que é a vida, que sequer dá direito a que paremos na margem.

 

Lembro-me que a narrativa é tão envolvente, que me fez deixar em segundo plano o desejo de final feliz para Fermina e Florentino (atitude ingênua, confesso), para acompanhar o desenrolar da história e como as duas personagens construíram suas vidas ao longo dos quase 50 anos em que estiveram separados. Este livro convida-nos a não apenas pensar sobre o que seja o amor e o que se está disposto a passar para vivê-lo, mas sim a refletir sobre a nossa própria vida: como as experiencias da vida, ainda que dolorosas, se tornam partes inalienáveis de quem nós somos.

 

Ao descrever os anos de casamento entre Fermina e Juvenal, temos a sensação de estar lendo a história de um casal comum, ou mesmo lembrar de nossos pais ou avós. Longe de viverem um conto de fadas, Gabo nos revela o laço do matrimônio é construído no dia-a-dia, posto à prova constantemente e que mesmo a chama da paixão seja intensa, no fim das contas não é ela que mantém um casamento aquecido no gelidez perene que é conviência à dois. Das brigas conjugais aos momentos de carinho de Fermina e Juvenal, fica a sensação de que um relacionamento é como sudário que Penélope tecia para esperar seu esposo Ulisses enquanto ele não voltada da guerra de Troia : desfeito à noite, é preciso refaze-lo novamente do longo do dia. Esse romance também inova ao mostrar que mesmo mantendo um amor “subterrâneo” por Florentino, Fermina amou seu marido e foi feliz até o dia de sua morte, ou seja, se trata de uma história de amor que enfrentou não apenas o tempo, mas um outro amor vivido.

 

Dizem que Gabriel Garcia Márquez escreveu esse livro com “as entranhas”. Se é verdade ou mentira, isso não importa. O fato é que ele se utilizou da história dos próprios pais para criar um dos livros mais cativantes já li. Portanto, ainda que minhas preferências literárias não sejam necessariamente um padrão de qualidade e que o texto por mim escrito não seja tão instigante, sugiro a leitura desse tratado sobre a vida disfarçado de romance. Mais que isso, faço um convite para conhecer o que há de mais visceral na obra de Garcia Márquez. E porque pouco falei de Florentino Ariza? Deixarei para o conheça lendo a obra, pois se é verdade que a curiosidade era uma das muitas facetas do amor, então que esse o amor a essa obra cresça a cada página lida, suspirada e refletida.

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