A crise que não vira manchete e a realidade transbordante





O ano é 2018 e o Brasil passa por uma dramática greve dos caminhoneiros que já dura quase uma semana. Os brasileiros observam com a incredulidade de quem, mesmo acostumados à palavra “crise”, em seu sentido de urgência esvaziado pela familiaridade, não a sentiam de forma tão latente como nos últimos dias. Os efeitos da greve se propagam em cascata, indo desde a falta de combustível nos postos à iminência de racionamentos hídricos e falta de alimentos e insumos hospitalares.


A enxurrada de comentários midiáticos e populares vindos de todo o espectro político, em crescente polarização, só ajuda a nublar a já precária análise crítica da realidade de pessoas que entendem cada vez menos o que está acontecendo. Quando o básico à vida cotidiana está em risco, o pragmatismo se impõe e exige o retorno à “normalidade”, mesmo aquela na qual a presença etérea da crise está sempre à espreita. A greve dos caminhoneiros é importante em diversos aspectos, dos quais destaco a dependência absoluta da humanidade em petróleo e derivados, de tal forma que, como espero demonstrar, aponta à infeliz ironia do dilema contemporâneo mais notoriamente negligenciado. Mas o paradigma da greve em curso não é o foco da abordagem aqui. Na realidade o plural cabe mais: paradigmas, interações constantes entre aspectos da realidade tradicionalmente tratados em separado.


Em tempos saturados de milagres da tecnologia e da produção, a fé iluminista nos frutos da razão alcança alturas que provocariam inveja recalcada até nas doutrinas neopentecostais. A robustez do status quo global às suas crises se revela na própria efetividade com que seus contrapontos têm sido aglutinados pelo discurso hegemônico. O caso clássico que dá substância à ironia mencionada é a dimensão ecológica do que reconheço como a crise sistêmica da contemporaneidade.