Uma policial e uma candidatura: ação e eleição em uma mesma trama

 Fonte: UOL

 

 

No último dia 16 de maio, uma policial militar de folga reagiu e evitou o que seria um assalto em frente a uma escola na cidade de Suzano, região metropolitana de São Paulo. Na porta da instituição de ensino, algumas mulheres estavam reunidas com suas filhas quando foram abordadas pelo meliante. A PM Katia Sastre, que estava de folga e com trajes civis, sacou sua arma no momento em que o rapaz percebeu a movimentação dela e foi atingido por três tiros. Esse episódio ocorreu a algumas semanas, mas voltou a baila recentemente por um motivo que chama atenção.

 

Antes de abordar o pretexto que me levou a escrever essa coluna, devo opinar sobre a própria ação da policial, visto que muitos condenaram o ato. O incidente gerou polêmicas a respeito dos disparos que, para muitos, foi temerário. A meu ver, não havia outra opção para a agente. Ela foi preparada para agir em situações dessa natureza. O assaltante estava em clara ameaça, com sua arma em punho, apontada para mães de família em companhia de crianças. Após calcular a possibilidade de rendição, a servidora não teve alternativas quando ficou na mira do revólver do suposto ladrão, e atirou. Ferido, o gatuno não resistiu aos ferimentos.

 

Com a notícia do caso, a policial então foi chamada de “heroína” e recebeu uma homenagem no Dia das Mães, concedida pelo governador Marcio França. E aí está o equívoco. A policial deveria ter seu nome e imagem preservados, já que, em sua função de habilitada para solucionar casos como esse, ela não conseguiu preservar a vida do sujeito, segundo o estatuto da própria polícia. Uma coisa, é a ocorrência resultar em homicídio, visto que a policial corria risco de ser alvejada. Outra, totalmente diferente, é qualificar a ação como sucesso. Se ela cumpriu com as normas de evitar que alguma mulher ou criança saísse ferida, caso o subordinado desferisse um tiro, não teve o mérito da rendição plena, de acordo com o desenrolar da intervenção. Ela não deveria ser condecorada por isso. Honrarias com mortes só são prestigiadas em guerra, quando o embate visa vencer o inimigo. Como já foi exposto por outros colunistas, a melhor homenagem que um policial pode receber de um chefe de governo seriam aumentos salariais e melhor estrutura para exercer suas funções.

 

Passada a discussão que envolveu o caso, eis que surge a informação que a policial em questão firmou acordo para filiar-se a um partido político para uma possível candidatura a deputada estadual, durante o pleito eleitoral deste corrente ano. O partido em questão é o Partido da República (PR), cuja liderança mais proeminente é o ex-deputado Valdemar Costa Neto, condenado no escândalo de corrupção política conhecido como “mensalão”. Primeiramente, ela havia sido convidada a ingressar em outro partido, o Partido Social Liberal (PSL), cujo nome mais conhecido é do presidenciável Jair Bolsonaro.

 

Qual a discussão a ser proposta aqui? Uma das pautas, é o proveito eleitoral de associar a ação de uma “heroína” a uma carreira parlamentar. Graças a um evento de ordem pública, a agente está sendo requisitada para ocupar um cargo eletivo sem ter uma trajetória partidária de grande monta para construir uma candidatura desse porte. Os proponentes dessa via, ao que parece, pretendem nos comunicar que um bom trabalho na formulação de leis não carece necessariamente de preparo, e sim de destaque social, nesse caso, por ter obtida uma pretensa glória na morte de um “vagabundo”. E mais: com possibilidade de vitória nas urnas. Isso, porque uma parcela da sociedade nutre ressentimentos quanto à segurança pública e vibram como torcedores de um time de agentes públicos e políticos que pregam o extermínio de bandidos como solução dos problemas. Porém, há um recado bem claro: os meios de se pensar e fazer política continuam arcaicos como nunca, mesmo que se demande na sociedade uma “nova forma de se fazer política”. O resultado, é que corremos o risco de cair na mesma lábia doce de velhos políticos que tramam conjecturas baseadas num ideário que já se mostra bem obsoleto, ao convidar a policial para integrar uma chapa, apoiada somente numa ação criminal supostamente bem sucedida.

 

A provável filiação da policial cumpre com um rito de antagonismos ideológicos que se fortalece, à medida que a análise de toda a trama da ação da agente contribuiu para aumentar a cisma entre indivíduos com perspectivas e posicionamentos distintos, nos embasamentos apresentados em defendê-la ou recriminá-la. Os acirramentos entre convicções diferentes, impedem uma tentativa de discernimento, com avaliações diversas dentro de um mesmo tema; justamente o que pretendi fazer nesse artigo.

 

FONTE:

 

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/05/mae-pm-que-reagiu-a-assalto-deve-se-filiar-ao-pr-para-eleicoes.shtml

 

https://g1.globo.com/sp/mogi-das-cruzes-suzano/noticia/policial-de-folga-mata-ladrao-armado-em-frente-a-uma-escola-com-criancas-em-suzano.ghtml

 

https://g1.globo.com/sp/mogi-das-cruzes-suzano/noticia/mae-pm-que-matou-ladrao-em-frente-a-uma-escola-recebe-homenagem-no-dia-das-maes.ghtml

 

 

 

 

 

 

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