QUANDO BRECHT ENCONTRA DEADPOOL

June 7, 2018

 

 

O cinema e o teatro são referências no universo performático, duas artes que aprenderam a conviver lado a lado, apesar das rivalidades. Ninguém pode negar que as duas operam linguagens diferentes, seguindo um ritmo próprio e irredutível. No teatro, a plateia está ali, viva, interagindo simultaneamente, o que torna o espetáculo algo único, jamais replicável. Como no rio hieraclitiano, não é possível colocar os pés numa peça pela segunda vez, já que a configuração sempre muda, a cada encontro, mesmo que essas mudanças sejam pequenas, imperceptíveis aos olhos do espectador comum. Cada peça é única e sempre se refaz, não podendo ser reproduzida como acontece no cinema ou na tv. Nessas duas últimas modalidades, o ator encena com uma câmera, tendo um objeto frio regulando seus movimentos. A plateia, nesse modelo, é algo meio que virtual, distante, e até mesmo reificada.

 

Apesar das diferenças de configuração, algumas técnicas são compartilhadas pelos dois universos, o cinematográfico e o teatral. Uma delas, a que nos interessa agora, é a quebra da quarta parede como um recurso performático, uma estratégia dentro de certa narrativa. Claro que essa técnica é ressignificada, embora seja a mesma no cinema e no teatro, oscilando conforme a configuração do espaço, seja ele um palco ou um estúdio.

 

No teatro épico brechtiano, a quarta parede é sempre um problema, já que cria um tipo de vínculo estranho entre público e palco, além das consequencias dessa mesma estranheza. Se o palco carrega traços da própria realidade, se o palco é a própria realidade, ao menos em certo nível, a quarta parede é um grande obstáculo, principalmente quando o compromisso é refletir sobre o que existe, assim como pensar em novas possibilidades de existência. Para Brecht, quando essa parede quebra, ou explode, o público perde sua imersão, sua neurose provisória, o que sempre vem com um custo, claro; nesse caso, um puro desconforto, um incômodo muitas vezes difícil de definir. Angústia e reflexão, para Brecht, andam lado a lado, como duas faces de uma mesma moeda.

 

Em Deadpool, a quebra da quarta parede ganha um efeito inédito, um contorno jamais imaginado pelo próprio Brecht, chegando a ser até mesmo o oposto da proposta original. Primeiro, ela passa a ser um recurso de entretenimento, de prazer, sendo que era um recurso de angústia, de incômodo. Segundo, em Deadpool, a quebra da quarta parede é uma estratégia para absorver o espectador na história, dissolvendo sua presença curiosa na narrativa, sendo que, em Brecht, ela era usada justamente como um impedimento dessa absorção. Era preciso que o espectador não se perdesse na trama, mas mantivesse, sempre, um certo grau de afastamento, o que garantia o seu potencial crítico. Terceiro, a quebra da quarta parede passa a ser, em Deadpool, um recurso previsível, milimetricamente calculado, um artificio para reforçar um certo "punchline", sendo que, em Brecht, sempre foi algo imprevisível, daí o impacto que gerava, a angústia, além do afastamento entre espectador e cena.

 

Sém dúvida, mesmo no cinema a quebra da quarta parede nem sempre perde seu recurso crítico, como imaginado por Brecht. Exemplo disso, talvez o mais óbvio, é o filme de David Fincher "Clube da Luta" (1999). Aqui, não apenas a quarta parede desaba, como também garante um toque de reflexão no processo, como nas cenas em que Tyler interage com seu alter-ego. A conversa, de início entre dois personagens, começa agora a incluir um terceiro, um novo participante, o espectador. O que é discutido ganha mais vida, já que passa a ser  um material objetivo, exposto ao público, e não apenas um recurso de entretenimento. O espectador não apenas observa o que acontece, mas participa também, de uma forma que Brecht aplaudiria de pé. Afinal, qual é a primeira regra do clube da luta? Pois é, todo mundo sabe e por isso o silêncio. Todos são cúmplices, mesmo aquele cara lá no fundo do cinema, o que come sua pipoca com seu refrigerante ao lado.

 

Tirando algumas excessões, o cinema conseguiu transformar um instrumento reflexivo, a quebra da quarta parede, em mais um material de puro entretenimento, de puro prazer. Na verdade, essa é a tendência dos últimos tempos. A própria perspectiva anti-heróica, antes privilégio de cinemas  marginais, críticos, começou a ser incorporada nos circuitos mais populares, fazendo do anti-heroismo apenas um assunto de entretenimento, sendo que sempre foi um recurso crítico, ao ver o mundo sem dualismos, sem romantismos, com personagens complexos, rasgados por contradições, além de cenários ambíguos e uma música dissonante. 

 

O mundo do cinema sempre absorveu outras artes, como a fotografia, a música, o teatro, fazendo um tipo de bricolagem estética, e isso desde o início com os irmãos Lumiére. O problema é que essa absorção começa a sair do controle, começa a absorver tudo a sua volta, mesmo aquele repertorio que fazia parte do polo oposto, aquele polo mais crítico, aquele de filmes neorealistas, iranianos, franceses, etc. O que nos espera daqui para frente, até onde vai esse horizonte? Impossível saber!!!

 

Referência da Imagem:

 

https://www.bpl.org/teens/2016/04/27/hold-the-popcorn-4272016/

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