ESCOLA CONTRA NATUREZA: a favor de uma (re)conciliação

July 18, 2018

 

 

 

Autor: Luciano Xavier Nunes Rasteli

(Graduado em Filosofia e Graduando em Antropologia)

Autora: Talia Lapa Brito

(Graduada em Ciências Sociais)

 

 

Estava ali, depois da linha de arrebentação das ondas, sozinho, quando ouvi aquele canto. Só que naquele contexto, no mar, longe da areia, o corpo está em estado de alerta; tudo que soa diferente gera temeridade. Mas isso foi só num primeiro momento, depois o canto trouxe um estado de tranquilidade. Ainda nem sabia então que o “canto” era um canto mesmo, a música das baleias...

 

Estudos recentes publicados no periódico Science descrevem como alguns animais não humanos compõem música. Análises de cantos de aves e baleias-jubarte mostram que eles usam algumas das mesmas técnicas acústicas e de composição que os humanos. O canto das baleias contém até refrãos rimados e intervalos, fraseados, duração e tons similares. As baleias também usam rimas “como dispositivo mnemônico para se lembrar de materiais complexos”, descrevem os pesquisadores. De acordo com esse estudo, as baleias têm, fisiologicamente, uma escolha: elas podem usar melodias arrítmicas e sem repetição, mas optam por cantar (LOUV). (1)

 

Ao que parece, as dicotomias entre corpo/mente e natureza/cultura, tão emblemáticas para nossa civilização, são confluentes em muitos aspectos, sobretudo se consideramos o corte de sentido vertical que redunda dessa separação, em ambos os casos. Vertical porque subentende uma valorização de um dos polos em franco detrimento do outro. No primeiro caso, uma mente que se agiganta e que se sente enclausurada num corpo em processo de atrofia em termos de reconhecimento valorativo. Na segunda polarização, uma cultura hiperinflada mal convivendo, como inquilina inadimplente e orgulhosa, com uma natureza eclipsada – talvez a desvalorização seja proporcional nos dois exemplos. As dicotomias, se for pertinente tal visão, estabelecem um traço hierárquico entre os seus componentes. De modo muito básico, tomamos aqui, a princípio, natureza como algo cuja existência é anterior e independente do homem; e cultura, aquilo que existe a partir dele e de sua ação, mas uma das intenções aqui é justamente refletir sobre essa distinção e separação.         

 

O reiterado esforço humano no sentido de traçar a linha demarcatória entre o seu lado da moeda – a “cultura”, a “sociedade” –, e o seu suposto contraponto – a natureza e tudo que para nós está associado a ela – pode ser um bom indício do quanto essa separação tem sido valiosa para nós. Uma descontinuidade que entende o desenvolvimento da sociedade como afastamento progressivo da natureza e que é da mesma ordem daquela que estabelece distinção entre o homem e os animais – melhor seria, e os outros animais. O limite entre a forma de vida animal mais elevada e a mais rudimentar forma de vida humana tem caráter de sacralidade para nós. É o que nos leva a pensar a insistência e o cuidado com que foi investigada e analisada a questão da diferença específica da nossa espécie. A especificidade seria como o sinal apontando a celebrada ruptura com a natureza. Não faltaram hipóteses nesse sentido. A linguagem, a fabricação de instrumentos, zoon politikon, homo faber (ou oeconumicus), homo religiosus, homo ludens, homo sapiens sapiens..., a edificação da própria sociedade. Em todas, uma indisfarçável desconfiança da natureza e parte do que ela simboliza.

 

Não surpreende que outrora mesmo nosso semelhante tenha sido objeto dessa vontade de distinção. Aqueles povos sem rei, sem lei e sem Deus, estariam imersos por demais na natureza, não poderiam ser considerados como iguais. O antropólogo Pierre Clastres acrescentaria ainda à lista das faltas a ausência de Estado e do imperativo da produção, dois axiomas que norteiam nossa epopeia civilizatória segundo ele (2). E, na verdade, ele procura demonstrar que por trás dessa ausência existe uma intenção deliberada, manifestada pelas etnias em questão, de esconjurar a emergência de tais instâncias, o exercício de um poder que se sobrepõe ao grupo (Estado) e uma perigosa predileção pelo trabalho (uma mentalidade produtivista). Foi preciso muita discussão e o esmero de muitos antropólogos antes de Clastres para que se pudesse reconhecer aqueles “selvagens” como semelhantes, ainda que esse reconhecimento, protocolado na bula pontifical de 1837, muitas vezes pareça permanecer limitado à esfera da letra. Nosso diálogo ainda é mais sobre eles do que com eles.  A ideia de superioridade perante esse novo homem serviu de discurso legitimador para o que ficou conhecido, a partir da sugestão do antropólogo Robert Jaulin, como etnocídio, quando não, o extermínio puro e simples. A missão “civilizatória” se fez cumprir, e toda crueldade ainda se justifica em seu nome.    

 

Restava a barreira em relação aos animais, mas essa também forçosamente foi cedendo espaço conforme o conhecimento sobre esse outro mundo ameaçador avançava. Um dos marcos fronteiriços que se deslocou foi a ideia da suposta promiscuidade sexual em contraste com os interditos sexuais, a proibição do incesto como uma das linhas demarcatórias. Atribuída anteriormente até mesmo aos “primitivos”, a ideia de promiscuidade, hoje, nem aos animais (os outros animais) se adequa. O expediente do controle sob as pulsões sexuais instintivas não está ausente no comportamento de certas espécies, além da nossa. A fabricação de instrumentos também não é exclusividade nossa; a linguagem ainda menos, com cada qual se utilizando daquela que lhe é necessária. A sociedade, para trazer outro exemplo, não é apanágio de nenhuma espécie em especial, como ressalta o autor Serge Moscovici,

 

As colmeias de abelhas e as colônias de formigas serviram mais para tema de discursos morais que de matéria para conclusões científicas. Entretanto afluem as informações, armazenadas e classificadas com muito cuidado por inúmeros pesquisadores. O levantamento das associações estáveis com benefício recíproco, em numerosas espécies, mostrou a correlação entre as exigências do meio e as regularidades dum comportamento eminentemente social. Em suma, existe sociedade em toda a parte onde existe a matéria viva relativamente organizada: ela não começou com nossa espécie, e nada leva a crer que desapareça conosco. Esses estudos demonstraram igualmente que as criaturas não-humanas são capazes de efetuar tarefas que se acreditavam exclusivamente humanas, particularmente aprender e inventar. Primatas, golfinhos e até pássaros possuem faculdades de aprendizagem e criação de novos comportamentos, e delas dependem para seu alimento e reprodução. (...) Por mais baixo e mais longe que se desça na escala da evolução, não se consegue descobrir a existência dum indivíduo biológico totalmente não social. 3    

 

Parece que cada recuo dessas fronteiras tão caras para nós é encarado com resistência, com má vontade, como se fosse dar a mão à palmatória. São como golpes em nosso narcisismo, e, daquelas três famosas rasteiras que esse narcisismo tomou, a do “macaco”, de Darwin, deve ter sido a mais dolorosa. Se bem que não deve ter sido fácil se deparar com o mar de inconsciência em torno do nosso iceberg de racionalidade. E os dois golpes se conjugam de algum modo. A tentativa de dar as costas à natureza pode ser motivada também pelo temor da animalidade latente em nós, com suas pulsões, sua irracionalidade. Se distanciar da natureza seria, em outros termos, simbolicamente impor rédeas, racionalizar nossa têmpera. O corpo, assim visto como o locus da animalidade em nós, deve ser domado, negado, vestido, melhor, revestido de cultura. Isso é tarefa da mente racional. Certo mal estar é um preço a ser pago em nome da convivência coletiva, para a qual, o adestramento dessa corrente submersa de animalidade é conditio sine qua non. As assimetrias convergem, a valorização da “cultura” em detrimento da natureza coaduna-se com a valorização da mente em detrimento do corpo. Mas, Sous les pavés la plage, que assim seja porque só a lucidez não basta.  

 

Esses dualismos e assimetrias valorativas atravessam a rota intelectual adotada pelo ocidente. Não por acaso, as temáticas relacionadas à dimensão do corpo e o seu alicerce natural foram muito menos frequentes nas reflexões dos teóricos das ciências sociais.  Não obstante, o século XXI, confirmando uma tendência já evidenciada no final do século XX, aponta para uma perspectiva diferente, para o aumento do interesse nessas dimensões a muito negligenciadas. Esse novo direcionamento sublinha a necessidade de maior diálogo entre diferentes disciplinas, sendo ele mesmo em grande parte reflexo dessa prática interdisciplinar, uma vez que reverbera a crítica inaugurada em certas correntes filosóficas contra essas dicotomias. Ressalta-se aqui uma tradição na qual o filósofo Nietzsche figura entre os destaques, mas que se remete, retrocedendo ainda alguns passos, a Espinoza, e abarca, numa delimitação que não se pretende estrita, autores de disciplinas diversas como Gabriel Tarde, Michel Foucault, Bruno Latour e Tim Ingold. Tradição que, em contrário à tendência limitante e simplificadora do dualismo, afirma a complexidade da realidade e a necessidade de lidar com essa complexidade ao invés de escamoteá-la por intermédio de fugas metafísicas e estratégias teóricas como as explicações dualistas. O monismo seria aí um outro tipo de resposta mais condizente com essa complexidade do real. Monismo que propõe, entre outros, o rechaço da separação entre corpo e mente. O corpo não é mais visto como um obstáculo, mas muitas vezes como um critério epistemológico de suma relevância, uma vez que, por exemplo, para certos autores dessa tradição, é preciso reconhecer a relevância do protagonismo do corpo e perguntar sobre a posição de quem expressa um discurso, esse sujeito faz parte de uma minoria étnica ou social, ele representa determinado interesse? São questões que ganham relevância. Isso também é um modo de afirmar a realidade concreta em sua complexidade.

 

Em sentido confluente, Gabriel Tarde, por exemplo, procura ultrapassar a fronteira entre sociedade e natureza, analisando os elementos do real não como entidades isoladas – identidades – mas como conjuntos de relações, afirmando assim a complexidade e o liame entre as coisas, sejam elas pertencentes ao que se costuma chamar de sociedade ou ao que se entende por natureza. O humano já não figura mais como a categoria de análise por excelência, o eixo único que formata um sentido estruturante para a realidade. Mundo cultural e natural se entrecruzam, e desvelar as linhas de contato entre essas dimensões é mais coerente que supor um pretenso distanciamento entre elas. Nessa linha de raciocínio o antropólogo Tim Ingold (4)  rejeita a noção de objeto como algo que está posto e acabado ao dispor de nossa inspeção – ideia que traduz uma imagem de fixidez –, em favor da ideia de coisa, algo dinâmico, um lugar onde vários eventos acontecem e se entrelaçam no fluxo contínuo dos processos vitais. O seu exemplo da árvore é ilustrativo, nesse sentido. O que é uma árvore, onde ela começa e termina? Os animais que habitam sua materialidade também podem ser considerados árvore? E as partes que não estão à vista, as raízes, por exemplo, onde começam e até onde vão? O que se revela ao observarmos uma árvore sob esse ponto de vista é um transbordamento incontido, um processo de troca ininterrupto, um emaranhado de fios vitais, uma malha, e esses fluxos de formação é que devem ser o alvo primordial de interesse das análises que intencionem se aproximar da complexidade do real. 

 

O contato com essa gama de autores, e o contraste entre essa abordagem alternativa e a clássica, despertou um interesse de reflexão ligado a uma experiência pessoal prática. Ainda que esse debate seja teórico, sabemos que traz desdobramentos práticos cujos reflexos podem ser notados no funcionamento e nas diretrizes de certas instituições, por exemplo. A escola é uma delas, sendo que esta instituição, em especial, parece ser bastante resistente, refratária a esse tipo de reorientação e, muitas vezes, funciona como mecanismo mantenedor de concepções em franco declínio.

 

Sobretudo, enquanto prática social, a educação que se pretendeu desde a Paideia, do latim educare derivado do verbo educere: “conduzir para fora”, preparar e lançar o indivíduo para o mundo assinala um modo de ser que perfaz nossa história ocidental neste corte que separou, em sucessivas etapas, a unidade da diferença, a luz da escuridão, o corpo do espírito, o homem do Cosmos, sofrendo as consequências de um mundo civilizado coroado pelo Iluminismo que tudo quis desvelar, entender, explicar, solucionar para dominar. E aqui dominar o corpo, os instintos, a história, o próprio destino como tentativa de evitar o caos, rebaixando cada vez mais a complexidade, desmerecendo a infinita e misteriosa teia de relações que tudo perpassa.

 

Assim a ideia de indivíduo e de mundo alterada ao longo do tempo modifica o sentido do sujeito-objeto e objetivos da educação. O sentido de educar para a ética e perseguir o ideal de cidadão perfeito e completo da Grécia antiga, como aquele capaz de desempenhar um papel positivo na sociedade foi substituído pelo substrato produtivista que dita as regras do valor muito mais pelo que se possui como consequência do que foi produzido. O trabalho agora passa a ser meio para este fim último e enquanto consolida-se a dinâmica do ter declina-se o ser, substantivando nossa experiência do real.

 

A confiança num projeto de controle e dominação da realidade, na pretensa luz de uma Razão sem sombras a negar a tensão necessária própria do diálogo, da troca, da complementaridade, produziu homens cerceados em suas escolhas ou até mesmo incapazes de escolher. Enquanto na Paideia grega, a busca da medida era a mais alta sabedoria, atualmente vivenciamos a hybris: uma transgressão, uma desmesura.

 

Foi com esse tipo de questionamento que surgiu a vontade de refletir sobre as escolas que frequentei, seja como aluno ou em outro tipo de situação. Lançar um rápido olhar, preocupado, sobretudo, em como essas escolas lidavam com o corpo e com a natureza, era a grande prioridade.  

 

Olhando em retrospecto, não seria absurdo afirmar que a melhor expressão para resumir a atitude em relação ao corpo nas escolas que conheci é esquecimento. O único momento em que o corpo era levado em consideração era nas aulas de educação física, cinquenta minutos por semana, que se resumiam quase que totalmente a um ensaio das coreografias a serem executadas nos desfiles cívicos em que a escola participava. Mas conheci também escola em que a aula de educação física não passava de uma mera formalidade, uma vez que nem mesmo um espaço para atividades físicas a escola possuía. Imagino que essa experiência seja muito comum e que ainda hoje o corpo seja esquecido na maioria das salas de aula. Tal atitude em relação ao corpo não é inócua, sendo que uma das coisas que ela “ensina”, de modo continuado e reiterado, é a negligência em relação ao corpo. Paulatinamente nos tornamos surdos ao que ele tenta nos dizer, aprendizagem que muitas vezes levamos para o resto da vida. Nossos sentidos também são afetados por esse esquecimento, tornam-se atrofiados, e isso só para citar brevemente alguns desdobramentos.

 

Com a natureza, a atitude não foi diferente. Em nenhuma escola que conheci havia qualquer tipo de preocupação em estreitar os laços com a natureza, promover atividades ao ar livre ou coisa do tipo. É como se a natureza estivesse lá e nada teria a acrescentar em um processo de formação. Aqui a expressão lapidar seria distanciamento. Afastamento que redunda, entre outros, em desvalorização e numa mentalidade que entende a cultura como independente e separada da natureza. De modo mais geral, uma consequência desses aspectos é uma cultura, uma civilização que dá as costas à natureza. Os resultados de tal atitude são vistosos – o desequilíbrio ambiental é o mais saliente. Nesse sentido, o autor Richard Louv (5) sugere o termo transtorno do déficit de natureza para descrever os efeitos, no ser humano, desse distanciamento em relação à natureza. Observando nossa civilização, parece que tal transtorno é hoje epidêmico. É hora de abrir espaço para ouvir a música das baleias.

 

 

1   LOUV, Richard. A última criança na natureza. São Paulo: Aquariana, 2016, p. 45.  

 

2   CLASTRES, Pierre. Sociedade contra o Estado. In: Sociedade contra o Estado. São Paulo: Cosac Naify, 2012, pp 201-231.

 

3   MOSCOVICI, Serge. Sociedade contra Natureza. Petrópolis: Vozes, 1975, p. 24.

 

4   INGOLD, Tim. Trazendo as coisas de volta à vida: emaranhados criativos num mundo de materiais. In: Horizonte antropológico, Porto Alegra, Ano 18, n.37, pp. 25-44, jan./jun. 2012.  

 

5  Op. cit. p. 58.

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