RUMO A UMA SOCIOLOGIA DO MAL: Genet, Latour e a Ética Alternativa

August 16, 2018

 

No oceano de elementos que poderiam ser considerados, o tema do “mal” é, sem dúvida, um dos que mais chamam atenção em Jean Genet, sendo até o seu aspecto mais importante, ao menos para autores como Sartre e Bataille. Essa característica acaba sendo tão intensa que ultrapassa as fronteiras de construção dos próprios personagens, fazendo dela um evento coletivo, estranho e penetrante. Esse mal é acompanhado por um suporte concreto, um corpo, não sendo um movimento abstrato, muito pelo contrário. Esse mal deixa rastros na linguagem, ao impactar no modo como as palavras são conectadas entre si. Ele poderia ser visto como uma metáfora, já que se presentifica em algumas cenas, embora o seu conteúdo transborde qualquer limite semiótico, sendo aos poucos definido por sua intensidade, pelo impacto que gera, assim como o critério pragmático usado pelo sociólogo Bruno Latour em seus ensaios, ao herdar muito da filosofia de William James. Como toda metáfora, ela aponta para além de si mesma, indicando uma realidade mais genérica e compartilhada, sem com isso escorregar em algum espaço caótico.

 

Já no filme, Querelle desperta tanto a atenção dos outros personagens, assim como seus estados emocionais, o que acaba criando um elo indireto entre todos, como se houvesse um tipo particular de comunhão momentânea, uma convergência coletiva para um mesmo estado sensível, quase como no universo espinozano em que tudo permanece dentro de uma mesma ontologia, dentro de um mesmo espaço de associações. Nada parece estar além ou aquém, mas sempre “entre” os encontros, fazendo parte das suas configurações, aquilo que Deleuze chamou de rizoma e Latour, de rede. Querrele, da mesma forma, parece estar em toda parte, sempre na horizontal, como uma substância presente em cada fresta das relações e da própria linguagem; ele é aquela centelha que ameaça e provoca tudo ao redor, ao mesmo tempo que conecta a todos.

 

Como os atores em Bruno Latour, Querrele não é apenas um indivíduo, uma célula autônoma vagando por aí, muito pelo contrário. Querrele é uma rede de relações, um espaço de encontros, ou seja, ele é muito mais definido pelo seu movimento, pela sua capacidade de conexão, e até mesmo pela resistência que exerce diante do leitor. Esse personagem de Jean Genet, como os elementos na sociologia latouriana, não é uma projeção de um sujeito qualquer, de um leitor, nesse caso. Ele tem vida própria, uma trajetória própria, ás vezes até mesmo se chocando com aquele polo mais subjetivo, a que os kantianos se acostumaram. O que é a leitura para Jean Genet? A leitura, como a pesquisa científica para Bruno Latour, é um cruzamento de trajetórias, um espaço onde o trajeto do cientista (leitor) encontra o trajeto do personagem (objeto), criando assim o que muitos chamam de verdade. A leitura e a verdade científica são melhores definidas enquanto uma negociação constante entre os elementos envolvidos, ao invés de alguma estrutura unilateral.

 

Assim como Balzac, em sua comédia humana, o desgaste das relações sociais, seus desencontros e, principalmente, sua fragilidade, não são encontradas em alguma instância externa, em alguma interferência trágica, mas, ao contrário, é a matéria constituinte desses próprios laços sociais. Seguindo o mesmo curso, em Querelle o mal não é uma externalidade, alguma coisa que se apossa dos agenciamentos, os colonizando de cima, como se fosse alguma estrutura ou sistema, ao contrário; ele é uma substância que compõe os encontros, todos os encontros, embora aquela hipocrisia cotidiana pense diferente, ao acreditar que existe uma fronteira clara entre as coisas, ou mesmo alguma estrutura ética óbvia, algum tipo de sistema de valores, ao mesmo tempo em que um sentimento de superioridade se forma.   O superior, aqui, curiosamente, não define a si mesmo por suas condições materiais, como dinheiro, posses, nem mesmo por alguma posição social privilegiada; pode ser, inclusive, o contrário.

 

Esse aristocrata moral, digamos assim, carrega, ou acredita carregar, o selo de virtude estampado em seu corpo, imaginando ter consigo critérios, expectativas e escolhas privilegiadas, em contraposição ao mundo corruptível, transitório e insignificante de outras pessoas. Em Querelle, essa figura não existe, assim como em Latour. Todos participam de uma mesma dança imanente, ás vezes tensa, estranha e até mesmo perigosa. A responsabilidade com o excesso, e com os efeitos do que é dito, perde seu cinismo exagerado, ao não ser mais uma lança apontada para um outro, mas um procedimento voltado contra si mesmo. Em outras palavras, a ética é um assunto de mundo, de imanência, de cotidiano, daquelas mínimas relações que atravessam cada instante. A ética não se sobrepõe à rede, a colonizando de alguma forma; muito pelo contrário. A ética é a própria rede, nada mais e nada menos. Como Querrele, ela não é um além ou aquém, uma transcendência ou um transcendental, mas sim um “entre”, um ponto de contato, aquilo que Deleuze chamou de “dobra”.

 

O mal, enquanto instância ética, é definido agora negativamente, o que significa que não é um mero discurso, ou uma externalidade, mas um resultado direto da própria trajetória do indivíduo, de sua própria linguagem, do simples encadear de signos e de sua circunscrição no mundo. Na medida em que ocorre essa circunscrição, e a realidade passa a ser definida, e a prática tem início, é criado ao redor uma espécie de sombra, um tipo excesso. O mal, não sendo nada de positivo, é uma consequência direta da própria experiência, do próprio movimento de costurar o mundo e conferir sentido ao seu contorno. A linguagem e a ética andam lado a lado, já que ambas são matéria, corpo, não mais coisas escondidas nos bastidores. A linguagem não é uma ponte abstrata, uma estrutura diferencial qualquer, mas espelha a rede de encontros que atravessa o mundo, especialmente ao usar o recurso das preposições, os seus pontos de contato, as suas estratégias de enriquecimento. Em Latour, como era em James, termos como “Para”, “Por”, “Com”, “entre”, “até”, além de muitos outros, acabam sendo estratégias para enriquecer mais a linguagem, ao tornar seus contornos algo vivo, um prolongamento do próprio mundo, das suas associações.

 

Assim como a ética tem o seu excesso, aquilo que chamamos de mal, a linguagem carrega também esses pontos de ruptura, de resistência, de recalcitrância, como diria Latour. A linguagem, e a ética, simplesmente existem porque o mundo é uma serie de negociações, um espaço nem um pouco confortável, já que carrega tantos vetores de sentido. Se a realidade fosse apenas uma projeção de algum sujeito, a ética e a linguagem seriam ferramentas inúteis, já que tudo seria apenas um desdobramento da conveniência de alguém. Por outro lado, se a realidade fosse apenas um traço externo, objetivo, a ética e a linguagem também seriam inúteis, já que bastaria apenas contemplar as coisas ao meu redor. Em outras palavras, a ética e a linguagem fazem apenas sentido em um mundo não dualista, em um mundo para além do subjetivo e do objetivo, um mundo de negociações, de trocas, um mundo diplomático.

 

Mesmo o narrador em Querelle traz em si esse transbordamento, essa figura do mal, já que não é onisciente. Assim como em Kafka, o que é narrado por Genet possui já, logo de inicio, tanta brecha, tanta falha, fazendo com que narrador e personagem acabem convergindo para um mesmo ponto de indefinição, em que o excesso é uma constante. Ao invés de costurar os eventos do enredo dentro de alguma totalidade interpretativa, de alguma matriz transcendental qualquer, inclusive antecipando algum desfecho, o narrador se perde no turbilhão de seus próprios comentários, não menos intensos do que aqueles de seus personagens. As cenas parecem muito complexas para serem descritas, já que envolvem tantas linhas de força, tantos vetores de sentido, não apenas dos personagens, mas do próprio cenário, esse extremamente marcante. As gaivotas do cais, o barco, as garrafas no bar, as casas ladeando as ruas, não são acessórios para Jean Genet, assim como os objetos em um laboratório não são detalhes para Bruno Latour. Esses elementos não apenas participam do que acontece, mas são o próprio acontecimento, sendo o substrato da própria narrativa, em Genet, ou da própria verdade científica, em Latour. No filme, embora o narrador esteja disperso entre várias figuras que reivindicam a mesma função, ele continua cercado por um névoa compreensiva, apenas descrevendo o que existe ao redor, capturado por um mundo que não consegue nomear. O fluxo parece intenso demais, descentrando o narrador de uma forma que nem mesmo ele consegue perceber.

 

Dentro do desenrolar prático que configura a experiência humana, estamos, na verdade, acostumados a pensar o mal como oposto ao bem, como um termo antagônico qualquer, quando, na verdade, ele pode ser concebido como justamente seu desdobramento espontâneo, uma espécie de efeito colateral, uma resultante da própria bondade ela mesma. Sem dúvida, quebrar esse dualismo não é fácil, não é um exercício simples, muito pelo contrário. A linguagem dualista é conveniente, porque estrutura tudo de antemão, antes mesmo do desenrolar dos encontros, antes da própria realidade fluir com seu movimento oscilante.

 

Quando o dualismo quebra, quando a linguagem racha, as fronteiras começam a bagunçar, como acontece com os personagens de Jean Genet, ou mesmo com as categorias criadas por Bruno Latour. A linguagem passa a ser uma rede de conexões, ao resgatar um ritmo da própria realidade, deixando de lado toda pretensão, ao mesmo tempo que abraça um novo modo de organizar as ideias. Esse mal em Genet, assim como a rede em Latour, não são realidades capazes de serem representadas, já que não fazem parte de nenhuma categoria, mas estão dissolvidas no próprio fluxo dos encontros, na imanência do mundo. As descrições de Jean Genet, ou os ensaios de Latour, sugerem bem essa virada linguística, digamos assim. Ao contrário da primeira, aquela wittgenstiana, essa nova virada linguística não absolutiza o signo, não o torna o único vetor de sentido. Ao contrário, a linguagem, agora, mais do que nunca, passa a ser um ponto de encontro, um espaço onde o mundo pode convergir, principalmente em seus instantes de excesso, de ruptura, de mal.

 

REFERÊNCIA DA IMAGEM

 

http://blog.zacscy.com/2016/12/08/am-i-a-bad-person-well-its-its-complicated/

 

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