Ansiedade: inimiga ou aliada?

August 18, 2018

 

 

 

Começando a minha coluna, queridos leitores, quero falar sobre esta que, ao meu ver, é uma das maiores enfermidades que acometem o ser humano na atualidade: a Ansiedade.

 

É bem verdade que ela anda de braços dados com a depressão, outra grande causa de incapacidade do séc. 21. No entanto, esse é um assunto para outro momento. Meu foco aqui é a nossa “queria ansiedade”.

 

De acordo com a OMS, pasmem: o Brasil é o país com a maior taxa de pessoas com transtornos de ansiedade no mundo - 9,3% dos brasileiros sofrem de algum deles. Este índice é alarmante e só tende a crescer, devido à escassez de políticas de promoção de saúde mental em nosso território.

 

Mas porque este fenômeno vem crescendo de tal forma?

 

Em primeiro lugar, é  importante entender como funciona o mecanismo da ansiedade. Por ser uma das nossas emoções primárias, ela nos acompanha desde o tempo do homem primitivo. Naquela época, a humanidade estava à mercê de perigos reais e diários: ataques de animais selvagens, busca de alimento, intempéries do clima, conflitos entre tribos, etc.

 

O “homem das cavernas” precisava ser precavido, estar em alerta, ter planejamento, se preocupar com uma infinidade situações adversas. Essas características se encaixam bastante à configuração de uma pessoa ansiosa, concordam?

 

Pois bem, quem teve esse perfil, ansioso ao extremo, foi bem sucedido em sobreviver, mais adaptativo naquele momento.

 

Desde então, nosso corpo reage ao possível perigo interpretado pelo cérebro, como se ,diante de nós, ainda estivesse um tigre-dente-de-sabre prestes a nos atacar. Nesta hora, o Sistema Nervoso Autônomo Simpático entra em cena e envia mensagens para todo nosso corpo, nos preparando para a famosa Luta ou Fuga.

 

E o que acontece? O coração trabalha cada vez mais rápido para bombear mais sangue, pois temos que agir. Somos invadidos por todas aquelas reações fisiológicas desagradáveis (taquicardia, respiração ofegante, tremores, suor, sensação de desmaio, etc.) que se mostraram tão úteis aos nossos antepassados.

Porém, hoje em dia, ser uma pessoa ansiosa não é mais tão adaptativo assim. Isso torna preocupados, incomodados, insones, irritadiços. Talvez, o perigo não seja mais real em todos os momentos, mas muitos o enxergam desta forma. Agora, nosso tigre é a possibilidade de falar em público, fazer uma avaliação ou uma entrevista de emprego, usar o elevador, dar de cara com uma barata, ou, simplesmente, o nosso tão temido futuro. Estes e muitos outros são nossas reedições das nevascas ou oponentes de tribos rivais.

 

A grande questão é que a ameaça pode ser fruto dos nossos pensamentos, muitas vezes  infundados, mas em grande parte convincentes. Eles têm o potencial de alimentar a ansiedade e, para lidar com isso, começamos a nos preocupar e a evitar uma infinidade de situações, objetos, ações.

Expliquei todo esse caminho do “Alarme falso" ansioso, para chegar na discussão da relação que temos com o qual eu considero o nosso maior tigre atual: o futuro.

 

A ansiedade é aquele visitante que nos estende a mão para um passeio, e nos levando a navegar pelo mares dos “E se's", das antecipações, das previsões, do que de pior pode nos acontecer, do “toque de caixa", da cobrança excessiva, da rigidez, da perfeição, do planejamento exagerado. Ela nos confunde, nos desfoca, nos leva longe. Não estamos vivendo nossa vida, estamos vivendo uma versão que pensamos que esta terá daqui à trinta minutos, dois dias, um mês, ou três anos.

 

Quando você se dá por conta, leitor, o dia se foi, o mês passou e chegaram aqueles anos que você tanto projetou. Mas, será que você viveu aquele dia, se lembra do mês, aproveitou os anos? Será que quando finalmente eles chegaram você estava lá ou já estava duas horas à frente? Infelizmente temos observado isso como fenômeno social, cada vez mais essa é a regra. E a utilização desregrada da tecnologia não ajuda muito.

 

O que estamos fazendo com o nosso presente? Chegamos num ponto de só observá-lo quando se torna passado? Nesse momento não podemos mais interferir nele e o curioso é que pensamos tanto no futuro, que esquecemos de um fato crucial: o que estamos fazendo neste momento é o que irá impactar nele, não o contrário!

 

Outro ponto a se pensar nessa dinâmica ansiosa na qual vivemos é o sofrimento por antecipação. Quem nunca se pegou experimentando sensações ruins de algo que nem aconteceu ainda? Vamos criando cenários terríveis para o que este tão visitado futuro nos reserva. E como saber? Exatamente, amigo: não se sabe, nunca! Mas nós achamos que podemos adivinhar e criamos nossa própria agonia. É como colocar um curativo em uma ferida que ainda nem existe.

 

E vocês podem pensar, diante de toda essa exposição: “Agora eu entendi. A ansiedade é a vilã! Vamos eliminar essa inimiga e tudo ficará bem.”

 

Ledo engano, não estou trazendo tudo isto à tona para provocar o sentimento de que devemos litar contra a ansiedade. Ela tem função importante para o ser humano, como cada uma das emoções, por mais desagradáveis que se apresentem. Precisamos acordar pela manhã e ter motivação, realizar nossas tarefas, ela nos impulsiona. Ela também nos defende nos momentos de perigo verdadeiro.

 

Escrevi tudo isso, para que nos questionemos na forma em que estamos lidando com as nossas emoções, em particular, com a ansiedade. É exatamente esta visão que podemos ter dela como inimiga que nos aflige e adoece. Ela faz parte da nossa vida e é necessário conhecê-la para que quando venha nos visitar, não nos apavore tanto.

 

Devemos vê-la como uma visitante inesperada, não como uma oponente a ser combatida.

 

Penso que precisamos nos esforçar para viver nosso momento atual, não embarcar no passeio para o qual essa visitante nos convida. Tentar aproveitar as pequenas amenidades, como um banho, um café, uma conversa, o vento soprando em no rosto, uma refeição, uma música que toca, a visão do mar. São esses pequenos e sucessivos momentos que constroem quem somos e nosso futuro.

 

Precisamos ter em mente de que não somos nossa ansiedade, ela virá nos visitar e depois ira embora. Cabe a cada um de nós resolver quanto tempo ira hospedá-la e como irá interagir com ela.

 

Link da imagem: https://psicologafabiola.com.br/ansiedade-tratamento/

 

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