O Amor Platônico

September 3, 2018

 

 

 

Desejamos o que não temos. Este desejo, esta falta de alguma coisa que deve nos completar, é a busca por algo superior, belo, perfeito. Buscamos nas coisas, nas pessoas, nos eventos, alguma satisfação, porque nos sentimos totalmente incompletos. Mas, nunca estamos plenamente satisfeitos. Por quê? Na visão de Platão, no Banquete,  através da fala de Sócrates, o desejo é ininterrupto; é amor minúsculo. Quando alcançamos o objeto desejado já estamos visando outro. É um saco sem fundo! A completa insatisfação leva-nos a identificar, de forma equivocada, a plenitude na coisa particularizada.

 

Como escapamos desse aprisionamento? Alcançando o Amor verdadeiro. Para Platão, só é possível alcançar esse Amor maiúsculo, imortal, eterno, despertando em nós mesmos esse sentimento original.

 

Platão adquiriu o conhecimento dos pitagóricos, baseado nas crenças órficas, do qual crê no Homem original, uma natureza verdadeira, que perdeu sua identidade com a Essência. O personagem Aristófanes, em O Banquete, fala que é esse primitivo humano era um andrógino. Se lerem Gênesis verão que Adão pode ser interpretado também como andrógino. Várias tradições falam do mesmo aspecto. Contudo a intepretação é alegórica.

 

Mas, voltando a Platão, para alcançar o verdadeiro conhecimento das coisas, é preciso sair das aparências do mundo. Sair da caverna. Através da contemplação,  introspecção e uma série de práticas de purificação, é possível transcender a ilusão da mortalidade. Obviamente, que é esse processo é árduo, pois somos acometidos a todo momento por afetos e  falsas promessas de felicidade e amor, sem nos identificarmos com nós mesmos. Contudo, só se alcança a suprema elevação, a áskesis, com uma grande investigação interior.

 

Como o filósofo grego olharia o mundo contemporâneo e seus dilemas?  A primeira coisa que parece bastante possível discutir, é que a busca por algo, por uma satisfação que complete nossa falta, parece muito associada, nos dias atuais, não só ao sexo, mas ao consumo, ao entretenimento, ás drogas e outros tantos desejos. Na prática, significa que tentamos suprir algo de qualquer jeito, utilizando todos os meios. A consequência disso é a depressão, o tédio,  o suicídio.  Ao se ver mergulhado em um mundo complexo, com vários cardápios,  o indivíduo contemporâneo sente uma angústia superlativa do qual não consegue explicar, pois não atingiu a maturidade consciente do que realmente importa na vida. A origem de muitos  problemas que acometem as pessoas está na psique. Não atoa, fala-se muito em desenvolver a saúde mental.

 

O que as lições platônicas ensinam é que para alcançar o domínio da vida, o autoconhecimento, é necessário interrogar-se sobre nossas ações, as crenças e o que nos foi legado como verdades. O que significa? Que o verdadeiro Amor, a verdadeira identidade entre a felicidade, o belo e a autossuficiência, só é possível de ser alcançada através da aproximação com o Ser. E esse trabalho é solitário.

 

 Enquanto o corpo for aprisionado pelos desejos, pela inconstância das paixões vis, não é possível encontrar o Amor verdadeiro, espiritual. Bem próximo das lições de Cristo, não?!

 

O mundo é apenas uma ilusão criada pelos sentidos, e o apego à vida gera o sofrimento. Completamente diferente da ideia dos filósofos vitalistas, como Nietzsche! Não é que Platão esteja dizendo que devemos pensar na morte física, mas em uma morte simbólica. E para cessar com o sentimento ininterrupto da falta, que busca inconscientemente a plenitude do humano original, é preciso morrer em vida. Há várias passagens bíblicas que se assemelham à mesma ideia: “Jesus declarou: Digo a verdade: Ninguém pode ver o Reino de Deus, se não nascer de novo” João 3:3.

 

Assim, caros leitores, o Amor platônico, é verdadeiramente, o Amor universal,  que encontra a imortalidade em todas as coisas.  Só na condição de filósofo, ou seja, de conhecedor sobre os Mistérios da Vida e da Morte, aquele que busca a sabedoria, que reflete sobre a existência, é possível alcançar o desapego e a suficiência. "Uma vida não refletida não vale a pena ser vivida". ( Platão)

 

 

Fonte da imagem: https://br.pinterest.com/pin/407786941243193273/?lp=true

 

 

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