• Alan Rangel

Reflexões sobre as eleições de 2018 no Brasil

“Só com esforço é que os cidadãos dos países democráticos se afastam de seus afazeres particulares para se ocupar de assuntos comuns; sua tendência natural é entregar esse cuidado ao representante visível e permanente dos interesses coletivos, que é o Estado. Não só lhes falta o gosto de ocupar com o público, como não dispõe de tempo para fazê-lo. A vida privada é tão ativa, tão agitada e tão cheia de solicitações e de trabalho, que quase não resta energia e nem lazer a um homem para se entregar à vida pública”. (Alexis de Tocqueville, Da Democracia da América, p.353) [1]


As palavras acima, escritas no século XIX, pelo pensador e político liberal francês, serve muito bem para olhar o momento atual. Acompanhando as eleições deste domingo, 09 de outubro, observando os políticos eleitos, a sensação é que esses 33 anos de Democracia no Brasil não houve projeto sério voltado à democratização política, á formação de cidadãos democráticos para além do voto.


Na prática, o cidadão comum, mediano, não introjetou os chamados valores republicanos e democráticos, e não houve atenção por parte dos governos anteriores a esse aspecto, que, ao meu ver, é crucial para pensar em uma sociedade democratizada. Sem a cultura do espírito cívico, uma cultura política mais enraizada, não existe possibilidade de fortalecimento das ideias liberais e republicanas.


A sociedade brasileira carrega traços de uma modernidade sólida, usando a terminologia do sociólogo polonês, Zygmunt Bauman, pois traz consigo autoritarismo, populismo, patriarcalismo, famílismo tradicional, valores seculares religiosos que , objetivamente falando, não agregam ao espírito público democrático. Tais referências passadas buscam supostamente uma solidez e segurança frente às inseguranças sociais.


Ao eleger candidatos avessos à diversidade, que olham desconfiados para a liberdade e a diferença, presas em si mesmas em uma visão unitária de sociedade, um ideal de família, de sexualidade, e um padrão de moralidade atemporal, em nada contribuem para pensar o presente e construir, dentro de um pensamento democrático, algo coletivamente real.


Não adianta também pensar, como fazem algumas alas da esquerda, em algum projeto de sociedade futurista, baseados em conceitos e artifícios teóricos, na esperança que estaremos suspostamente no cume da civilização, e livres da barbárie e da opressão. É preciso, repito, olhar para o presente, preservar as nossas instituições; é necessário aperfeiçoar as lacunas que impedem uma sociedade mais democrática, com reformas pontuais e moderadas. Mais do que isto, é aventura.


Ficou claro que os valores conservadores no Brasil são muito arraigados. O conservadorismo popular, de matriz cristã, faz parte do mundo da vida dos brasileiros. E é preciso entender essa dimensão. No entanto, é fundamental desenvolver uma pedagogia democrática: introjetar que na vida pública, os nossos preconceitos, concepções, imaginações e idealizações de algum tipo de sociedade boa, não podem estar acima do espírito da diversidade, da liberdade e igualdade, pois vivemos em um Estado Democrático de Direito, que é laico. E nesse Estado, ninguém é superior, pois todos estamos submetidos à mesma lei, às mesmas regras. Não existe cultura, cor, religião, região, sexo, gênero superior moral e legalmente. Ninguém está acima de nada na vida pública.


No que pese às mazelas sociais, fruto de uma patologia de espírito aristocrático na política - resquícios de um passado ainda forte -, da desigualdade econômica, social e racial brutal que vive o Brasil a séculos, e da falta de ética, precisamos enfrentar o câncer do privatismo; pois, se assim não for, é impossível um espírito cidadão democrático, preocupado com negócios públicos, fluir e desenvolver-se.


O cenário a encarar é que o cidadão brasileiro, em sua massiva parcela, resume-se a um mero consumidor ávido, não politizado, desprovido de uma cultura democrática preocupada com a esfera pública. A tirania do individuo consumidor à frente do cidadão político, abre espaço para discursos redentores e despóticos, povoados de cargas emocionais e tentações carismáticas.


Por fim, parafraseando Tocqueville, através de Bauman, na obra Modernidade Liquida: O individuo é o pior inimigo do cidadão.


[1] Tocqueville, Alexis. Da Democracia na América. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1998.


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