As eleições de Saturnália

November 10, 2018

"Ave, Caesar! Io, Saturnalia!", quadro de Sir Lawrence Alma-Tadema, 1880.

 

Datado por volta do último século antes de Cristo, o Festival de Saturnália era uma comemoração romana em homenagem ao deus Saturno (ou Cronos para os gregos), que servia para celebrar o fim da colheita. Além dos sacrifícios feitos, banquetes ofertados e presentes trocados, a característica distintiva deste festival era – além do período em que patrícios e escravos ficavam em pé de igualdade – o arredamento temporário das leis em Roma.

 

Com isso, além da quebra temporária da hierarquia social, o fechamento de tribunais e proibição da aplicação da justiça, todos os crimes eram permitidos, inclusive os assassinatos. A primeira lembrança que esse festival me remete é ao famoso estado de natureza, que concebido pelo filósofo e matemático – que segundo um saudoso professor, deveria ter sua obra magna, O Leviatã, lida de joelhos e sua imagem carregada em um andor – Thomas Hobbes (1588-1679), nada mais seria uma situação hipotética, onde a única instância recursal para qualquer um seria a sua própria força. Para quem não é do ramo, basta pensar quando teve greve da polícia militar.

 

Com efeito, a segunda lembrança – infelizmente mais recente – é a das eleições deste ano. Óbvio que chega a ser injusto com o pleito eleitoral, principalmente porque o cardápio de absurdos que nos tem enjoado – quando menos, enojado – não é de agora. Não esqueço a definição procedimental de democracia, que a define basicamente como uma competição livre das elites políticas pelo voto, igualmente livre, do eleitor. E quando se trata de competição pelo poder, ninguém entra para perder. Mas como nos alerta o poeta romano, est modus in rebus – há um limite nas coisas.

 

O agora eleito presidente, Jair Bolsonaro, vem nos agraciando com um sortilégio de ofensas, como fez na sessão de admissibilidade do processo de afastamento da ex-presidente Dilma Rousseff, em que saudou a memória do coronel Brilhante Ustra, eminente torturador nos idos da ditadura militar. Nas eleições, não faltaram frases e declarações odientas, tratando aos coices – ou fuzis “para metralhar a petralhada” – adversários e a própria legitimidade do sistema eleitoral. Mas não, ele não estava só. Seus pimpolhos e aliados não fizeram por menos: na versão tupiniquim da Saturnália, teve de profanação à memória de Marielle Franco, à simplicidade de fechar a mais alta corte do país. Mas quando um ministro da própria corte diz que há gabinete “distribuindo senha para soltar corrupto”, como fez irresponsavelmente o Luís Roberto Barroso, não é de esperar que o “jovem de 34 anos” faça mesuras ao STF (Supremo Tribunal Federal). Como dizia minha saudosa avó, não se pede aquilo que não se tem.

 

Mas antes que a urticária tome conta de algum apoiador do “mito”, peço calma. Não esquecerei da lamentável declaração do senhor Wadih Damous, que propôs fechar o mesmo STF. Ou mesmo da irresponsável declaração de Geraldo Azevedo, que acusou o vice-presidente Hamilton Mourão de tê-lo torturado. Mourão pode ser culpado de flertar com feitiçarias, como uma “constituição de notáveis”, menos de ter sido torturador durante à ditadura, em plena adolescência. Também não posso me esquecer da obscena ideia de constituinte exclusiva defendida pelo PT no primeiro turno, além do vergonhoso apoio às cruentas “democracias” da Venezuela de Maduro e da Nicarágua, de Daniel Ortega: coisas de deixar Lord Voldemort orgulhoso – ou preocupado. Bastou findar-se o primeiro turno, e tudo isso parece ter virado “erro de digitação de estagiário”. Ok. Como diz uma música do grupo Sorriso Maroto, “fica combinado assim”.

 

Mas o planetário de erros não acaba aí. Aos quilos, notícias sobre violências dos mais diversos tipos se alastraram pelo país, revelando desejos que, se antes tinham como dique o próprio pensamento, parecem ter se libertado da carapaça e ganhado as ruas. À essa onda reacionária e nunca conservadora (porque conservador sou eu e tudo o que está aí não deseja conservar, mas sim retroagir de legados civilizacionais), soma-se à violência cotidiana, que parte de nós, ingenuamente – porque não quero crer em cinismo – jura que será resolvida APENAS com lápis e cadernos, enquanto a outra parte propaga o expurgo do mal com o estéril som dos tiros de fuzis, como muito bem assinala o antropólogo Carlos Cardoso, em seu refinado artigo de ontem. Seguimos enleados, até quando eu não sei, pela incompletude material dos direitos civis.

 

Eis que agora, numa imitação canhestra da dramaturgia shakespeariana – onde após os conflitos, a ordem é restaurada –, temos agora o presidente eleito falando que a “Constituição é o único norte”, pregando harmonia entre os poderes em um tom pacificador, prestando vênias a um governo; que até algum tempo atrás, era tratado aos coices. Bem, se Bolsonaro realmente parece se encaminhar ao abraço enleante do sistema político brasileiro, melhor para todos nós. Para os céticos que desconfiam da real convicção do, diga-se de passagem, legítimo presidente eleito, convém lembrar que Maquiavel e as inconfessáveis experiências entre lençóis – nos ensinam que a aparência e o fingimento têm lá sua efetividade.

 

Não pretendo atravessar para a calçada da ingenuidade, a ponto de achar que a tosca qualidade das retóricas e discursos a que fomos submetidos, não serviu racionalmente como estratégia competitiva. Manter a base eleitoral mobilizada por meio desse recurso serve tanto como pregação para convertidos, como para fazer da radicalização, a pedra de toque eleitoral. Mas infelizmente, isso não vem de agora, pois a peçonha do “nós x eles” já foi inoculada em nossa veia há vários anos e a cada eleição, os sintomas do envenenamento retornam a cada eleição, agora mais lancinantes do que nunca: negação do outro e do passado, além do desprezo pela nossa benfazeja tradição política, advinda da nossa herança ibérica, da conciliação, prudência e incrementalismo.

 

A impressão é de que passamos a considerar tudo isso como “marketing”, parte do jogo político, como se o próprio jogo não tivesse regras. A narrativa de que quando acaba a eleição, as coisas voltam ao seu curso normal, e que o que importa mesmo é como se governa (o que não deixa de ter sua verdade), inconfessadamente aplaude ao Festival da Saturnália a que se reduziu essa última eleição, que também serviu de biombo para os problemas reais do país, paquiderme contemporâneo escondido atrás da ridícula e anacrônica moita das ameaças comunistas e fascistas. Sobra, para os angustiados com as coisas ridículas e que não têm parte nisto tudo, a resignação do fim do Festival da Saturnália e a espera da próxima celebração da colheita.

 

O hediondo Brás Cubas e o mestre Werneck Vianna têm toda a razão: ao vencedor, as batatas.

 

 

 

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