AS CIÊNCIAS HUMANAS NO PAÍS DAS MARAVILHAS: Por que deixamos de ouvir o grito do sujeito comum?

January 17, 2019

 

 

Diante do olhar científico tradicional, aquele presente em laboratórios e pesquisas de campo, o senso comum sempre apresentou falhas, problemas, como se alguma coisa importante faltasse em seu núcleo de funcionamento, o que justifica a ideia da ciência como um tipo de guia, um farol que conduz os olhos rumo ao lugar certo. E se, por acaso, a história for justamente o contrário? E se a falha for da própria ciência? Como resultado dessa inversão, certos impactos aparecem pelo caminho, impactos que ultrapassam as fronteiras do método, da pesquisa, e dos corredores universitários, sendo um deles a própria eleição de Bolsonaro no final de 2018.

 

O Erro da ciência

 

No universo científico somos apresentados a um mundo complexo, cheio de possibilidades, um campo onde nada é o que parece, um espaço onde as variáveis estão por toda parte, jamais sendo simples ou de fácil representação. Um exemplo disso são os artigos de Roberto Briceno-León (2005) e Michel Wieviorka (1997), o que reflete bastante uma tendência de todos os autores do curso, ou seja, um cuidado no modo como a linguagem é usada, assim como os bastidores da própria prática, da própria pesquisa, observando assim seus contornos e, principalmente, seus limites. As várias definições de violência de Wieviorka, passando por cada espaço imaginável, até mesmo naquilo que chamou de metapolítica, é mais um exemplo do cuidado que a ciência tem com sua própria linguagem, o medo de cair em explicações simples, causalidades lineares, além de muitas outras imprudências. O cuidado de Briceno-León com a trajetória da análise, assim como a construção das várias tabelas espalhadas por todo o artigo, também é mais um exemplo desse compromisso da ciência com o cuidado metodológico, com a prudência em nomear, evitando sempre o risco do rótulo gratuito e da fala simplificada. Como cientista, posso não ser neutro, óbvio, mas com certeza preciso de mais cautela do que de costume, um cuidado triplicado, o que não acontece em outros espaços. Até mesmo minha fala, antes espontânea, agora precisa de limites, de regras, de todo um suporte confiável, replicável e, sem dúvida, questionável.

 

Dentro das universidades, no conforto das salas com ar-condicionado, além das suas cadeiras acolchoadas, criamos um ambiente onde a linguagem pode ir além dela mesma, apresentando um mundo repleto de alternativas, abordagens, complexidades, etc. Cada categoria, no olhar científico, nunca é apenas uma palavra, mas algo sempre polido, analisado, expandido, questionado. O olhar científico coloca o sujeito direto em um espaço de múltiplas relações, nunca um vínculo simples e óbvio. Através dos métodos e técnicas sou apresentado a um mundo em rede, cheio de linhas de sentido, demandando de mim mesmo o máximo de prudência, já que a minha linguagem não pode colonizar as coisas, mas apenas acompanhar seu movimento, seus contrastes, ou seja, é preciso seguir o fluxo complexo das relações. E é justamente aqui, nesse solo cuidadoso, nessa linguagem prudente, onde mora o real problema, além do núcleo do próprio ensaio. A vida cotidiana, ao contrário do olhar científico, opera em um registro diferente, alternativo, indo além do que imaginam nossos corredores de humanas. Ela opera em um espaço que poderíamos chamar de pragmático, funcional. O critério aqui não é mais aquele de validade, ou seja, o critério não é mais o verdadeiro, mas aquilo que funciona, aquilo que gera conforto e efeito. Se algo é real ou não, isso jamais importou nesse espaço que fenomenólogos chamam de mundo da vida. Nesse cenário, a linguagem é uma ferramenta, definindo a si mesma pelo seu efeito, pela capacidade que possui de organizar a experiência, de contornar contradições, superar desafios, justificar rupturas. Por esse motivo, e apenas por esse motivo, a complexidade não é bem vinda, já que dispersa o olhar, os culpados, os problemas. Nesse palco da vida, a própria reflexão não é um critério, mas sim o hábito, já que é conveniente, eficaz. A reflexão apenas aparece quando existe falha, quebra, ou seja, quando esse mesmo hábito é comprometido. No mais, as coisas tendem a uma circularidade, a uma manutenção dos mesmos critérios e do mesmo raciocínio. O falibilismo popperiano é um delírio filosófico, jamais encontrado nas calçadas, nas casas e nas padarias.

 

O plano de governo

 

Com suas 81 páginas, o plano de governo de Bolsonaro, sem dúvida alguma, é algo no mínimo estranho. No formato de um slide, muito mal organizado, além de um conteúdo confuso, esse plano tenta condensar suas ideias, sendo bem didático, mas não no bom sentido do termo. As ideias são simplificadas ao extremo, quando não são distorcidas, entrando num claro contraste com aquele cuidado que mencionei no início. Quando chegamos na sessão sobre segurança pública, entramos num terreno mais pantanoso do que de costume, um show de incoerência, descuido, e até mesmo feiura, ao menos na forma como os slides são organizados. Tudo parece seguir um raciocínio confuso e agressivo, como se o propósito fosse muito mais o impacto gerado, do que propriamente a mensagem embutida. Números escandalosos, comparações exageradas, fontes inexistentes, além de toda uma linha conservadora correndo nos bastidores; esse é o plano de segurança de Jair Bolsonaro, um plano confuso, exagerado, distorcido, mas ainda assim eficaz. Por que isso acontece? Será apenas um descuido pontual de um candidato, ou talvez algo de mais profundo, algo presente não apenas nos outros planos de governo, mas na própria estrutura de linguagem da política e do cotidiano.

 

Apesar de seus exageros e absurdos, o que é bem difícil ignorar, o plano de governo de Bolsonaro traz uma coisa especial, algo que vai além dele mesmo. Ele condensa não apenas os outros planos dos demais candidatos, como traz à tona um tipo de linguagem que caracteriza o cotidiano e a política, sendo, ao mesmo tempo, um contraste interessante com o universo científico. Essa linguagem simplificada, essa tendência em buscar culpados, causas lineares, essa distorção do que seria o próprio mundo, acaba sendo um traço não apenas de Bolsonaro, não apenas dos outros planos de governo, mas um detalhe que atravessa todo o cotidiano, ao menos quando observamos de perto a forma como opera, principalmente em seus mínimos detalhes. O abismo entre essas duas esferas (ciência e política), portanto, talvez não seja do tipo ideológico, circunstancial, mas talvez exista aqui algo de mais profundo, algo mais intenso do que muitos poderiam imaginar.

 

Isso significa que aos olhos da ciência a política sempre vai apresentar um abismo marcante, uma falha, um problema. A política, como reflexo do mundo da vida, da prática cotidiana, sempre vai ser precária, simplista e infantil, ao menos quando se comparam as esferas. Por conta disso, percebemos que a falha dos planos de governo, em especial o de Bolsonaro, não reflete um problema de caráter, ou mesmo um detalhe pontual, de um grupo ou partido, mas sim algo estruturante, profundo. Existe um abismo, que precisa ser superado, entre ciência e política, uma fronteira que não pode mais existir. A ciência apresenta um mundo em rede, complexo, dinâmico. O cotidiano, e a política que a acompanha, ao contrário, busca apenas culpados, causas simples e justificáveis. A ciência tem receio no uso das suas categorias, o que resulta sempre em horas e horas de revisão, debate e pesquisa. A política, ao contrário, usa categorias quando convém, já que seu critério é o efeito, é o impacto produzido, nunca sendo o rigor metodológico ou o cuidado diante da linguagem. O compromisso da política não é com a verdade do que é dito, já que a verdade é sempre uma rede complexa e dispersa, um campo de relações, um espaço frágil, sempre aberto a questionamentos. O seu compromisso, ao contrário, é com a eficácia, com a sua capacidade de mobilizar indivíduos e ações, a capacidade de oferecer uma narrativa confortável, conveniente, uma que possa ser de fácil uso e justificativa. É preciso fronteiras claras entre “eu” e o “outro”, entre “meus valores” e os “valores do outro”, circunstância que infelizmente a ciência, ao menos quando bem aplicada, não pode oferecer.

 

Em outras palavras, existe um abismo claro entre política e ciência, um abismo que reflete uma diferente estrutura de linguagem, criando assim dois universos paralelos. Por isso é necessário entender em que medida faz sentido julgar a política pelos critérios da ciência, quando essa mesma política opera em outro nível, com outras regras, dentro de outras demandas. Talvez seja preciso uma outra forma de operar a ciência, uma espécie de meio-termo entre o rigor e o pragmatismo. O rigor não pode ser perdido, porque somos criaturas críticas, reflexivas, e isso não pode sair do nosso DNA. Por outro lado, não podemos abandonar o pragmatismo, já que é a linguagem do mundo da vida, do sujeito comum, principalmente quando tem medo, quando se sente ameaçado. Se o pragmatismo extremo é um problema, porque simplifica tudo ao redor, por outro lado o rigor extremo nos desconecta do mundo real, daquilo que realmente acontece. Começamos a navegar por um mundo abstrato, fantasioso, o que cria uma brecha para que grupos de direita ganhem força e assumam os bastidores do cenário político.

 

REFERÊNCIAS

 

LEÓN-BRICEÑO, Roberto. Urban violence and public health in Latin America: a sociological explanatory framework. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 21, n. 6, pp. 1629-1664, 2005.

WIEVIORKA, Michel. O novo paradigma da violência. Rev. Sociol. USP, S. Paulo, v. 9, n. 1, pp. 5-41, 1997.

 

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