• Alan Rangel

Green book: forte candidato a melhor filme no Oscar 2019

Viggo Mortensen e Mahershala Ali



Na coluna de hoje, irei falar sobre Green book - o guia . É uma comédia dramática com direção de Peter Farrelly e baseada em fatos reais. Tem ótimas atuações de Viggo Mortensen (Senhor dos Anéis) e Mahershala Ali ( Moonlight). A cinematografia está concorrendo a cinco estatuetas do Oscar: melhor filme, melhor ator principal, melhor ator coadjuvante, melhor roteiro original e melhor montagem. Ótima leitura!


O filme conta a história do Dr. Don Shirley (Mahershala Ali), um pianista famoso. O contexto histórico narrado se passa na década de 60, nos EUA. Shirley é um afro americano que foi criado próximo a alta sociedade, e tem um capital cultural bastante refinado. Tony Vallelonga (Viggo Mortensen) é um ítalo-americano de classe média baixa, com modos bastante grosseiros, um jeito malandro e um vocabulário chulo. Shirley contrata Valle como motorista para uma turnê de dois meses ao sul dos EUA, em um período fortemente ainda marcado pela segregação racial. Toda a história é contada na experiência de ambos durante a aventurosa viagem.


Shirley foi criado no norte dos EUA, onde o racismo é menos tolerado, mas, mesmo assim, decide sair da zona de conforto, de um estilo de vida mais cômodo, para conhecer o sul do país, enfrentando todo tipo de preconceito em vários estados, como Alabama, Ohio, Mississipi. Ao longo do filme, ele conta que queria mudar o coração dos racistas mostrando a sua arte.


A crítica a discriminação racial é muito forte. A relação entre um motorista branco e um chefe negro era algo chocante para a sociedade naquela época, pois este não era visto como alguém capaz de ocupar o lugar de um branco. É justamente esses conflitos entre as diferentes posições sociais que geram no telespectador o sentimento de absurdo, injustiça, mal estar. Shirley é julgado pela sua cor, independente de sua posição social ou sua humanidade. O negro visto naquele período (e infelizmente ainda hoje por muitas pessoas) é como um sub-humano ou um ser subalterno. É surreal ver a protagonista ter que passar por diversas situações constrangedoras e humilhantes por causa do racismo doentio. O músico enfrentou a hostilidade de donos e funcionários de restaurantes, hotéis , bares e lojas. A gente vai sofrendo junto com ele nessa caminhada.


Outra questão bastante interessante abordada no filme é a solidão do pianista em relação aos outros negros, pois ele alcançou uma posição social incomum aos afro-americanos. O músico não tinha amigos e nem contato com parentes. Os modos de vestir-se, de comer, o estilo musical mais clássico, os delicados modos de falar e comportar-se estão dentro de uma configuração quase inexistente para os negros daquela época. E estar dentro de um campo econômico e social superior era sinônimo de discriminação de brancos e negros, mesmo Shirley sendo um homem culto. Algo ainda bastante real nos dias atuais.


Por outro lado, Vallelonga não é solitário, pois vem de uma tradição italiana que dá bastante ênfase a comunhão familiar, e a condição social de seus pares é similar. Os hábitos que possui, as músicas que escuta, fazem parte de uma camada mais pobre da sociedade, justamente a maioria dos afro americanos. Ele conhecia Aretha Franklin, por exemplo, e Shirley não.


O ítalo-americano vai mudando aos poucos seu pensamento em relação aos negros. A priori, para ele todo negro tinha os mesmos gostos; era impensável que um negro nunca tivesse degustado frango assado, e ele jamais imaginou ter um amigo negro. Mas a afetividade das personagens vai sendo construída ao longo da história, e este é um ponto muito emocionante do filme. A convivência, a intimidade, a empatia é capaz de modificar um habitus [1] segregador e transformar as relações sociais, e, nesse caso, gerar uma respeitosa amizade.


Por fim, nobilíssimos, recomendo demais esta obra cinematográfica de primeira classe. Acredito que tem absolutamente os requisitos necessários para ganhar o Oscar 2019 de melhor filme. Além de ter um ótimo roteiro, excelentes atores e personagens bem trabalhados, faz uma crítica muito visceral ao racismo, num período também em que os direitos civis e políticos concedidos ao negros no EUA só ocorreriam algum tempo depois.


Até a próxima!


[1] De acordo com o sociólogo francês Pierre Bourdieu, habitus são estruturas mentais apreendidas ou interiorizadas das estruturas do mundo social, que ocorre desde a nossa infância.


Link da imagem: https://observatoriodocinema.bol.uol.com.br/filmes/2018/11/green-book-o-guia-filme-favorito-ao-oscar-ganha-trailer-legendado


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