Oroboro: processo criativo de uma experiência de vídeo-performance no “Cinema Transcendental”.

February 20, 2019

 

Entre os dias 21 de janeiro e 01 de fevereiro tive a oportunidade de estar imerso na obra de Caetano Veloso ao participar da oficina de audiovisual “Cinema Transcendental” realizada pela Voo Audiovisual, no Forte do Barbalho, numa iniciativa que integra o projeto “Caetanear”, uma experiência que envolve a criação e experimentação de diversas formas expressivas cênico-cinematográficas, tendo como temática a obra poético-musical do cantor e compositor.

 

Desde janeiro até abril de 2019 diversas ações serão desenvolvidas: 4 oficinas (teatro, dança, música e audiovisual), 3 palestras, mostra de filmes, performances, festa, ensaios abertos, projeto de mediação tendo como culminância a produção da 4ª versão do espetáculo “Velôsidade Máxima”. Segundo Fábio Vidal, coordenador geral do projeto, há uma rede de parceiros que compartilham suas experiências nesse grande evento: “Território Sirius Teatro, União Instável, VOO Audiovisual, Digital Film, Multi Planejamento Cultural, BIZ Comunicação, Daniel Becker, Zuarte Junior, Nando Zâmbia, Rino de Carvalho, Jarbas Bitencourt e tantos outros que vão mergulhando conosco nesse universo. Criamos por essa união um local de confluência para geração de diversas formas expressivas cênico-cinematográficas”.

 

A oficina Cinema Transcendental proporcionou quarenta horas de muita informação e conhecimento por meio de conteúdos introdutórios sobre o processo de produção audiovisual e seu mercado de trabalho, trocas de experiências e uma vivência prática intensa muito enriquecedora sobre o universo e a linguagem do audiovisual, onde nós pudemos experimentar as várias etapas da realização de um vídeo-performance tendo como matriz a obra de Caetano Veloso.

 

A turma foi bem diversificada contendo, tanto pessoas que já possuem alguma experiência em audiovisual, como também outras que estão começando, o que tornou o processo de criação ainda mais instigante, pois possibilitou uma maior interação e troca de conhecimentos.

 

O que pretendo desenvolver aqui é apenas um relato de experiência do processo criativo, dando margem a algumas reflexões acerca das possibilidades de adaptação e apropriação das letras das músicas “Cajuína” e “Oração ao tempo”, ambas de autoria de Caetano Veloso, na elaboração do discurso audiovisual resultante no vídeo-performance intitulado “Oroboro”.

 

Após as devidas apresentações da turma e dos ministrantes da oficina, Edson Bastos e Henrique Filho, que também explanaram sobre a Voo Audiovisual, seus projetos e plataformas de atuação no mercado, houve uma aula expositiva sobre o panorama do mercado audiovisual na Bahia, elementos da linguagem cinematográfica, inclusive com a exibição de alguns dos trabalhos da produtora.

 

Em seguida eles informaram sobre a formação de três equipes para a realização de três vídeos, a partir dos álbuns: “Cinema Transcendental” (1979) e “Transas” (1972). Enfatizaram a importância da performance corporal nas produções como experimentação estética e sinalizaram sobre o Vide_o_verso, programa de performances audiovisuais e poesia, realizado pela Voo, que eles indicaram para inspiração no processo de criação dos vídeos.

A criação do roteiro poderia ser experimental, não havendo uma necessidade de formatá-lo dentro das normas preestabelecidas. Importava mais o cuidado com as imagens-símbolo e de como organizar a estrutura na produção. O que me pareceu muito provocador essa liberdade de criação, esse movimento estético amparado nas técnicas, mas dando espaço ao improviso, ao acaso criativo.

 

Após a imersão na obra de Caetano Veloso por meio de livros, músicas, iconografia, as equipes reuniram-se para uma tempestade de ideias: cada um deveria escolher uma música e apresentar sugestões para a criação do roteiro e posterior produção do vídeo.

 

Houve alguns conflitos de ideias no momento de decidirmos o levantamento das cenas do roteiro, mas a tensão foi importante para o processo de criação, pois nos impulsionou a pensar um pouco além dos significados presentes nas músicas.

 

Edson nos conduziu com alguns exercícios de execução de ideias, de criação de imagens e situações, como aquecimento do que iríamos preparar em seguida. Como esse processo imagético poderia ser útil para a elaboração do roteiro. Sugeriu que buscássemos elementos de ligação entre as imagens e as palavras. Refletimos sobre a importância do treinamento, da disciplina, da experimentação e constante estudo até conseguir consolidar uma identidade criativa.

 

Divisão dos grupos a partir das ideias afins. E escolha das funções que cada um queria desenvolver. Eles falaram da importância de tentarmos mesclar as questões afetivas ao discurso político atual e também lembrar da memória histórica presente no espaço do Forte do Barbalho que foi um lugar de torturas na ditadura.

Como não poderia deixar de ser, diante da atual conjuntura política brasileira, ao realizarmos a oficina no Forte, refletimos sobre a consequência disso no passado e atualizamos, por meio do nosso olhar, a potencialidade da arte como instigadora e questionadora diante da possibilidade da perda de nossos direitos.

 

Lúcio afirma sobre esse tema: “A gente pensar em Caetano no espaço que a gente está agora, que é o Forte do Barbalho é importante, lugar onde foi um marco da ditadura no Brasil e na Bahia”. Isadora por sua vez atesta: “Acho que é tão marcante que a gente estude Caetano na atual conjuntura de um governo que é ditatorial. Acho isso muito marcante do curso de pensar Caetano, de pensar a dança, o audiovisual”. E Lalesca corrobora: "Ele [Caetano] viveu na ditadura, e nessa mudança de governo atual, então é um comparativo muito importante entender a história a partir das obras dele".

 

A equipe  da qual fiz parte foi composta também Denière Rocha, Isadora Cruz, Lúcio Pedreira, e Lalesca Weisz – se reuniu para definir as ideias e como iria realizar a produção da performance (a criação do roteiro foi coletiva). Escolhemos como mote principal a transição das fases da vida. O ator Claudio Machado (União Instável) foi escolhido para atuar em nosso vídeo. E para nossa surpresa, o tema que nós escolhemos para trabalhar tinha conexão com o que ele estava desenvolvendo na oficina “Velô em Solos” ministrada por Fábio Vidal.

 

O roteiro seguiu a seguinte ordem: nascimento, a imagem escolhida foi a do casulo. Na Infância, o brincar no balanço que foi intensificado com o elemento das bolhas de sabão. A juventude com a performance das frutas. A adultez simbolizada pelo performer se aventurando na mureta ao pôr do sol. A velhice mostra a transcendência de um sábio ancião. O ritual de passagem: transmissão da cultura e experiência ancestral.

 

Após a apresentação e defesa das cenas e conceitos, Henrique e Edson pontuaram sobre a produção, o cuidado em se listar tudo o que será necessário para gravação, mas eles lembraram que temos que ficar atentos para sempre otimizar o tempo e a própria produção. Foi um dia para ajustes e afinações das cenas e escolha dos cenários junto com Cláudio Machado, que gentilmente nos sugeriu muitas ideias interessantes.

 

A gravação do vídeo foi realizada no dia 28.01.19. Nós tínhamos 4 horas para gravar toda a sequência proposta no roteiro. A edição também foi realizada em parceria coletiva com o suporte de Henrique Filho que já havia iniciado o processo. Com as mudanças que fizemos o vídeo ganhou mais sentido, transições e outra dinâmica. A narrativa audiovisual ficou bem mais definida.

 

Assumi juntamente com Lúcio, a produção da sonoplastia e trilha sonora utilizada. Escolhemos trilhas disponíveis na internet (sons de água e outras), captamos o som da respiração de Cláudio, além de criarmos duas faixas com instrumentos como maraca, kalimba e atabaque. Houve também um trabalho de adaptação de trechos das letras das músicas escolhidas, interpretadas pelo performer.

 

Sobre o processo de criação, Lúcio afirma que “ ‘Oração ao tempo’ sempre me marcou. E cajuína eu gosto muito da história da composição. E mesclar essas duas obras foi muito legal. Nós conseguimos construir a nossa perspectiva a partir da perspectiva do outro”. Já Lalesca, filosofa em sua reflexão sobre o que aprendeu: “São cinco tempos dentro de uma equipe para compreender a ideia de tempo no tempo de Caetano.  E Isadora afirma que o que ficou mais forte para ela foi que “o cinema é uma arte que precisa de coletividade e a partir disso, a gente consegue aprender com o outro, sobre o outro e sobre nós mesmos. É a construção do eu no coletivo”.

 

Houve nessa produção um trabalho intenso e gratificante. Todos colaboraram e se empenharam ao máximo para realizar um produto que tivesse um significado e uma mensagem de reflexão sobre a própria existência e sua relação com o tempo, assim como o fez o grande mestre Caetano Veloso em suas canções.

 

O lançamento dos vídeos resultantes da oficina (além de "Oroboro", "Um por um" e "Bandeira branca enfiada em pau forte" ) acontecerá no próximo sábado, 23/02 dentro da programação do Usina Veloso, a partir das 18h, na Casa Charriot, com entrada gratuita. Para conferir toda a programação acesse o site: www.territoriosirius.com.br

  

 

 

Ficha Técnica:

 

Performance – Claudio Machado

Concepção roteiro – Deniere Rocha, Isadora Cruz, Lalesca Weisz, Lúcio Pedreira e Ronaldo Magalhães

Texto adaptado (Cajuína e Oração ao tempo – Caetano Veloso) – Ronaldo Magalhães

Direção – Deniere Rocha e Henrique Filho

Produção – Lalesca Weisz e Ronaldo Magalhães

Arte – Isadora Cruz

Fotografia e Edição – Henrique Filho

Desenho de som – Lúcio Pedreira e Ronaldo Magalhães

Colaboração – Ana Paula Vasconcelos e Edson Bastos

Realização – Voo Audiovisual

Projeto Caetanear 

 

Crédito Foto: Henrique Filho

 

 

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