ANGÚSTIAS DE VIDA NOS ENCONTROS COM A MORTE

February 21, 2019

Flávio Rocha de Deus

  

 

 

 

 

Às vezes, como a maioria dos adolescentes tristes, ou entediados, ou que conhecem um pouco sobre filosofia, ou todas as alternativas anteriores ao mesmo tempo, encontro-me refletindo sobre a existência. Sua possível gratuidade, a angústia de seu incontestável fim, e, consequentemente, o que fazer até que ele chegue.

 

Na história da humanidade acredito que existem dois questionamentos metafísicos que nos acompanham desde o nosso primeiro ancestral, que inocentemente olhou para o céu, se perguntou “o que isso significa?” e, assustado, com o silêncio do universo em relação a sua pergunta, decidiu responder a sí mesmo e fingir que foi o universo que lhe deu a resposta. E se foi o universo que disse, quem seria ele para discordar? Parece bobo, mas acontece. Deus e o pós-morte são essas questões. Um que supostamente nos diria como chegamos e como andamos nessa estrada que é a vida e outro que nos revela para onde vamos depois que virarmos a esquina escura que é a morte.

 

Deus foi um bom pai para uma espécie reflexiva que necessita de significados e que tinha acabado de sair das fraudas, mas uma hora a criança cresce. Mais cedo ou mais tarde os filhos se revoltam, ou saem de casa, ou o trocam por outro pai: religioso, político ou pessoal. A penúltima alternativa é a mais provável. A quantidade de vezes que a morte sofreu uma idealização talvez se equipare ao número de estrelas que encontramos no céu noturno. Um eterno mistério, que com o tempo cansou. Igual a um amigo que por tanto falar de um segredo, faz com que ele se torne desinteressante. Promessas não duram para sempre, e o que são as realidades pós-morte se não uma promessa que nunca podemos ver ser cumprida. Mas uma coisa ainda é válida na morte: o medo. 

 

Acredito que com o tempo, seguindo o pensamento de filósofos como Epicuro, Nietzsche, Albert Camus, Alfred Ayer e muitos outros, que consideravam inútil se questionar quem nos lançou no mundo e para onde vamos, nós nos deparamos com um novo e angustiante mal-estar: Sem uma recompensa garantida – que às vezes pode ser só a sensação de saber como vai terminar, seja bem ou mal – no pós-morte nos sentimos traídos e injustiçados ao ter que fazer na terra o reino dos céus, e garantir na vida a sua própria felicidade.

 

Por que pensamos na morte? Não parece ser irrelevante? Epicuro disse que a morte não é nada para nós, pois quando estamos ela não está, e quando ela está, nós não estamos. Portanto, o que devemos nos preocupar, não é o além, mas o aqui. Talvez, como nos mostra a história dos cães de Schopenhauer, a morte é muito menos significante para o ser que a encontra e muito mais para aqueles que a observam: os vivos.

 

Apesar da morte, como coisa vivida, não parecer nada interessante, e seu acontecimento nada contribuir para o sujeito que a encontra, o conhecimento da morte, saber que ela existe, que o fim nos aguarda, é de uma contribuição à vida, que não tem comparação. Se, segundo Schopenhauer, nós só filosofamos porque sabemos que vamos morrer, não tem nada que torne a vida melhor do que saber do seu fim. Ainda seguindo o pensamento do filósofo alemão, acho que é melhor morrer no desejo do que no tédio. Quando eu leio o conto “O Imortal” de Borges, tem uma parte que vem ao meu encontro mais do que as outras: “No palácio que imperfeitamente explorei, a arquitetura carecia de fim.” Obviamente haverá dezenas de outras interpretações, afinal, é Borges, mas, quando li, eu me perguntei: Sabendo que temos todo o tempo do mundo, por que nos apressaríamos para fazer algo? E por que se preocupar em terminar algo? Temos todo o tempo do mundo para fazer tudo, deixa ai, depois terminamos. Chego à conclusão de que a morte não é só um “fim”, mas que talvez seja o “fim” original, que nos deu a noção de fim para todas as outras coisas. Se neste mesmo conto, o protagonista diz que conversou “com filósofos que sentiram que prolongar a vida do homem era prolongar sua agonia e multiplicar o número de suas mortes” devemos concordar que “a morte (ou sua alusão) torna preciosos e patéticos os homens” e, consequentemente, a vida.

 

Em um dos filmes mais bonitos que já vi: O novíssimo testamento – filme belga de 2016 – Deus mora em Bruxelas, em um modesto apartamento com sua filha de 10 anos Ea e, sua esposa, Deusa. Esta, por medo do marido, é absolutamente reprimida e nunca abre a boca para dizer nada, e aquela se rebela contra a tirania do pai ao descobrir o que ele faz com os seus brinquedinhos: nós.

 

A concepção de Deus e sua relação com o homem que este filme de pouco menos de duas horas nos apresenta, é incrível, mas, neste texto, vamos focar em outra parte do filme, mais significante do que deus: Nós. Para ser mais específico, a nossa postura em vida em relação à morte e sua proximidade.

 

Ea, filha de Deus, antes de vir a terra, fugindo de seu violento pai, e encontrar seis novos apóstolos, decide que deve magoar seu genitor, oferecendo aos homens o conhecimento da data de seus respectivos falecimentos. Os efeitos são os mais diversos: Soldados que abandonaram o campo de guerra, pessoas que ostentam sua longevidade, outros que a desafiam e a usa como material audiovisual para redes sociais...  

 

“A primeira apóstola chamava-se Aurélie. Quando soube quanto tempo ainda tinha de vida decidiu não mudar nada e continuar como antes.” Aurélie sempre me causou um enorme fascínio, porque eu até hoje não compreendo se ela não alterou sua vida por desistência, tédio, ou aceitação e satisfação com a vida que leva, provavelmente seja a ultima opção. Mas o que acho mais interessante é quando colocamos esta história ao lado da história do segundo apóstolo. Eu vejo ambos como representantes do sim e do não diante a vida. A satisfação e decepção.

 

“Durante muito tempo ele foi o maior aventureiro que o mundo havia conhecido. Depois de um dia, ninguém sabe o porquê, ele parou. E assim sua vida ficou reduzida.” Esta citação narra a história de Jean-Claude, o segundo apóstolo, e talvez aquele com a narrativa mais inspiradora, talvez não pela atitude em sí, mas pela história que a precede, que, acredito eu, é compartilhada por muitos. Ele foi trabalhar com gerente adjunto de uma rede não muito grande, conseguindo progredir na carreira e alcançando o cargo de gerente de orçamentos do departamento de controle, cargo este que ele resume em: Eu conto números. Quando ele – a caminho do trabalho – soube quanto tempo de vida lhe restava, decidiu sentar em um banco do parque e nunca mais se mexer. Depois de anos, para em um local para contemplar a beleza de uma simples visão de um lago que seu banco lhe proporcionava, ao ser visitado por Ea, ele pergunta para ela que possui um pássaro em seu dedo “Por que ele fica só neste parque se pode voar para onde quiser?” Ela, que naturalmente fala a língua das aves, pergunta a ave, e ela sabiamente responde “A pergunta também é válida para você”.

 

Há quem concorde – e eu me incluo – que a essência primeira do ser humano é a sua sobrevivência, e vou um pouco mais além e digo que todo ser busca sua própria felicidade, entretanto, sobrevivência e felicidade nem sempre estão caminhando paralelamente. Ainda falando sobre o filme, a incerteza da morte nos prende à sobrevivência, mas a iminência da morte nos prende ao desejo de felicidade.

 

Sobre esse segundo apóstolo, se cada vez mais resumimos a nossa vida ao nome da nossa profissão, pense o quão sofrível não é para as pessoas que a vida realmente é a própria profissão. Entretanto a profissão não é aquilo que impulsiona a felicidade em suas vidas. Onde a profissão é sua sobrevivência, talvez lateje a frase algumas vezes proferida por Marcos e Abby na série The 100 “Primeiro nós sobrevivemos. Depois resgatamos a nossa humanidade” ou nossa felicidade. Humanidade e felicidade nem sempre andam de mãos dadas.


No O mito de Sísifo Albert Camus nos diz que somos iguais a Sísifo, condenado pelos deuses a rolar uma enorme pedra montanha a cima e observá-la rolar montanha abaixo, para logo, em seguida, levá-la novamente para cima, para vê-la rolar para baixo e assim pela eternidade. Neste filme, o “rolar para baixo” entendam como “morte” para a explanação que farei. Nós nunca vemos o rolar para baixo, nós simplesmente apagamos e a pedra rola, nunca teremos a sensação de ver a pedra rolar. Pois, para nós, a pedra só rola para baixo quando morrermos, e morrer significa não ver, ouvir, sentir, cheirar, tocar mais nada. O que os olhos não veem o coração não sente. Entretanto, no filme, a morte – o rolar para baixo – chega ainda em vida, e eles veem a pedra rolar a partir do momento que recebem quanto tempo de vida tem. A morte, neste caso, não vai ser daqui a 83 dias, como foi o caso do maníaco sexual no filme. A morte começa assim que a mensagem, e chega. A morte dele durou 83 dias.

 

Começamos a morrer a partir do momento que temos consciência dela, e quanto mais certa for a previsão de morte, mais forte é a sensação da morte. É ver a pedra rolar para baixo, e aqui nós começaremos a separar o joio do trigo: Aqueles fizeram uma escalada agradável, levando sua pedra para o topo, provavelmente não possuirão incômodo, pois não sentirão que a escalada foi um desperdício. Adoramos desperdiçar prazeres, mas dores, essas nós temos a necessidade de acreditar que são necessárias. E aqueles que voltam para pegar a pedra desesperadamente para empurrá-la montanha acima, porém, desta vez, de uma forma mais “apropriada”, aparentemente porque consideraram essa escalada inadequada e querem reviver como acharam que deveria. A morte não começa quando nosso coração para de bater e nosso cérebro é desligado, mas, filosoficamente falando, no caso do filme – talvez na vida real aconteça em casos de pessoas que descobrem enfermidade que datam sua vida – a morte de todos eles, no filme, começa no momento que recebem a mensagem, de quanto tempo ainda iria rolar a pedra sem vê-la cair.

 

Referências da Imagem:

 

http://ftp.portaldoholanda.com.br/variedades/ciencia-explica-porque-o-tempo-passa-rapido-quando-voce-se-diverte
 

  

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