Bipolaridade: perdido em uma montanha russa de emoções

March 30, 2019

 

 

“Eu acho que você é bipolar. Uma hora está muito bem, daqui a pouco já fica insuportável!” 
 

Não é difícil ouvir frases semelhantes a essa no nosso cotidiano, não é mesmo?
É um tal  de bipolar pra cá, bipolar pra lá. Nunca se ouviu tanto esse termo. O que não quer dizer que as pessoas estejam íntimas do real significado e peso que essa palavra traz.


Bipolar, é na verdade Transtorno de Humor Bipolar ou Transtorno Afetivo Bipolar. Ele faz parte da categoria dos Transtornos de Humor, juntamente com a Depressão, por exemplo.


Assim como nunca se comentou tanto sobre isso, também arrisco dizer que nunca houveram tantos diagnósticos desse transtorno nos serviços e clínicas de saúde mental. É o que observo todos os dias no meu local de trabalho.
Segundo as estatísticas, o distúrbio já acomete de 2 a 3% da população mundial. É muita gente.


Mas qual o motivo disso? Será uma epidemia? Será que os genes de humor oscilante estão sendo transmitidos com mais frequência? A nossa conjuntura social favoreceu o aparecimento de casos? O estresse crescente na nossa vida pode ter desencadeado a doença em uma parcela maior da população? Podem ter sido todas as alternativas anteriores.


Ou será que simplesmente não eram reconhecidos, ali na multidão, entre pessoas comuns, às vezes nem tão comuns assim?
Vou te dar um exemplo, leitor: Vincent Van Gogh. Sim, o brilhante pintor holandês. Talvez você o conheça como “aquele cara que cortou a própria orelha".


Vincent tinha Transtorno Bipolar. Claro que esse foi um diagnóstico póstumo. Naqueles idos 1890 ainda não tinha sido criada tal nomenclatura. Mas, quem conviveu com o ruivo certamente notou seus altos e baixos de humor.


“Poxa, Vincent, que saco, hein! um dia você está super animado, pintando sem parar, no outro fica deprê e ainda corta a orelha?! Fala sério! Você tem que ir no médico de cabeça.”
Seria cômico, se não fosse trágico. Provavelmente Van Gogh sofreu muito com essas mudanças no modo como experimentava suas emoções a ações.

 

Ele conseguiu criar mais de 2 mil trabalhos em uma década. Sendo que desses, a maioria de pinturas à óleo, foram feitos nos seus últimos dois anos de vida. Produtividade e tanto, concordam?
Isso não veio do nada. É claro que não estou sugerindo que o mérito das belas telas do holandês, como A Noite Estrelada e Os Girassóis  se deva somente a um número de CID (Classificação Internacional de Doenças). 
No entanto, tanta produção assim, pode ter tido um empurrãozinho do comportamento acelerado, comum em alguns momentos quando se é bipolar.

 

O nome já diz: dois pólos, dois lados, duas reações, dois sentimentos. A pessoa acometida dessa condição caminha entre episódios depressivos e hipomaníacos/maníacos, com pontes de estabilidade no meio, claro! Uns mais que outros, infelizmente.


Quando ela está em um dos extremos, fica pra baixo, se autocritica, chora com facilidade, tem uma sensação vazio, não vê esperança nem graça em sua vida. É como se usasse óculos de lentes pretas, através do qual só se vê desventuras e tristezas. Principalmente nela mesma.


Mas depois de um tempo, que não é tão rápido como se pensa, isso pode dar lugar à uma euforia descomunal, muita criatividade, agitação, a cabeça fica a mil por hora. E aí ela é a pessoa mais poderosa e atraente, bem impulsiva também. Não podemos esquecer que ao invés dessa alegria fora do comum, pode haver uma irritabilidade por qualquer coisinha que aconteça.


No tipo mais grave de bipolaridade, o indivíduo pode apresentar sintomas psicóticos, ou seja, as alucinações e delírios. Inclusive a maioria das pessoas logo associa a ocorrência da doença, com esse tipo específico. Porém, o outro tipo, onde não há psicose, tem uma incidência grande, e é pouco diagnosticado.
O que acontece é que quem está ao redor confunde as oscilações com características de personalidade, como dramaticidade, energia, criatividade, impulsividade, explosão, melancolia, etc. Por esse motivo, pode-se passar uma vida inteira sofrendo com uma montanha russa de emoções, sem tratamento adequado.


Talvez acontecesse isso com o Vincent, mesmo atualmente. O excêntrico e temperamental pintor. Afinal ele era uma artista, artistas podem agir assim, são de veneta! Van Gogh sofreu, como tantos sofrem ainda, sem entender o porquê de se sentirem e agirem dessa forma. E sua doença o levou ao suicídio, aos 37 anos, na França. Um disparo que deu fim à sua agonia e sentimento de incompreensão. Segundo seu irmão Theo, suas últimas palavras foram :"A tristeza vai durar para sempre."


Infelizmente, a bipolaridade ainda é um dos transtornos que mais têm incidência de suicídio.
Mas não é uma sentença! Quem tem Transtorno Bipolar pode ter uma vida bastante normal (claro que há casos mais graves, nos quais a limitação pode ser maior), desde que se faça o tratamento corretamente. 
Não é à toa que personalidades que se declararam publicamente portadores da doença, a exemplo da cantora Rita Lee e da atriz Cássia Kiss, e tantos outros anônimos que passam por isso todos os dias, vivem bem apesar dos ciclos.


O Dia Internacional do Transtorno Bipolar é exatamente hoje, 30 de março, e esta data foi escolhida por causa dele, Vincent Van Gogh, é sua data de nascimento.
Espero que você, a partir de agora, tenha mais cuidado ao usar essa palavra, e tenha compreendido que bipolaridade não é brincadeira, charminho ou gênio difícil.


 

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