• autor convidado

Biologia também tem lado político

Por Armando Januário dos Santos*

Com a crescente onda mundial de conservadorismo, os ataques às minorias sociais têm se tornado cada vez mais ostensivos. No plano tático, provocar conflitos entre populações historicamente oprimidas é uma maneira de acirrar tensões e aprofundar ódios.


Nas redes sociais, a intolerância contra as diferenças, vem sendo – desde as Jornadas de Junho de 2013, passando pelo golpe de 2016, até culminar na eleição presidencial de um governo de extrema direita – disseminadas calculadamente. A última é questionar, sem bases científicas – ou com o uso de pseudociência – a participação de mulheres transexuais[1] em modalidades esportivas, utilizando o argumento que, as mulheres cisgêneras[2] lutaram muito para ter seu espaço, o qual estaria sendo invadido por homens com corpos modificados. Essa artimanha não é nova. Utilizar o saber biomédico para construir discursos (bio)políticos, verdadeiros agentes da exclusão social, é recurso antigo, utilizado pelo ultraconservadorismo em tempos de crise econômica, a fim de aniquilar grupos sociais sempre alvo de perseguição. Nesse cenário, culpabilizar pobres, mulheres – cis e trans – negros, indígenas, ciganos e demais minorias é corriqueiro e necessário para a manutenção do sistema capitalista. Na verdade, quando é preciso, o próprio capistalismo se vale das radicalizações e extremismos para avançar, ou, no mínimo, garantir sua manutenção. A farsa contida em defender os direitos de mulheres cis, levando-as a lutar contra a inclusão de mulheres trans em competições esportivas, é apenas mais um capítulo patético do ódio promovido com o intuito de dividir e dizimar. Dividir grupos social e historicamente vulneráveis e dizimar os poucos direitos que conquistaram.


Lembro de uma certa coluna, intitulada Biologia não é de direita e nem de esquerda, do jornal Estadão, assinada pela ex-jogadora de vôlei feminino Ana Paula Henkel, em dezembro de 2017. Nela, Ana Paula demonstrou flagrante desconhecimento histórico e marcante pensamento acrítico: quem minimamente se informa acerca da história das ciências, sabe que o discurso científico constantemente esteve ao lado de paradigmas racistas e promotores de diversas iniquidades. Foi assim que Cesare Lombroso (1835-1909), cientista italiano, considerado pai da criminologia moderna, desenvolveu a teoria de que pessoas mais altas que a média, com crânio menor que aquelas consideradas normais e maior do que os denominados loucos, eram potenciais criminosos. O resultado, todxs sabemos: Adolf Hitler se valeu desse saber pseudocientífico para perseguir e assassinar mais de 6 milhões de judeus durante a Segunda Grande Guerra.


Entre fins do século XVIII e início do século XIX, o discurso científico passou a causar mais impacto na vida das pessoas. Teorias no campo da Biologia passaram a determinar que alguns grupos humanos eram superiores a outros. Surgiu, assim, o determinismo social, que vê o ser humano como resultado do ambiente em que se desenvolve. Ao mesmo tempo, os cientistas que defendiam a posição do darwinismo social, afirmavam que a miscigenação era uma anormalidade, posto que, em sua visão, características adquiridas eram impossíveis de serem transmitidas, ainda que através de uma suposta evolução social. Em termos simples, isso quer dizer que pessoas com determinados caracteres físicos e oriundas de certas etnias, seriam inferiores a outras e até mesmo criminosas. Nesses termos, estabelecem-se as bases científicas para as mais diversas formas de discriminação contra minorias sociais.


Apesar do avanço científico sem precedentes que experimentamos hoje – teorias racistas e que difundem qualquer forma de preconceito e discriminação são amplamente rechaçadas – muito ficou do século XIX. Diversos cientistas ainda defendem teses que funcionam como dispositivos para a disseminação de desigualdades. Contudo, a mesma ciência que pode institucionalizar violações de direitos, pode também, nas mãos certas, fomentar a promoção da igualdade. Baseando-se em estudos que comprovam que uma mulher trans após 12 meses de hormonioterapia e atestando índices de testosterona inferior a 10 nmol/L, está apta para atuar em competições de voleibol feminino, o Comitê Olímpico Internacional (COI), a Federação Internacional de Voleibol (FIVB) e a Confederação Brasileira de Voleibol (CBV) autorizaram a atuação de Tiffany Abreu, atleta trans em competições femininas de vôlei: ela tem testosterona equivalente a 0,2 nmol/L. Tiffany se destacou, quebrando o recorde de pontuação na Superliga Feminina de Vôlei de 2018, ao marcar, em uma partida, 39 pontos. O recorde anterior era de Tandara, mulher cis, que havia marcado 36.


A justificativa de Ana Paula para que Tiffany deixe de competir na modalidade feminina diz respeito a sua estrutura osteomuscular: ela teria um coração e braços maiores, além de ossos mais resistentes. Na sua interpretação do estudo de Joanna Harper – fisicista do Providence Portland Medical Center – a ex-jogadora alega que isso faz Tiffany levar vantagem. Entretanto, na mesma pesquisa, intitulada Race Times For Transgender Athletes, Harper comprova que a hormonioterapia reduz, em travestis e mulheres trans, elementos decisivos na quadra: densidade óssea, massa muscular, força, resistência física e velocidade. Neste ponto, como parece não haver espaço para uma defesa científica do seu paradigma, Ana Paula recorreu a um expediente bem conhecido de pessoas conservadoras: aludir ao nome de registro, já modificado em todos os documentos de Tiffany.


A impressão que fica da infeliz argumentação desenvolvida por Ana Paula é a mesma que trago comigo desde 2011, quando comecei a pesquisar sobre pessoas trans e travestis: a entrada deste grupo social em espaços antes ocupados apenas por pessoas cis, é vista como antinatural. Para quem pensa assim, elas não podem estar em nenhum espaço de grande visibilidade, porque seus corpos não são adequados para isso. E ainda que se comprove que padrões de igualdade sejam estipulados e elas estejam em conformidade, segue-se negando sua participação.


Fica evidente, portanto, que a argumentação da autora expressa na frase Biologia não é de direita e nem de esquerda, não é para promover a igualdade no voleibol, muito menos em qualquer outro esporte. Antes, o que se pretende, é, simplesmente, por quaisquer meios possíveis, assegurar a manutenção da hegemonia cisgênera em nossa sociedade. E se para isso for necessário fechar os olhos para comprovações científicas, que seja.


Entretanto, o posicionamento reacionário de Ana Paula Henckel não deve surpreender: fervorosa defensora do golpe que destituiu a presidenta Dilma Rousseff, em sua conta no Twitter, Ana Paula se posicionou favorável às privatizações de empresas públicas brasileiras, além de declarar voto em Donald Trump – ela mora nos Estados Unidos desde 2009. A ex-musa do vôlei é, na atualidade, musa da direita conservadora, que anda de mãos dadas com o neofascismo. Pode-se esperar algo diferente que não seja transfobia sob o manto de um discurso científico?


Afirmar que a Biologia não tem lado político, reflete, no mínimo, uma grande desonestidade intelectual. Os processos biológicos, de fato, não são “de direita”, ou “de esquerda”, todavia, a ciência que os estuda tem posicionamentos políticos bastante delineados. Pode parecer risível dizer o óbvio, mas cientistas são humanos, pensam e tomam partido. A menos que Ana Paula e outras atletas contrárias à inclusão de mulheres trans em atividades esportivas, do mais baixo discurso conservador, queiram fundar a Biologia Sem Partido...




* Sexólogo. Psicanalista em formação. Concluinte da graduação em Psicologia. Professor de Língua Inglesa. E-mail: armandopsicologia@yahoo.com.br


[1] Pessoas que tendo nascido com os órgãos sexuais masculinos contestam o gênero atribuído pela sociedade, que as denomina homens, e reivindicam reconhecimento como mulheres, buscando viver integralmente essa identidade de gênero.


[2] A palavra cis é de origem latina e significa alinhamento. Assim, cisgênera/o indica o alinhamento entre sexo de nascimento e gênero socialmente atribuído. Mulheres cisgêneras ou cis são aquelas que nasceram com os órgãos sexuais femininos e se identicam enquanto mulheres.

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